E se o universo inteiro, incluindo as árvores, as estrelas e até você, fosse, na verdade, apenas uma única e gigante coisa?
Nas ruas movimentadas de Amsterdã do século XVII, um homem chamado Baruch Spinoza fazia perguntas que deixavam o mundo nervoso. Ele não via Deus como uma pessoa sentada numa nuvem, mas como a própria Natureza, um sistema perfeito governado pela lógica e pela Razão.
Imagine uma cidade feita de água e madeira. No ano de 1632, Amsterdã era o lugar mais agitado do mundo. Grandes navios de madeira chegavam diariamente, trazendo especiarias de ilhas distantes e seda do Oriente.
Dentro dessa cidade agitada vivia um rapaz chamado Baruch. Ele fazia parte de uma comunidade de judeus que havia fugido da Espanha e de Portugal em busca de segurança. Baruch era um estudante brilhante, mas tinha um hábito que incomodava alguns adultos: ele gostava de perguntar "por quê?" até que não houvesse mais respostas.
Imagine o cheiro de água salgada de canal e o som de centenas de pessoas falando línguas diferentes no mercado. Nos anos 1600, Amsterdã era a 'fábrica de ideias' do mundo. Como muitas pessoas negociavam ali, elas tinham que aprender a conviver com diferentes religiões, mesmo que nem sempre concordassem.
À medida que Baruch crescia, suas perguntas ficavam maiores. Ele começou a refletir sobre a natureza do mundo e as regras que o governam. Passava os dias estudando livros antigos, mas sua mente já estava olhando para o futuro.
Ele notava que muitas pessoas tinham medo de Deus, ou pensavam em Deus como um rei que dava recompensas e castigos. Baruch começou a pensar algo muito diferente. Ele suspeitava que Deus não era uma pessoa separada, mas sim o próprio tecido de tudo o que existe.
Finn says:
"Espera, então se Deus é a Natureza, isso significa que a aranha no meu banheiro é... divina? Até a poeira debaixo da minha cama?"
Essa ideia era incrivelmente perigosa nos anos 1600. Naquela época, se você discordasse dos líderes religiosos, poderia perder tudo. Em 1656, quando Baruch tinha apenas 23 anos, os líderes de sua comunidade emitiram um Herem, que era uma forma severa de Excomunhão.
Isso significava que ele foi oficialmente expulso. Ninguém de sua comunidade estava autorizado a falar com ele, escrever para ele ou até mesmo andar a poucos passos dele. Baruch Spinoza estava subitamente sozinho no mundo, com nada além de suas ideias.
Quando Spinoza foi excomungado, sua própria família foi instruída a não falar com ele. Foi tão sério que uma pessoa chegou a tentar atacá-lo com uma faca! Ele guardou o casaco com o buraco da faca por anos para se lembrar de se manter corajoso.
Em vez de ficar com raiva ou triste, Spinoza fez algo surpreendente. Ele mudou seu nome para Benedictus, que significa "abençoado", e encontrou um trabalho tranquilo que exigia foco extremo. Ele se tornou um polidor de lentes.
Ele passava os dias polindo pedaços de vidro com curvas perfeitas para telescópios e microscópios. Esse trabalho era delicado e empoeirado, mas permitia que ele pensasse. Enquanto suas mãos trabalhavam no vidro, sua mente trabalhava no universo.
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Deus e a Natureza são uma e a mesma coisa.
Spinoza acreditava que, se pudéssemos ver com clareza, como olhando através de uma lente perfeita, veríamos que há apenas uma Substância no universo. Ele chamou essa substância de "Deus ou Natureza". Para ele, eram exatamente a mesma coisa.
Imagine um oceano gigante. Cada onda, cada gota de spray e cada pedacinho de espuma são diferentes, mas todos são feitos da mesma água. Para Spinoza, você é uma onda, a árvore lá fora é uma onda, e as estrelas são ondas. Somos todas formas diferentes da mesma coisa.
O mundo foi criado por um criador que existe fora dele, como um carpinteiro fazendo uma cadeira.
O mundo e o criador são a mesma coisa. Não há 'lado de fora', pois o universo é infinito.
Como tudo faz parte de um único sistema, Spinoza acreditava que tudo segue regras estritas. Ele chamou isso de Determinismo. Ele pensava que tudo acontece porque algo mais o causou, como uma fileira gigante de dominós que está caindo desde o início dos tempos.
É aqui que as coisas ficam complicadas para nossos cérebros. Se tudo é um dominó caindo, nós temos Livre Arbítrio? Spinoza disse que muitas vezes sentimos que estamos escolhendo as coisas, mas isso é apenas porque não entendemos as razões pelas quais as fazemos.
Mira says:
"É como se o universo fosse um programa de computador gigante. Se pudéssemos ver todo o código, entenderíamos exatamente por que tudo acontece. Nada é um erro."
