Você já se perguntou por que se sente tão seguro com certas pessoas, mas tão preocupado quando elas saem da sala?

Esse sentimento não é um acidente. Faz parte de uma grande ideia psicológica chamada Teoria do Apego, que explica como nossos relacionamentos mais antigos criam um mapa de como amamos os outros pelo resto da vida. Ao observar como crianças e seus cuidadores se conectam, os cientistas descobriram que sentir-se seguro é tão importante quanto ter comida ou um lugar para dormir.

O Mistério do Laço Invisível

Imagine que você é um explorador em uma floresta vasta e desconhecida. Você quer ver os pássaros estranhos e as árvores altas, mas a floresta também é um pouco assustadora.

Você mantém uma das mãos em uma corda longa e firme que leva de volta à sua base. Enquanto puder sentir essa corda, você se sente corajoso o suficiente para andar cada vez mais fundo na mata.

Tente isso

Pense em três pessoas na sua vida que fazem você se sentir como se tivesse chegado à 'base'. O que há nelas que te faz sentir seguro? É a voz delas, a maneira como ouvem, ou talvez apenas a forma como se sentam com você?

Psicólogos chamam essa corda de Teoria do Apego. É a ideia de que todo ser humano nasce com uma necessidade biológica de estar perto de uma pessoa específica que o mantém seguro.

Quando somos bebês, não conseguimos cuidar de nós mesmos. Precisamos que alguém nos proteja, e nossos cérebros têm uma maneira especial de garantir que isso aconteça.

Finn

Finn says:

"Então, espere, se essa 'corda invisível' está lá para nos manter seguros, isso significa que devemos estar ligados a todo mundo? Isso parece muita corda para acompanhar!"

Londres, 1940: Um Mundo em Pedaços

Para entender de onde vêm essas ideias, precisamos voltar a Londres durante a Segunda Guerra Mundial. A cidade era um lugar barulhento e perigoso por causa da Blitz, que foi uma série de bombardeios.

Para manter as crianças seguras, o governo as enviava para longe da cidade, para viver no campo. Elas estavam seguras das bombas, mas foram separadas de seus pais por muito tempo.

Você sabia?
Uma ilustração em aquarela de uma ala hospitalar dos anos 40.

Na década de 1940, muitos hospitais tinham a regra de que os pais só podiam visitar seus filhos por uma hora por semana! Os médicos achavam que os pais trariam germes ou 'estragariam' as crianças. Foi o trabalho de John Bowlby que ajudou a mudar essas regras para que os pais pudessem ficar com seus filhos no hospital.

Um médico chamado John Bowlby estava observando essas crianças de perto. Ele notou algo que surpreendeu muitas pessoas na época.

Mesmo que as crianças tivessem camas limpas e bastante comida, elas pareciam muito tristes e quietas. Elas não estavam apenas sentindo falta dos pais; pareciam estar perdendo seu brilho e sua curiosidade sobre o mundo.

John Bowlby

Seres humanos de todas as idades são mais felizes e capazes de usar seus talentos da melhor maneira quando estão confiantes de que, apoiando-os, há uma ou mais pessoas de confiança que virão em seu auxílio se surgirem dificuldades.

John Bowlby

Bowlby escreveu isso para explicar que a independência não é sobre estar sozinho. A verdadeira independência vem de saber que você tem uma rede de segurança para te pegar se você cair.

A Descoberta da Base Segura

Antes de Bowlby, a maioria das pessoas pensava que os bebês só amavam suas mães porque as mães forneciam leite. Eles achavam que o amor era apenas sobre ser alimentado.

Bowlby discordava. Ele percebeu que uma criança precisa de uma Base Segura, que é uma pessoa que fornece segurança emocional.

Imagine isso
Um pássaro azul em um ninho aconchegante olhando para um galho.

Imagine que você é um passarinho. Seu ninho está alto em uma árvore. O ninho é quente e macio (esse é o seu apego). Como você sabe que o ninho está lá, você se sente corajoso o suficiente para bater as asas e voar para o próximo galho. Se você não tivesse um ninho, talvez tivesse medo de sair do chão.

Quando uma criança sabe que seu cuidador estará lá se ela se machucar ou ficar assustada, ela se sente livre para explorar. Isso é chamado de Busca de Proximidade (Proximity Seeking).

É o desejo natural de permanecer perto da pessoa em quem você confia. Quando essa pessoa se vai, as crianças sentem Ansiedade de Separação, que é um alarme alto e estridente no cérebro que diz: "Não estou seguro!"

