O que aconteceria se, a partir da manhã seguinte, cada regra para crianças simplesmente desaparecesse?

Nós frequentemente pensamos nas regras como muros que nos impedem de nos mover. Na realidade, a história da infância é um experimento longo e sinuoso sobre como adultos e crianças compartilham espaço, segurança e autonomia.

Imagine acordar em um mundo onde você pudesse dirigir um carro, ficar acordado até as 4 da manhã e comer apenas glacê azul-neon no café da manhã. Não haveria hora de dormir, nem obrigações escolares, e ninguém para mandar você colocar um casaco em uma tempestade de neve.

No início, isso pode parecer a vitória suprema. Mas rapidamente, as coisas podem ficar complicadas. Sem regras de trânsito para crianças, as ruas se tornam perigosas: sem regras de saúde, seu estômago começa a doer: e sem regras de aprendizado, o mundo se torna um lugar muito confuso para navegar.

Imagine isso
Uma criança flutuando para longe de um parquinho porque não há gravidade.

Imagine um parquinho onde não há gravidade. Toda vez que você pula, você flutua para as nuvens. As regras na vida são um pouco como a gravidade: são uma força que mantém seus pés no chão para que você possa realmente correr e brincar sem se afastar para o perigo.

Os Jardineiros da Mente

Por muito tempo na história, as pessoas não pensavam nas crianças como tendo necessidades especiais próprias. Na Idade Média, assim que uma criança conseguia falar e andar, ela era frequentemente tratada como um "adulto em miniatura". Elas usavam as mesmas roupas, faziam o mesmo trabalho árduo e seguiam as mesmas leis rígidas que todo mundo.

Tudo mudou no século XVII por causa de um pensador chamado John Locke. Ele olhou para uma criança e não viu um pequeno trabalhador ou um ser humano completo. Ele viu uma Tabula Rasa, que é um termo em latim para uma "lousa em branco".

John Locke

As pequenas e quase insensíveis impressões em nossa tenra infância têm consequências muito importantes e duradouras.

John Locke

Escrevendo em 1693, Locke queria que os pais entendessem que as crianças não nascem 'más' ou 'boas', mas são moldadas por cada pequena coisa que vivenciam. Ele acreditava que as regras deveriam ser usadas para criar bons hábitos em vez de punir.

Locke acreditava que toda criança nasce como uma folha de papel nova. Tudo o que você experimenta, vê e ouve escreve algo naquele papel. Essa ideia mudou a forma como os adultos pensavam sobre as regras.

Se as crianças são lousas em branco, então as regras não servem apenas para impedir maus comportamentos. Elas servem para proteger o papel para que ele permaneça limpo e forte. Locke acreditava que os adultos têm o dever de guiar as crianças até que elas tenham idade suficiente para escrever suas próprias histórias.

Finn

Finn says:

"Se eu sou uma 'lousa em branco', isso significa que eu posso escolher o que será escrito nela? Ou tenho que esperar que um adulto pegue a caneta?"

O Grande Cabo de Guerra

Cerca de cem anos depois de Locke, outro filósofo chamado Jean-Jacques Rousseau teve uma ideia completamente diferente. Ele achava que as crianças nasciam naturalmente boas e sábias. Para Rousseau, o mundo e suas regras rígidas eram, na verdade, o que estragava as crianças.

Ele acreditava em um conceito chamado Educação Natural. Em vez de sentar em uma cadeira rígida e memorizar fatos, Rousseau pensava que as crianças deveriam aprender com o mundo ao seu redor. Se você quebrar uma janela, não fica de castigo: você simplesmente sente frio até descobrir como consertá-la.

Tente isso

O Jogo da 'Regra Invertida': Escolha uma regra que você acha irritante, como 'Sem sobremesa antes do jantar'. Agora, imagine que essa regra foi invertida e todos TÊM que comer sobremesa antes do jantar todos os dias durante um mês. Escreva ou discuta três coisas que aconteceriam. Continuaria divertido, ou se tornaria um problema?

Isso cria um cabo de guerra que ainda existe hoje. As regras devem ser um escudo que te protege do mundo (como Locke pensava)? Ou as regras devem ser mantidas no mínimo para que você possa aprender com seus próprios erros (como Rousseau sugeriu)?

A maioria das regras modernas é uma mistura de ambos. Temos regras sobre capacetes porque seu cérebro é importante demais para ser deixado a um "erro". Mas também temos regras que lhe dão espaço para brincar e explorar, porque é assim que você constrói resiliência.

