Se te entregassem um livro que contasse exatamente o que aconteceria em cada dia da sua vida, você teria vontade de lê-lo?

No meio do século XX, um homem chamado Jean-Paul Sartre defendeu que esse livro não existe. Ele se tornou o rosto do existencialismo, uma forma de pensar que diz que nascemos sem um propósito pré-definido, o que nos dá o livre-arbítrio radical para criarmos a nós mesmos do zero.

Imagine estar sentado em um café movimentado em Paris, há cerca de oitenta anos. O ar está carregado com o cheiro de café torrado e o som de pessoas discutindo grandes ideias. Em uma pequena mesa redonda, está sentado um homem de óculos grossos, escrevendo rapidamente em um caderno.

Este é Jean-Paul Sartre. Ele viveu em uma época em que o mundo parecia muito confuso e incerto, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial. Como as coisas estavam tão caóticas, ele começou a fazer uma pergunta muito profunda: Nascemos para ser algo específico ou decidimos quem somos ao longo do caminho?

Você sabia?
Pessoas trabalhando secretamente na Resistência Francesa.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Sartre foi prisioneiro de guerra por nove meses. Mais tarde, ele se juntou à Resistência Francesa, usando sua escrita para lutar pela liberdade contra a ocupação nazista. Essa experiência o fez perceber que, mesmo em uma cela de prisão, uma pessoa ainda tem a liberdade de escolher sua atitude.

Naquela época, a maioria das pessoas achava que os seres humanos eram como ferramentas. Se você faz um martelo, sabe exatamente para que ele serve antes mesmo de começar a fabricá-lo. O propósito dele é bater em pregos. Sartre, no entanto, achava que os humanos eram completamente diferentes.

Ele criou uma frase que parece complicada, mas na verdade é bem simples: a existência precede a essência. Isso significa que você aparece no mundo primeiro (existência) e, só depois de estar aqui, define que tipo de pessoa você é (essência).

Jean-Paul Sartre

A existência precede a essência.

Jean-Paul Sartre

Sartre disse isso durante uma palestra famosa em 1945 para explicar que os seres humanos não têm um 'projeto' embutido. Nós existimos primeiro e depois definimos quem somos através das nossas ações.

Você não é um martelo e não é uma história pré-escrita. Você é mais como uma folha de papel em branco. Você pode escolher o que será escrito nela, e isso pode ser empolgante e um pouco assustador ao mesmo tempo.

Finn

Finn says:

"Então, se eu não sou um martelo com um trabalho específico, isso significa que posso ser qualquer coisa? Tipo, eu poderia decidir ser uma pessoa que só fala em rimas, ou isso seria ir longe demais?"

Sartre acreditava que, como não existe um grande plano já escrito para nós, temos liberdade total. Ele não se referia apenas à liberdade de escolher entre sorvete de chocolate ou baunilha. Ele falava da liberdade de decidir o que é certo, o que é errado e o que a sua vida deve significar.

Mas há um detalhe: se você é totalmente livre, você também é totalmente responsável. Sartre disse que estamos "condenados a ser livres". Ele usou a palavra "condenados" porque a liberdade parece um peso pesado.

Tente isso
Uma criança decidindo qual caminho seguir.

Na próxima vez que tiver que fazer uma escolha, pare e note como você se sente. Você sente um 'frio na barriga'? Sartre diria que essa é a sua liberdade falando. Em vez de perguntar a outra pessoa o que fazer imediatamente, tente ficar com esse sentimento por um minuto e reconheça que o poder é seu.

Pense em uma vez que você teve que tomar uma decisão importante sem a ajuda de um adulto. Talvez tenha tido que escolher com qual amigo se sentar, ou se contaria a verdade sobre uma janela quebrada. Aquele frio na barriga, uma sensação de tontura e nervosismo? Sartre chamava isso de angústia.

Ele não achava que a angústia fosse algo ruim. Para ele, esse nervosismo é apenas a percepção de que você é o piloto da sua própria vida. É o momento em que você percebe que o que acontece a seguir depende inteiramente de você.