Spinoza não achava que isso fosse ruim. Na verdade, ele achava que era a chave para ser feliz. Ele escreveu um livro famoso chamado Ética, mas o escreveu de uma maneira muito estranha. Ele o escreveu como um livro de Geometria.
Ele usou definições e provas para mostrar como nossos sentimentos funcionam. Ele acreditava que, se usarmos nossa mente para entender por que nos sentimos tristes ou zangados, esses sentimentos perdem o poder sobre nós. Ele chamou o impulso de continuar vivendo e crescendo de Conatus.
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Quanto mais entendemos as coisas particulares, mais entendemos Deus.
Toda coisa viva tem um conatus. Uma flor quer desabrochar, um pássaro quer voar, e você quer aprender e ser feliz. Quando fazemos coisas que nos deixam mais fortes e espertos, nosso conatus sente "Alegria". Quando fazemos coisas que nos deixam mais fracos ou confusos, sentimos "Tristeza".
Spinoza achava que a melhor maneira de viver era buscar a Alegria através da compreensão. Se você entende por que uma tempestade está acontecendo, você não tem tanto medo do raio. Se você entende por que um amigo está sendo rude, você pode sentir pena dele em vez de apenas se sentir magoado.
Da próxima vez que você se sentir muito zangado ou triste, tente ser um 'Cientista Spinozista'. Em vez de apenas sentir a emoção, pergunte: 'De onde isso veio? Eu dormi o suficiente? Estou com fome? Alguém disse algo que me lembrou de outro momento ruim?' Nomear a causa faz o sentimento parecer um pouco menor?
Através das Eras
As ideias de Spinoza se espalharam lentamente no início porque eram proibidas em muitos lugares. As pessoas tinham que esconder seus livros sob os casacos ou imprimi-los com capas falsas. Mas, com o passar dos anos, seu jeito de ver o mundo começou a mudar tudo.
Os cientistas adoraram sua ideia de que o universo segue leis lógicas. Os poetas adoraram sua ideia de que cada árvore e rio eram parte de algo divino. Até pensadores famosos como Albert Einstein disseram que acreditavam no "Deus de Spinoza", um mundo de harmonia perfeita e lógica.
Mira says:
"Gosto de como Spinoza conecta ciência e sentimentos. Ele faz parecer que ser inteligente é uma forma de ser gentil consigo mesmo."
Spinoza viveu uma vida muito simples. Morava em pequenos quartos alugados e comia comida simples, como mingau com um pouco de manteiga. Ele recusou um cargo de professor famoso porque não queria que ninguém lhe dissesse o que ele poderia ou não poderia dizer.
Ele morreu jovem, aos 44 anos, provavelmente porque passou muitos anos respirando aqueles pequenos pedacinhos de pó de vidro do seu trabalho de polir lentes. Mas ele morreu em paz, acreditando que estava simplesmente retornando ao grande oceano da Natureza que passou a vida descrevendo.
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A paz não é ausência de guerra, é uma virtude, um estado de espírito.
Hoje, ainda usamos as ideias de Spinoza para pensar em como tratamos nosso planeta. Se tudo faz parte de um único corpo, então machucar uma floresta ou um rio é como machucar a nós mesmos. Não estamos separados da natureza; nós somos a natureza olhando para si mesma.
Spinoza era tão respeitado por seu caráter que até reis enviavam pessoas para conversar com ele. Ele era famoso por ser uma das pessoas mais gentis e prestativas de sua cidade, mesmo que suas ideias fossem consideradas 'escandalosas' na época.
Spinoza nos convida a olhar para o mundo com um senso de Intuição. Este é um tipo especial de conhecimento onde você vê como tudo se encaixa de uma só vez. É como o momento em que você finalmente termina um quebra-cabeça e vê a imagem inteira em vez de apenas as peças.
É um tipo de Maravilha quieta e constante. Não requer magia ou milagres. Para Spinoza, o fato de o universo existir e seguir regras tão belas e lógicas é o maior milagre de todos.
Algo para Pensar
Se você faz parte do universo, e o universo é uma coisa gigante, o que isso significa para a maneira como você deve tratar um estranho ou uma árvore?
Não há resposta certa ou errada aqui. Spinoza passou a vida inteira pensando nisso, e você pode começar sua própria jornada apenas olhando ao redor.
Perguntas sobre Filosofia
Spinoza acreditava em um Deus com rosto ou corpo?
Por que ele passava o tempo polindo lentes de vidro?
Spinoza era ateu?
O Todo Infinito
O mundo de Spinoza é um lugar onde nada é um erro e tudo pertence. É um mundo onde ser curioso é o mesmo que ser bom. Quer você esteja olhando para as estrelas através de um telescópio ou apenas observando uma joaninha na sua manga, lembre-se da grande ideia de Spinoza: você está olhando para um pedaço de si mesmo e um pedaço de todo o resto, tudo ao mesmo tempo.