Jean-Jacques Rousseau

A natureza os faria crianças antes que se tornassem homens. Se tentarmos inverter essa ordem, produziremos um fruto forçado que não tem frescor nem sabor.

Jean-Jacques Rousseau

Rousseau estava preocupado que os adultos estivessem tentando fazer as crianças crescerem rápido demais. Ele acreditava que as regras que forçavam as crianças a agir como adultos as impediam de desenvolver sua inteligência natural.

O Acordo Invisível

Por que concordamos em seguir regras mesmo quando não gostamos delas? Filósofos chamam isso de Contrato Social. É como um acordo não escrito que todos assinamos para vivermos juntos sem que tudo vire uma bagunça gigante.

Pense em uma partida de pega-pega. Se uma pessoa decide que nunca pode ser "o pegador" porque tem uma armadura invisível, o jogo acaba. As regras são o que tornam o jogo possível. Na vida, regras como "não bata" ou "espere sua vez" são o contrato social que impede o mundo de ser um grande e zangado jogo de pega-pega.

Dois lados
Visão Protetora

As crianças precisam de muitas regras porque lhes falta experiência. As regras as mantêm seguras de perigos que elas nem sabem que existem, como fogo, trânsito ou problemas de saúde a longo prazo.

Visão Exploradora

As crianças precisam de pouquíssimas regras para que possam aprender por tentativa e erro. Proteger demais as crianças com regras as torna menos capazes de tomar suas próprias decisões quando crescerem.

Os adultos frequentemente usam um conceito chamado Paternalismo para explicar por que fazem regras para você. Essa palavra vem do termo em latim para pai, mas se aplica a qualquer adulto no comando. Significa tomar uma decisão por outra pessoa "para o seu próprio bem", mesmo que essa pessoa discorde.

É por isso que você precisa comer vegetais ou ir ao dentista. O adulto está olhando para o "você do futuro", enquanto você provavelmente está focado no "você de agora". O desafio é que, à medida que você cresce, você começa a conhecer melhor o seu "eu futuro" do que qualquer outra pessoa.

Mira

Mira says:

"Notei que as regras são como o código em um videogame. Sem o código, você simplesmente cairia pelo chão, mas se o código for muito rígido, você não consegue realmente jogar."

Regras e Justiça

Nem todas as regras são boas. Ao longo da história, muitas regras para crianças eram injustas ou até cruéis. No século XIX, havia regras que permitiam que crianças a partir dos seis anos trabalhassem em fábricas barulhentas e empoeiradas por doze horas seguidas.

Pessoas tiveram que lutar para mudar essas regras. Elas argumentaram que as crianças têm Direitos Naturais, que são coisas que você merece apenas por ser humano. Isso levou a uma grande mudança na forma como pensamos sobre Justiça para as crianças.

Você sabia?
Um pergaminho romano antigo representando leis antigas.

Na Roma Antiga, um pai tinha um direito legal chamado 'Patria Potestas'. Isso lhe dava controle total sobre seus filhos por toda a vida, mesmo depois que eles cresciam! Ele podia até decidir com quem eles se casavam ou que empregos assumiam. Progredimos muito desde então.

Uma História das Regras Para Crianças

Esparta Antiga (700 AEC)
As regras eram definidas pelo estado. Os meninos eram levados aos sete anos para viver em quartéis e aprender a ser soldados, seguindo regras incrivelmente rigorosas de treinamento físico.
Europa Medieval (Século XII)
As crianças eram frequentemente 'aprendizes' de mestres aos 7 ou 8 anos. As regras que seguiam eram sobre aprender um ofício, como ferreiro ou tecelão.
O Iluminismo (Século XVIII)
Pensadores como Locke e Rousseau começaram a argumentar que as crianças eram diferentes dos adultos e precisavam de regras especiais para educação e proteção.
Revolução Industrial (Século XIX)
À medida que as crianças trabalhavam em fábricas perigosas, novas regras chamadas 'Atos Fabris' foram criadas para limitar as horas de trabalho e eventualmente levar à escola obrigatória.
Era Moderna (1989)
Foi adotada a Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança, criando regras internacionais que protegem a segurança das crianças e seu direito a ter voz em suas vidas.

Hoje, muitos países seguem a Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança. Esta é uma lista enorme de regras, mas essas regras são para os adultos! Elas dizem que os adultos DEVEM lhe proporcionar cuidados de saúde, educação e uma voz em assuntos que o afetam.