Jean-Paul Sartre

O homem está condenado a ser livre; porque, uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo o que faz.

Jean-Paul Sartre

Sartre escreveu isso em seu livro 'O Existencialismo é um Humanismo'. Ele queria que as pessoas entendessem que a liberdade não é apenas uma festa: é o dever sério de assumir a própria vida.

Às vezes, o peso de todas essas escolhas parece demais. Podemos desejar que alguém simplesmente nos diga o que fazer. Quando fingimos que não temos escolha, ou quando dizemos "eu tive que fazer isso" só porque todo mundo estava fazendo, Sartre chamava isso de má-fé.

Imagine um garçom em um café que se move de um jeito um pouco perfeito demais. Ele equilibra a bandeja exatamente como um "garçom deveria", fala exatamente como um "garçom deveria" e age como se fosse uma máquina feita para servir café.

Imagine isso
Uma mesa mostrando tanto ordem perfeita quanto uma bagunça criativa.

Imagine que você é um aluno 'perfeito'. Você fica perfeitamente parado, nunca faz rabiscos e só fala quando tem a resposta certa. Sartre perguntaria: você está sendo uma pessoa ou está apenas interpretando o papel de aluno? O que aconteceria se você se permitisse ser um pouco bagunçado e imprevisível?

Sartre dizia que este garçom está agindo de má-fé. Ele está fingindo que é apenas um garçom, como se essa fosse toda a sua identidade. Mas ele não é apenas um garçom: ele é um ser humano que está escolhendo agir como um. Ele poderia sair pela porta e se tornar um poeta ou um marinheiro a qualquer momento, mas está fingindo que não tem escolha.

Mira

Mira says:

"Acho que já agi de 'má-fé' antes. Tipo quando digo 'eu tenho que fazer meu dever de casa' como se um robô estivesse me forçando. Na verdade, estou escolhendo fazer porque não quero me encrencar!"

Ser você mesmo é um trabalho de tempo integral. Sartre chamava o oposto da má-fé de autenticidade. Ser autêntico é assumir suas escolhas. Significa dizer: "Estou fazendo isso porque escolhi, não porque eu deveria".

Isso nos leva a uma das ideias mais famosas e incompreendidas de Sartre. Ele escreveu uma vez que "o inferno são os outros". Isso soa muito maldoso, não é? Mas ele não quis dizer que as outras pessoas são chatas ou ruins.

Dois lados
O Lado Bom

A liberdade total é o maior presente porque significa que sempre podemos mudar e crescer. Não estamos presos a quem fomos ontem.

O Lado Pesado

A liberdade total é um fardo pesado porque significa que não temos desculpas. Se as coisas derem errado, não podemos culpar o destino ou a sorte: temos que encarar nossas escolhas.

O que ele quis dizer é que as outras pessoas olham para nós e nos transformam em "coisas". Imagine que você está brincando de algo bobo, fingindo ser um sapo. Você está se divertindo muito, sentindo-se totalmente livre. Então, de repente, percebe que alguém está te observando.

Naquele momento, você para de se sentir uma pessoa livre e começa a se sentir um "objeto" sendo julgado. Sartre chamou isso de o Olhar. Muitas vezes nos vemos através dos olhos dos outros, e isso pode nos fazer sentir presos na versão de nós que eles veem.

Mira

Mira says:

"Esse tal de 'Olhar' faz todo o sentido. Eu ajo de um jeito totalmente diferente quando estou sozinho no meu quarto versus quando estou na escola. É como se eu estivesse tentando caber na 'caixinha' que as outras pessoas criaram para mim."

As ideias de Sartre mudaram a forma como as pessoas pensavam sobre suas vidas. Se não existe uma natureza humana fixa, então qualquer um pode mudar. Uma pessoa que foi maldosa pode escolher ser gentil. Uma pessoa que teve medo pode escolher ser corajosa.

