Você já olhou para uma gota de água e percebeu que ela tem exatamente a mesma 'substância' que o oceano inteiro?

Este é o coração do Vedanta, uma das tradições mais antigas e profundas da filosofia indiana. Ele nos convida a olhar além do que nossos olhos veem para encontrar uma conexão escondida entre tudo o que existe no universo.

Imagine que você está sentado em uma floresta verdejante na Índia, três mil anos atrás. O ar é morno e o som de um rio próximo murmura ao fundo. Ao seu redor, alunos sentam-se em círculo no chão, ouvindo um professor compartilhar segredos sobre a natureza do mundo.

Esses ensinamentos antigos eram chamados de Upanishads. Eles formam a base do Vedanta, uma palavra que significa literalmente o fim ou o auge do conhecimento. As pessoas que criaram essas ideias não estavam interessadas apenas em memorizar fatos; elas queriam resolver o maior mistério de todos: quem somos nós?

Imagine isso
Crianças aprendendo em uma antiga academia na floresta indiana

Imagine uma floresta onde as árvores são tão grossas que bloqueiam o sol do meio-dia. Esta era a 'Aranyaka' ou academia da floresta. Não havia quadros brancos ou iPads aqui: os alunos aprendiam ouvindo o ritmo da voz de seu professor e cantando juntos até que as ideias parecessem parte de sua própria respiração.

Naquela época, a maioria das pessoas focava em rituais externos, como fazer oferendas aos deuses. Mas os pensadores do Vedanta começaram a olhar para dentro. Eles se perguntavam se o mesmo poder que faz as estrelas brilharem também vive dentro do coração humano.

Eles não queriam apenas acreditar em algo; eles queriam vivenciar isso. Acreditavam que, se você olhar para si mesmo com atenção suficiente, encontrará algo que nunca muda, mesmo enquanto seu corpo envelhece e seus pensamentos voam como pássaros.

Finn

Finn says:

"Se meus pensamentos estão sempre mudando como pássaros no céu, quem é a pessoa que observa os pássaros? Existe um 'eu' que fica parado enquanto o resto de mim se move?"

A Grande Ideia: Brahman e Atman

Para entender o Vedanta, você precisa conhecer os dois personagens principais desta história. O primeiro é Brahman. Ele não é uma pessoa ou um deus com rosto, mas sim um nome para a realidade infinita e imutável que compõe tudo o que existe.

Pense no Brahman como a eletricidade que liga todas as lâmpadas da sua casa. As lâmpadas podem parecer diferentes: algumas são redondas, outras compridas, algumas são fortes e outras fracas. Mas a energia dentro delas é exatamente a mesma.

O Chandogya Upanishad

Aquilo que é a essência mais sutil: este mundo inteiro tem isso como sua alma. Isso é a Realidade. Isso é Atman. Tu és Isso.

O Chandogya Upanishad

Esta é uma das frases mais famosas da história, conhecida como Tat Tvam Asi. Um pai está ensinando ao filho que ele não é apenas um corpo, mas é, na verdade, a mesma essência de todo o universo.

O segundo personagem é o Atman. Esta é a palavra para o seu eu individual, o 'você' que está olhando através dos seus olhos agora mesmo. O Vedanta faz uma pergunta ousada: e se Atman e Brahman forem, na verdade, a mesma coisa?

Essa ideia é chamada de Não-dualidade, ou Advaita. Ela sugere que, embora você se sinta como uma pessoa separada, você é, na verdade, uma parte de todo o universo. É como uma onda que pensa estar separada do mar, até perceber que não é feita de nada além de água do oceano.

Tente isso

Pegue um copo de água e misture uma colher de sal. Depois de um minuto, o sal desaparece! Você não consegue vê-lo, mas se provar qualquer parte da água, o sal estará lá. O Vedanta diz que o 'Eu' é como esse sal: escondido, mas presente em cada parte da vida.

O Show de Mágica de Maya

Se somos todos, na verdade, uma grande energia cósmica, por que parece que estamos separados? Por que eu me sinto como 'eu' e você se sente como 'você'? Os pensadores vedantinos também têm uma palavra para isso: Maya.