Isso nos leva à ideia de Consentimento. À medida que você cresce, as regras devem mudar de adultos dizendo o que fazer, para adultos pedindo sua opinião. Uma regra que parece uma jaula quando você tem cinco anos pode parecer um limite útil quando você tem doze.

Janusz Korczak

As crianças não são o povo de amanhã, mas pessoas de hoje. Elas têm o direito de serem levadas a sério.

Janusz Korczak

Korczak era um médico e educador que administrava um orfanato onde as crianças tinham seu próprio 'parlamento' e criavam suas próprias regras. Ele acreditava que as regras deveriam respeitar a dignidade de uma criança como ser humano agora, e não apenas no futuro.

A Arte do Limite

Imagine um rio. Se um rio não tem margens, ele se transforma em uma poça gigante e rasa que não vai a lugar nenhum. As margens do rio são como regras: elas criam um canal que permite que a água se mova com força e direção.

As regras fornecem Limites. Elas permitem que você saiba onde a "zona segura" termina para que você possa se mover o mais rápido que quiser dentro dessa zona. Quando você sabe que ninguém pode roubar seus brinquedos, você se sente mais à vontade para brincar com eles.

Você sabia?

A palavra 'disciplina' vem do termo latino 'discipulus', que significa 'aprendiz' ou 'estudante'. Originalmente não se tratava de punição: tratava-se das regras que você segue para aprender uma nova habilidade, como tocar piano ou praticar karatê.

No entanto, os limites não são permanentes. Em uma vida saudável, os limites devem ser como a casca de uma fruta em crescimento. Ela precisa ser firme o suficiente para proteger o interior, mas elástica o suficiente para expandir conforme a fruta cresce.

Quando uma regra parece muito apertada, é frequentemente um sinal de que você está pronto para mais Responsabilidade. Este é o lado secreto das regras: toda vez que uma regra é removida, uma nova responsabilidade toma seu lugar. Se o seu horário de dormir for removido, a responsabilidade de dormir o suficiente para funcionar no dia seguinte se torna sua.

Finn

Finn says:

"Se toda regra que eu perco me dá uma nova responsabilidade, talvez ter regras seja, na verdade, mais fácil do que ser totalmente livre. Responsabilidade parece dar muito trabalho!"

As regras raramente são sobre ser "mandão" sem motivo, embora certamente possa parecer assim. Na maioria das vezes, elas são uma forma de dizer: "O mundo é muito grande e, às vezes, muito confuso, e eu quero garantir que você tenha o que precisa para lidar com isso."

Podemos nunca encontrar o conjunto perfeito de regras com as quais todos concordem. O que podemos fazer é continuar perguntando por que elas existem, quem elas ajudam e quando pode ser hora de elas mudarem. O "porquê" é frequentemente mais importante do que a própria regra.

Algo para Pensar

Se você pudesse mudar uma regra na sua vida, mas tivesse que assumir uma nova responsabilidade para substituí-la, qual regra você escolheria e qual seria sua nova responsabilidade?

Não há resposta certa ou errada aqui. Algumas pessoas preferem a segurança da regra, enquanto outras preferem o peso da responsabilidade. Qual delas parece mais com você?

Perguntas sobre Filosofia

Por que os adultos podem fazer regras, mas nem sempre as seguem?
Isso é frequentemente uma questão de responsabilidades diferentes para idades diferentes. No entanto, uma boa regra deve ser baseada em um princípio que se aplica a todos: se um adulto quebra uma regra que estabeleceu para você, é uma ótima oportunidade para perguntar a ele sobre o 'porquê' dessa regra.
Qual é a diferença entre uma regra e uma lei?
Regras geralmente são específicas de um lugar ou grupo, como sua casa ou um time de esporte. Leis são regras criadas por um governo que todos em um país devem seguir, e geralmente carregam consequências muito maiores se forem quebradas.
Quem decide quando uma criança tem idade suficiente para ter menos regras?
Esta é uma conversa constante entre você e os adultos da sua vida. Geralmente acontece gradualmente: à medida que você demonstra ser capaz de lidar com responsabilidades menores, os adultos tendem a se sentir mais à vontade para remover as regras que costumavam protegê-lo.

A Conversa Continua

As regras não são muros de pedra: são mais como os trilhos de um trem. Elas nos ajudam a chegar aonde vamos sem bater, mas, eventualmente, os trilhos podem precisar levar a um novo destino. Continue perguntando 'por quê' e você descobrirá que as melhores regras são aquelas que ajudam você a crescer na pessoa que deseja ser.