Imagine que você está em uma colina gramada, observando um pesado bonde de madeira descendo velozmente por um trilho.
Este é o começo de um experimento mental, um tipo especial de história imaginária usada por filósofos para testar como pensamos sobre o certo e o errado. Ele nos leva ao mundo da ética, que é o estudo de como decidimos o que é uma escolha 'boa' de verdade, mesmo quando todas as opções parecem difíceis.
O bonde está se movendo rápido e os freios estão quebrados. Mais adiante no trilho, cinco pessoas estão trabalhando, sem saber que o bonde está indo direto na direção delas. Elas não conseguirão sair do caminho a tempo.
Você está ao lado de uma alavanca. Se você a puxar, o bonde mudará para um trilho diferente. Nesse segundo trilho, há apenas uma pessoa.
Imagine que o ar está frio e cheira a metal velho e grama molhada. Você consegue ouvir o 'clac-clac-clac' das rodas do bonde ficando cada vez mais alto. Sua mão está apoiada em uma alavanca de ferro fria e enferrujada. O mundo inteiro parece ficar em silêncio enquanto você espera para decidir.
Você puxa a alavanca? Ao não fazer nada, cinco pessoas correm perigo. Ao agir, você salva essas cinco, mas a pessoa no outro trilho será atingida. Este quebra-cabeça é conhecido como o Problema do Bonde, e ele faz as pessoas coçarem a cabeça há mais de cinquenta anos.
Não é uma charada com uma resposta secreta escondida no final de um livro. Em vez disso, é uma ferramenta. Ele nos ajuda a enxergar as regras invisíveis que usamos para tomar decisões todos os dias.
O Nascimento de um Enigma
Para entender de onde veio essa história, temos que viajar de volta para 1967. Estamos na Universidade de Oxford, na Inglaterra. Os prédios de pedra são antigos, as bibliotecas são silenciosas e uma filósofa chamada Philippa Foot está pensando sobre como fazemos escolhas morais.
Mira says:
"Eu me pergunto se Philippa Foot escolheu um bonde porque eles se movem em caminhos fixos. É como os nossos hábitos: às vezes apenas seguimos os trilhos sem pensar para onde eles estão indo."
Philippa Foot viveu durante a Segunda Guerra Mundial, uma época em que o mundo inteiro fazia perguntas muito difíceis sobre o que era certo. Ela queria saber se ser 'bom' era apenas uma questão de seguir regras ou se tratava dos resultados das nossas ações.
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As virtudes não são apenas habilidades, mas formas de ser que tornam a vida melhor para todos.
Naquela época, muitos filósofos estavam focados na lógica e na linguagem. Foot queria trazer a filosofia de volta para o mundo real e complicado. Ela inventou a história do bonde para ver se havia uma diferença entre 'matar' alguém e 'deixar' alguém morrer.
Duas Formas de Pensar
Quando as pessoas olham para a alavanca, elas geralmente se dividem em dois grupos. O primeiro grupo olha para os números. Eles pensam: 'Cinco vidas valem mais que uma vida, então salvar as cinco é o melhor resultado.'
Foca nos números. Salvar cinco pessoas é cinco vezes melhor do que salvar uma pessoa. A alavanca deve ser puxada para minimizar a perda.
Foca na ação. Puxar a alavanca torna você responsável por uma morte que não teria acontecido de outra forma. É melhor deixar o destino decidir do que matar.
Essa forma de pensar é chamada de Utilitarismo. Ela sugere que a melhor escolha é aquela que cria a maior felicidade ou segurança para o maior número de pessoas. É como um problema de matemática para o seu coração.
Mas o segundo grupo sente um frio na barriga. Eles pensam: 'Espere, se eu puxar a alavanca, estou escolhendo colocar aquela pessoa em perigo. Se eu não fizer nada, é uma tragédia, mas não fui eu quem a causou.'
Isso é chamado de Deontologia, ou ética baseada no dever. Este grupo acredita que algumas ações, como ferir uma pessoa inocente, são erradas não importa o que a matemática diga. Eles acreditam que temos o dever moral de seguir certas regras, como 'não causar danos'.
Finn says:
"Se eu puxar a alavanca, isso me torna o dono da decisão de quem vive e quem morre? Parece muita responsabilidade para uma pessoa ter só porque ela está ali parada."
A História Muda: A Passarela
Cerca de dez anos depois que Philippa Foot escreveu sua história, outra filósofa chamada Judith Jarvis Thomson decidiu mudar os detalhes. Ela queria ver se nossas respostas mudariam se a situação parecesse mais pessoal.
Os filósofos chamam esses cenários de 'bombas de intuição'. Eles não servem para te dar informações. Em vez disso, são feitos para 'bombear' ideias para fora da sua cabeça para que você possa olhar para elas com mais clareza.