Maya é frequentemente descrita como um tipo de mágica cósmica ou uma ilusão. É o poder que faz o 'um' parecer 'muitos'. Imagine que você está assistindo a um filme em uma tela: você vê perseguições de carros, montanhas e pessoas conversando, mas se você chegar perto e tocar a tela, é apenas luz em uma superfície plana.

Mira

Mira says:

"É como quando eu jogo videogame. Eu sinto que sou o personagem na tela, mas na verdade eu sou a pessoa segurando o controle. O personagem é Maya, mas o real sou eu!"

O mundo ao nosso redor é real à sua própria maneira, mas Maya é o 'véu' que esconde a verdade mais profunda. Ficamos tão envolvidos no 'filme' das nossas vidas diárias, como o que comemos no almoço ou quem ganhou o jogo, que esquecemos que somos a luz na tela.

O Vedanta não diz que o mundo é uma mentira, mas diz que o mundo está em constante 'mudança'. Qualquer coisa que muda, como uma nuvem ou um sonho, não é a verdade final. A verdade final é aquilo que permanece igual enquanto as mudanças acontecem.

Você sabia?
Um fio dourado conectando diferentes partes da natureza

A palavra 'Yoga' na verdade vem desta filosofia! Significa 'jungir' ou 'unir'. As posturas físicas que as pessoas fazem hoje foram originalmente projetadas para ajudar o corpo a ficar parado para que a mente pudesse perceber sua conexão com todo o universo.

Adi Shankara e a Cobra de Corda

Há cerca de 1.200 anos, um filósofo brilhante chamado Adi Shankara viajou por toda a Índia para explicar essas ideias. Ele usava histórias famosas para ajudar as pessoas a entenderem como Maya funciona. Uma das suas favoritas era a história da corda e da cobra.

Imagine que você está caminhando por uma trilha ao entardecer. Você vê uma forma enrolada no chão e pula para trás de medo, gritando: 'Uma cobra!' Seu coração bate forte e você fica aterrorizado. Mas então, um amigo acende uma lanterna e você vê que era apenas uma corda enrolada o tempo todo.

Adi Shankara

Assim como o reflexo do sol em diferentes potes de água parece ser muitos, o único Eu parece ser muitos em diferentes corpos.

Adi Shankara

Shankara usou isso para explicar como uma coisa pode parecer muitas. Se você quebrar os potes, a água derrama, mas o sol no céu continua exatamente o mesmo.

A 'cobra' nunca esteve lá, mas o seu medo foi real. Shankara argumentava que vivemos nossas vidas reagindo a 'cobras' (problemas e separações) que são, na verdade, apenas 'cordas' (Brahman) vistas no escuro. Uma vez que você 'acende a luz' da sabedoria, o medo desaparece.

Shankara ajudou a organizar o Vedanta em um sistema chamado Advaita Vedanta. Ele era como um mestre detetive, usando a lógica para provar que nossos sentimentos de solidão ou pequenez são apenas mal-entendidos sobre quem realmente somos.

Dois lados
Advaita (Não-Dual)

Somos exatamente iguais ao Divino. Não há diferença alguma entre a gota e o oceano.

Dvaita (Dual)

Estamos conectados ao Divino, mas ainda somos indivíduos. A gota é feita de água do mar, mas a gota não é o oceano inteiro.

Através dos Tempos

O Vedanta não ficou escondido nas florestas da Índia. Ele viajou pelos oceanos e pelo tempo, mudando a forma como as pessoas pensavam sobre a ciência, a religião e sobre si mesmas.

Através dos Tempos

1500-500 a.C.
Os Upanishads são compostos nas florestas da Índia, marcando o nascimento do pensamento vedantino.
Século VIII d.C.
Adi Shankara viaja pela Índia, ensinando que apenas o 'Um' é real e o 'Muitos' é Maya.
1893 d.C.
Swami Vivekananda introduz o Vedanta ao mundo ocidental no Parlamento das Religiões em Chicago.
Dias Atuais
O Vedanta influencia a psicologia moderna, práticas de mindfulness e até a física quântica.

