Você já teve tanta certeza de algo, apenas para perceber depois que estava completamente enganado?

A maioria das pessoas acha constrangedor estar errada, mas para Michel de Montaigne, isso era a coisa mais empolgante do mundo. Ele viveu durante o Renascimento Francês, uma época de enormes mudanças, e decidiu dedicar sua vida a investigar o único tema que ele conhecia melhor: ele mesmo.

Imagine uma torre de pedra alta no meio do campo francês. É o ano de 1571 e, fora dos muros, o mundo está confuso. As pessoas estão brigando por causa da religião, reis estão discutindo e todos parecem ter uma opinião alta e irritada sobre tudo.

Dentro da torre, um homem chamado Michel está fazendo algo estranho. Ele se aposentou do seu trabalho como advogado e político para sentar em um cômodo cheio de livros. Ele não está lá para escrever uma lei ou um livro didático. Ele está lá para observar seus próprios pensamentos como um cientista observa um inseto.

Imagine isso
O interior de uma biblioteca circular com livros e vigas.

Imagine um cômodo sem cantos. A biblioteca de Montaigne era redonda, então seus olhos podiam percorrer seus milhares de livros sem ficar presos. Nas vigas de madeira do teto, ele pintou 57 citações diferentes de escritores gregos e romanos antigos. Sempre que ele olhava para cima para pensar, ele via um céu feito de ideias.

Michel de Montaigne viveu em uma época de humanismo, um movimento onde as pessoas começaram a focar na vida e experiência humanas em vez de apenas em regras do passado. Ele queria saber por que gostava de certas comidas, por que sentia medo e por que sua mente mudava com tanta frequência.

Ele não queria ser um professor perfeito. Ele queria ser um ser humano de verdade. Ele começou a escrever seus pensamentos de uma maneira novíssima que ninguém jamais havia tentado.

Finn

Finn says:

"Espera, então ele apenas se sentou em uma torre e escreveu sobre o que lhe vinha à cabeça? Isso parece o melhor trabalho do mundo!"

A Invenção do Ensaio

Quando você ouve a palavra ensaio hoje, pode pensar em uma tarefa escolar. Mas quando Montaigne usava a palavra, ela significava algo muito mais aventureiro. Em francês, a palavra essai significa uma 'tentativa' ou um 'teste'.

Para Montaigne, um ensaio era uma forma de testar uma ideia. Ele não estava tentando provar que estava certo. Ele estava apenas tentando ver o que pensava sobre um tópico naquele exato momento.

Tente isso
Uma criança escrevendo em um caderno enquanto olha para uma uva.

Tente escrever um ensaio no 'estilo Montaigne' hoje. Escolha algo totalmente comum: o gosto de uma uva, a sensação de usar meias novas, ou por que você não gosta da cor amarela. Não se preocupe com introdução ou conclusão. Apenas escreva exatamente o que seu cérebro diz sobre isso, mesmo que você mude de ideia no meio do caminho!

Ele escreveu sobre coisas grandes, como a morte e a guerra, mas também escreveu sobre coisas pequenas. Escreveu sobre cheiros, sobre seu cavalo favorito e até sobre como odiava quando as pessoas falavam enquanto ele tentava comer.

Ele acreditava que, ao observar de perto esses pequenos detalhes, ele poderia entender o grande mistério do que significa estar vivo. Ele foi um pioneiro da autorreflexão, o ato de olhar para dentro para entender seu próprio caráter.

Michel de Montaigne

Que sais-je? (O que eu sei?)

Michel de Montaigne

Montaigne mandou gravar esta pergunta em uma medalha com um par de balanças. Ele queria se lembrar de sempre pesar as ideias em vez de simplesmente decidir que elas eram verdadeiras para sempre.

A Pergunta: O que Eu Sei?

Montaigne tinha um lema favorito que ele até mandou gravar em uma viga de madeira em seu teto. O lema era: Que sais-je? Isso se traduz como 'O que eu sei?'

Este é o coração do ceticismo. A maioria dos filósofos antes dele tentava encontrar a única 'Resposta Certa' para cada pergunta. Montaigne achava isso meio bobo. Ele percebeu que o mundo é muito grande e os humanos são muito limitados para saber tudo com certeza.