Imagine que você está em cima de uma passarela sobre os trilhos. O bonde ainda está indo em direção às cinco pessoas. Desta vez, não há alavanca. Mas há uma pessoa muito grande parada ao seu lado.
Se você empurrar essa pessoa da passarela para o trilho, o peso dela parará o bonde. As cinco pessoas serão salvas, mas a pessoa que você empurrou não sobreviverá.
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Uma pessoa tem o direito de não ser morta, e esse direito é mais importante do que uma simples equação matemática.
A maioria das pessoas que ficou feliz em puxar a alavanca na primeira história, de repente, sente algo muito diferente sobre a passarela. Mesmo que a matemática seja a mesma — uma vida por cinco vidas — parece muito pior empurrar alguém fisicamente.
Tente mudar a história! Sua resposta mudaria se a pessoa no trilho fosse um membro da sua família? E se as cinco pessoas fossem estranhas? E se o bonde estivesse indo em direção a uma biblioteca cheia das únicas cópias de todos os livros já escritos no mundo?
Por Que o Sentimento Importa
Thomson usou esta versão para mostrar que os seres humanos têm uma forte intuição, um pressentimento que nos diz que algo está errado, mesmo que não consigamos explicar o porquê de imediato. Ela argumentou que as pessoas têm direitos que não podem ser ignorados só porque isso ajuda outras pessoas.
Na história da alavanca, a pessoa no trilho lateral está lá por acidente. Você não está 'usando' essa pessoa para parar o bonde. Na história da passarela, você está usando especificamente a pessoa como uma ferramenta para parar o bonde.
Mira says:
"A história da passarela parece diferente porque você tem que tocar na pessoa. É como se fosse mais fácil ser malvado com alguém em um videogame do que ser malvado na vida real."
Essa distinção — a diferença entre um efeito colateral acidental e uma escolha intencional — é uma parte enorme de como nossas leis e regras funcionam hoje. É por isso que tratamos acidentes de forma diferente de ações planejadas.
Através dos Tempos
Através dos Tempos
O Problema no Mundo Moderno
Hoje, o Problema do Bonde não é apenas para filósofos em bibliotecas antigas. Ele está sendo estudado por engenheiros e cientistas da computação. Isso acontece por causa da Inteligência Artificial e dos carros autônomos.
Imagine um carro dirigindo por uma rua chuvosa. De repente, um cachorro corre para a estrada. O computador do carro tem que decidir em uma fração de segundo: ele desvia e bate em um carro estacionado, potencialmente ferindo o passageiro? Ou ele continua em seu caminho?
Pesquisadores do MIT criaram um jogo chamado 'A Máquina Moral'. Milhões de pessoas de todo o mundo jogaram para ver como programariam um carro autônomo. Eles descobriram que pessoas em diferentes países costumam ter 'respostas corretas' diferentes!
Temos que ensinar os computadores a fazer essas escolhas. Mas, para ensinar um computador, primeiro temos que concordar nós mesmos sobre qual é a resposta. E, como vimos, os humanos discutem sobre isso há décadas.
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O objetivo de toda ação é aumentar a quantidade total de felicidade no mundo.
Sem Respostas Prontas
Algumas pessoas acham o Problema do Bonde frustrante porque não existe uma jogada 'correta' que deixe todo mundo feliz. Mas é exatamente por isso que ele é importante. Ele nos ensina que a complexidade é uma parte natural de ser humano.
Quando conversamos sobre essas histórias, praticamos a empatia. Tentamos imaginar como é ser a pessoa com a alavanca, a pessoa no trilho ou a pessoa na passarela.
Pensar no Problema do Bonde não nos ajuda apenas a entender a filosofia. Ajuda a entender a nós mesmos. Ele nos mostra o que mais valorizamos: o resultado, as regras ou a maneira como tratamos uns aos outros no meio de uma crise?
Algo para Pensar
Existe diferença entre fazer algo ruim e deixar algo ruim acontecer?
Não há resposta certa ou errada aqui. Pense em uma vez que você viu alguém sendo tratado de forma injusta no parquinho. Parece diferente se você foi quem foi injusto ou se apenas ficou parado assistindo acontecer?
Perguntas sobre Filosofia
O Problema do Bonde é algo real que acontece?
Quem está certo: os Utilitaristas ou os Deontologistas?
Por que estudamos isso se não há uma resposta?
A Jornada Continua
Na próxima vez que você tiver que fazer uma escolha entre duas coisas, pare por um segundo. Pergunte a si mesmo: estou olhando para os números ou estou seguindo uma regra no meu coração? Ambas são partes importantes de ser uma pessoa que pensa profundamente sobre o mundo.