No final de 1800, um monge chamado Swami Vivekananda viajou da Índia para Chicago para uma grande reunião das religiões do mundo. Ele não começou seu discurso dizendo 'Eu tenho a verdade'. Em vez disso, ele chamou o público de 'Irmãs e Irmãos da América'.

Ele queria mostrar que o Vedanta não é apenas para pessoas na Índia; é um mapa universal para a mente humana. Ele acreditava que cada pessoa tem uma centelha do divino dentro de si, e o objetivo da vida é deixar que essa centelha se torne uma chama.

Swami Vivekananda

O oceano pode existir sem a onda, mas a onda não pode existir sem o oceano.

Swami Vivekananda

Vivekananda estava explicando que nossa individualidade depende de todo o universo. Podemos nos sentir pequenos como uma onda, mas nossa força vem do fato de sermos o mar.

Por Que Isso Importa Hoje?

Hoje, muitas pessoas acham que o Vedanta se encaixa surpreendentemente bem com a ciência moderna. Alguns físicos observam as menores partículas da matéria e percebem que elas são majoritariamente espaço vazio e energia, muito parecido com o que os antigos moradores das florestas descreviam.

Isso também muda a forma como tratamos os outros. Se você realmente acredita que a outra pessoa é uma 'versão' diferente de você, torna-se muito mais difícil ser mau ou egoísta. Se somos todos folhas da mesma árvore, por que uma folha lutaria contra outra?

Mira

Mira says:

"Se todo mundo tem a mesma 'energia' dentro de si, então ser gentil com outra pessoa é, na verdade, ser gentil comigo mesmo. Estamos todos apenas ajudando nosso grande eu coletivo."

O Vedanta não pede para você deixar de ser você. Ele não quer que você pare de brincar, aprender ou se divertir. Ele apenas oferece uma música de fundo tranquila para sua vida, lembrando que, não importa o que aconteça, você faz parte de algo vasto, seguro e eterno.

Em vez de ser uma pessoa pequena em um mundo grande, o Vedanta sugere que você pode ser o mundo inteiro experimentando a si mesmo através de uma pessoa pequena. É um pensamento que pode fazer o mundo parecer muito menos solitário e muito mais como o nosso lar.

Você sabia?

Muitos cientistas famosos, como Erwin Schrödinger (que ajudou a inventar a física quântica), estudaram o Vedanta. Ele descobriu que a ideia de que tudo está interconectado o ajudou a entender como as menores partes do universo se comportam!

Algo para Pensar

Se você é o oceano e não apenas a onda, como isso muda o que você sente quando algo pequeno dá errado hoje?

Não existe um jeito certo ou errado de se sentir sobre isso. Algumas pessoas se sentem muito grandes e corajosas, enquanto outras se sentem calmas e em paz. O que vem à sua mente?

Perguntas sobre Filosofia

O Vedanta é uma religião?
Embora seja uma parte fundamental do Hinduísmo, muitas pessoas veem o Vedanta como uma filosofia ou uma 'ciência da mente' que qualquer um pode estudar, independentemente de suas crenças religiosas.
O Vedanta diz que o mundo não é real?
Não exatamente! Ele diz que o mundo é 'relativamente real', como um sonho que parece real enquanto você está nele, mas parece diferente uma vez que você acorda para uma verdade mais profunda.
Como posso 'praticar' o Vedanta?
Você não precisa 'fazer' nada específico. Praticar o Vedanta geralmente envolve ser curioso, fazer grandes perguntas sobre quem você é e tentar ver a conexão entre você e os outros.

A Onda e o Mar

Na próxima vez que você se olhar no espelho, lembre-se da história do sal e da água. Você é um indivíduo único com seu próprio nome, hobbies e sonhos, mas, de acordo com o Vedanta, você também é o universo inteiro olhando para si mesmo. Esse é um mistério sobre o qual vale a pena se maravilhar todos os dias.