Mira

Mira says:

"É como olhar para uma ilusão de ótica. Se você inclinar a cabeça, a imagem inteira muda. Acho que Montaigne estava sempre inclinando a cabeça."

Ele notou que o que as pessoas pensam ser 'verdade' muitas vezes depende de onde nasceram ou em que época vivem. Ele foi um dos primeiros pensadores a falar sobre perspectiva. Ele percebeu que, se você tivesse nascido em um país diferente, teria verdades 'certas' completamente diferentes.

Isso não o deixou triste ou mal-humorado. Em vez disso, o deixou mais curioso e mais gentil. Se você sabe que pode estar errado, é muito mais provável que ouça as ideias dos outros sem ficar bravo.

Você sabia?
Um portão de castelo aberto mostrando um campo pacífico.

Montaigne não era apenas um escritor: ele também era um pacificador muito corajoso. Durante as guerras na França, ele manteve os portões de seu castelo abertos. Ele se recusou a trancá-los ou ter guardas, acreditando que, se mostrasse que não tinha medo e não era um inimigo, as pessoas respeitariam sua casa. Funcionou: sua casa nunca foi atacada.

A Sabedoria de um Gato

Uma das histórias mais famosas de Montaigne é sobre seu gato. Parece um momento simples, mas mudou a forma como as pessoas pensavam sobre o nosso lugar no mundo.

A maioria das pessoas em 1500 pensava que os humanos eram o centro do universo. Eles achavam que os animais eram apenas como pequenas máquinas que não tinham sentimentos ou pensamentos. Montaigne discordava.

Michel de Montaigne

Quando eu brinco com meu gato, quem sabe se não sou eu um passatempo para ela mais do que ela é para mim?

Michel de Montaigne

Isso vem de seu ensaio mais longo, onde ele argumenta que os humanos não são necessariamente superiores aos animais. Mostra sua capacidade de imaginar uma perspectiva completamente diferente da sua.

Esse pensamento foi uma grande mudança no julgamento. Isso nos lembra que não somos os únicos a ter um ponto de vista. Só porque um gato não consegue falar francês não significa que ele não esteja pensando, sentindo ou até mesmo rindo de nós do seu próprio jeito.

Montaigne adorava esse tipo de paradoxo. Um paradoxo é algo que parece contradizer a si mesmo, mas pode ser verdade. Neste caso: quanto mais percebemos que não sabemos, mais realmente entendemos sobre o mundo.

Finn

Finn says:

"Será que meu cachorro pensa que sou eu quem é o esquisito porque passo tanto tempo olhando para um retângulo brilhante!"

Ser uma Forma em Mudança

Montaigne notou algo sobre si mesmo que muitas pessoas tentam esconder: ele era inconsistente. Um dia ele se sentiria corajoso, e no dia seguinte se sentiria um covarde. Um dia ele amaria um certo livro, e uma semana depois o acharia chato.

Em vez de tentar consertar isso, ele celebrou. Ele disse: 'Eu dou à minha alma agora uma face, agora outra.' Ele acreditava que nossa identidade não é uma rocha sólida, mas sim como um rio que está sempre fluindo e mudando.

Dois lados
O Caminho 'Certo'

É melhor escolher um lado e se manter firme. Mudar de ideia faz você parecer fraco ou confuso. Assim que você souber a verdade, deve defendê-la para sempre.

O Caminho 'Montaigne'

O mundo está sempre mudando, e eu também. É mais honesto mudar de ideia quando aprendo algo novo. Estar 'certo' é apenas uma forma de impedir que seu cérebro cresça.

Esta é uma maneira muito útil de pensar quando você está crescendo. Você não precisa ser apenas uma coisa. Você pode ser músico hoje e cientista amanhã. Você pode ser tímido na escola, mas falante em casa. Montaigne diria que você está simplesmente explorando todas as partes diferentes de si mesmo.

Ele acreditava que a coisa mais grandiosa no mundo é saber como pertencer a si mesmo. Isso significa não deixar que as expectativas dos outros decidam quem você é. Significa estar confortável com sua própria mente estranha, em mudança, e confusa.

Você sabia?
Uma criança sendo acordada por um músico.

Montaigne teve uma educação muito estranha. Seu pai contratou um tutor que falava apenas latim com ele desde que era bebê. Nos primeiros anos de sua vida, ele não sabia uma palavra de francês! Ele até pedia para músicos o acordarem todas as manhãs com música suave para que seu cérebro não fosse 'chocado' para o dia.