Jean-Paul Sartre

Compromisso é um ato, não uma palavra.

Jean-Paul Sartre

Sartre acreditava que o que você diz não importa nem de perto tanto quanto o que você faz. Seu caráter é construído por suas ações, não por suas intenções.

Ele passou a vida escrevendo livros, peças de teatro e até recusou o prêmio mais famoso do mundo: o Prêmio Nobel. Ele o recusou porque não queria ser "transformado em um objeto" ou definido por um prêmio. Ele queria permanecer livre para ser quem escolhesse ser naquele dia.

Através dos Tempos: Quem Escreve a Sua História?

Grécia Antiga (c. 300 a.C.)
Os Estoicos acreditavam que a vida é como uma peça de teatro. Você não escolhe o seu papel, mas pode escolher quão bem interpreta a parte que lhe foi dada pelo destino.
Idade Média (c. 1200 d.C.)
A maioria dos pensadores acreditava que Deus tinha um plano específico para cada pessoa. Seu trabalho era encontrar esse plano e segui-lo cuidadosamente.
Anos 1940 (Época de Sartre)
Sartre defendeu que não há roteiro nem diretor. Somos os escritores, os atores e o público, tudo ao mesmo tempo.
Era Digital (Hoje)
Os algoritmos sugerem frequentemente o que devemos gostar ou comprar. Filósofos modernos perguntam: estamos escolhendo por nós mesmos ou as máquinas estão escolhendo por nós?

Hoje, ainda lidamos com as coisas sobre as quais Sartre falou. Vivemos em um mundo com bilhões de escolhas: o que vestir, o que assistir e quem ser na internet. Sartre nos diria que, embora todas essas escolhas sejam pesadas, elas também são o que nos torna humanos.

Você sabia?
Dois filósofos conversando em um café parisiense.

A parceira de vida de Sartre foi outra filósofa famosa chamada Simone de Beauvoir. Eles nunca se casaram e nunca moraram na mesma casa. Eles escolheram viver assim porque acreditavam que um relacionamento deveria ser uma escolha feita a cada dia, não um contrato que você é forçado a seguir.

Você é o artista, a tinta e a tela, tudo ao mesmo tempo. É uma grande responsabilidade, mas significa que sua história nunca termina até a última página. Você é sempre uma obra em construção.

Algo para Pensar

Se você acordasse amanhã e percebesse que poderia mudar uma coisa importante sobre quem você é, o que seria?

Sartre diria que você não precisa esperar até amanhã: você pode começar essa mudança agora mesmo. Não há jeito certo ou errado de responder a isso: a história é sua para escrever.

Perguntas sobre Filosofia

O existencialismo significa que nada importa?
De jeito nenhum! Sartre acreditava que, como não há um sentido 'natural' para a vida, nós temos que criar nosso próprio sentido. Isso, na verdade, faz com que as coisas importem mais, porque nós mesmos as escolhemos.
Por que Sartre disse que 'O inferno são os outros'?
Ele não quis dizer que as pessoas são ruins. Ele quis dizer que, quando os outros olham para nós, muitas vezes nos 'congelam' em uma versão de nós mesmos que não é verdadeira, o que pode nos fazer sentir menos livres.
Qual é a diferença entre uma pessoa e um abridor de cartas?
Um abridor de cartas é feito com um propósito (cortar papel) antes mesmo de ser construído. Uma pessoa é construída (nasce) primeiro e tem que descobrir seu propósito enquanto vive.

O Autor dos Seus Dias

Jean-Paul Sartre não queria dar aos seus leitores um conjunto de regras a seguir. Em vez disso, ele queria devolver a eles a sua liberdade. Ele nos lembra que, mesmo quando a vida parece difícil ou as pessoas esperam que sejamos de um certo jeito, sempre temos o poder de dizer 'Não' ou 'Sim' ou 'Vou tentar outra coisa'. É um grande trabalho ser o autor da sua própria vida, mas é a única maneira de ser verdadeiramente você.