A Beleza da Amizade

Montaigne também escreveu um dos ensaios mais famosos de todos sobre a amizade. Ele tinha um melhor amigo chamado Etienne de La Boétie. Eles eram tão próximos que as pessoas diziam que pareciam ter uma alma em dois corpos.

Quando as pessoas perguntavam a Montaigne por que eles eram tão bons amigos, ele não dava uma longa lista de razões. Ele não dizia que era porque gostavam dos mesmos esportes ou moravam na mesma cidade.

Michel de Montaigne

Se você me pressiona a dizer por que eu o amava, posso dizer mais nada do que porque era ele, porque era eu.

Michel de Montaigne

Montaigne escreveu isso sobre seu amigo Etienne. É uma das descrições mais famosas de amizade na história, sugerindo que a verdadeira conexão é um mistério que não precisa de uma lista de razões.

Ele entendia que algumas coisas na vida estão além da lógica. Você nem sempre pode explicar por que confia em alguém ou por que uma certa pessoa faz você se sentir em casa. Montaigne valorizava essas conexões humanas mais do que quase tudo.

A Jornada do Ensaio

1580
Montaigne publica os dois primeiros volumes de 'Os Ensaios' na França. As pessoas ficam chocadas por um livro poder ser tão pessoal.
1603
Os Ensaios são traduzidos para o inglês. Um dramaturgo chamado William Shakespeare os lê e começa a colocar as ideias de Montaigne em suas peças.
Década de 1840
Na América, Ralph Waldo Emerson lê Montaigne e percebe que não precisa ser um pregador: ele também pode ser um ensaísta.
Hoje
Toda vez que alguém escreve uma postagem de blog, um diário pessoal ou um longo texto em rede social sobre seus sentimentos, está seguindo o caminho que Montaigne iniciou.

Por que Montaigne Ainda Importa

Hoje, estamos cercados de pessoas que têm muita certeza de que estão certas. Você vê isso nas notícias, nas redes sociais e em brigas na rua. Montaigne nos oferece um caminho diferente: o caminho da humildade.

Ele nos ensina que tudo bem dizer 'eu não sei'. Ele nos ensina que nossa própria experiência é um professor valioso, mas não é o único professor. E, o mais importante, ele nos ensina que ser humano é um experimento grandioso, engraçado e confuso.

Algo para Pensar

Se você tivesse que escrever um livro sobre você, qual é uma coisa que você 'sabe' hoje que pode sentir diferente quando tiver oitenta anos?

Não há resposta certa aqui porque seu eu futuro é uma pessoa diferente de quem você é agora. Montaigne lhe diria para aproveitar o mistério de quem essa pessoa pode ser.

Escrever era a maneira de Montaigne conversar consigo mesmo e conosco através dos séculos. Ele não queria que o seguíssemos; ele queria que seguíssemos nossa própria curiosidade. Ele queria que olhássemos para nossas próprias vidas e encontrássemos a maravilha no meio da confusão do dia a dia.

Perguntas sobre Filosofia

Montaigne era um cientista?
Não da maneira que pensamos em cientistas hoje, mas ele usou uma mente científica para estudar a natureza humana. Ele observava seus próprios hábitos e sentimentos com o mesmo cuidado com que um biólogo observaria uma célula.
Ele realmente morou em uma torre?
Sim! Ele construiu uma biblioteca no terceiro andar de uma torre em seu castelo familiar. Era seu espaço 'privado', onde ele podia ficar sozinho com seus pensamentos e seus livros.
Por que ele escreveu tanto sobre si mesmo?
Ele acreditava que era o único assunto sobre o qual poderia ser um verdadeiro especialista. Ele pensava que, se descrevesse a si mesmo perfeitamente, outras pessoas reconheceriam partes de si mesmas em sua escrita.

Continue Tentando

Da próxima vez que você não tiver certeza de uma resposta na aula, ou sentir que mudou de ideia sobre seu hobby favorito, lembre-se de Michel. Ele encontrou liberdade em não precisar ser perfeito. Ele nos lembra que a vida não é uma prova que você passa ou falha: é um ensaio que você está constantemente escrevendo.