Mira

Mira says:

"Acho que a corda é especial porque é apenas para as pessoas que realmente nos conhecem. Não é só estar perto, é saber que se você gritar, alguém realmente vai te ouvir."

A Situação Estranha

Na década de 1970, uma cientista chamada Mary Ainsworth quis ver como isso se parecia na vida real. Ela projetou um experimento famoso chamado Situação Estranha.

Ela observava como as crianças pequenas reagiam quando seus pais as deixavam em uma sala com um estranho por alguns minutos. Ela não estava interessada apenas no choro, mas sim no que acontecia quando o pai ou a mãe voltava.

Mary Ainsworth

O mundo de uma criança é um mundo de pessoas... e o próprio senso de identidade de uma criança está inextrincavelmente ligado aos seus relacionamentos com essas pessoas.

Mary Ainsworth

Ainsworth percebeu que nós não apenas 'temos' relacionamentos; nós somos moldados por eles. Ela passou a vida estudando como a 'dança' entre um pai/mãe e um filho molda a personalidade da criança.

Ainsworth descobriu que as crianças desenvolviam diferentes Estilos de Apego. Estes são padrões em como agimos quando estamos preocupados com nossos relacionamentos.

  1. Apego Seguro: A criança fica chateada quando o pai ou a mãe sai, mas é facilmente consolada e fica feliz quando eles voltam.
  2. Ansioso-Ambivalente: A criança fica muito chateada e tem dificuldade em ser consolada, mesmo depois que o pai ou a mãe volta.
  3. Apego Evitativo: A criança parece não se importar quando o pai ou a mãe sai ou volta, mas sua frequência cardíaca mostra que ela está, na verdade, bastante estressada.

Dois lados
O Mapa Inicial

Os estilos de apego são como um conjunto de instruções que recebemos quando bebês. Eles nos dizem exatamente como nos comportar em todos os nossos relacionamentos futuros, e são muito difíceis de mudar.

O Mapa Vivo

Nossos cérebros são flexíveis! Embora o apego inicial seja importante, podemos aprender novas maneiras de nos relacionarmos através da 'segurança conquistada' ao encontrar amizades e mentores saudáveis mais tarde na vida.

O Ambiente de Sustentação (Holding Environment)

Enquanto Bowlby e Ainsworth estavam olhando para o "o quê" e o "como", um homem chamado Donald Winnicott estava olhando para o "sentimento". Ele era um pediatra que trabalhava com milhares de mães e bebês.

Winnicott falava sobre o Ambiente de Sustentação (Holding Environment). Isso não é apenas sobre segurar fisicamente um bebê, é sobre como um cuidador "segura" os sentimentos de uma criança e a faz sentir-se compreendida.

Mira

Mira says:

"É um alívio ouvir sobre ser 'bom o suficiente'. Às vezes me preocupo que, se eu não for um amigo perfeito, as pessoas vão parar de gostar de mim. Mas talvez a parte do 'conserto' é o que torna o laço mais forte."

Winnicott também tinha uma ideia muito famosa: a "Mãe Boa o Suficiente" (Good Enough Mother). Ele queria que os pais soubessem que não precisavam ser perfeitos.

Na verdade, ele achava que era melhor ser imperfeito. Quando um pai ou mãe comete um erro e depois o conserta, a criança aprende que os relacionamentos podem sobreviver a um pouco de problema.

Donald Winnicott

A base da saúde do ser humano é estabelecida pela mãe, ou pela mãe substituta, em seu cuidado amoroso comum e cotidiano.

Donald Winnicott

Winnicott acreditava que as coisas mais importantes na vida não são grandes gestos, mas as maneiras simples e repetitivas como os adultos cuidam das necessidades das crianças todos os dias.

Objetos que nos Ajudam a Crescer

Você já teve um cobertor especial ou um bicho de pelúcia que precisava levar para todos os lugares? Winnicott chamava isso de Objeto Transicional.

Esses objetos são como uma ponte. Eles ajudam a criança a passar de ser totalmente dependente de um pai ou mãe para conseguir ficar sozinha.

Você sabia?
Uma pintura em aquarela de um urso de pelúcia e um cobertor.

Donald Winnicott foi a pessoa que cunhou o termo 'objeto transicional'. Ele percebeu que coisas como o 'cobertor do Linus' da turma do Peanuts não eram apenas brinquedos, mas estavam realmente ajudando as crianças a aprenderem a ser corajosas sozinhas.

O cobertor carrega o "cheiro" e o "sentimento" de segurança. Ele permite que a criança carregue sua base segura com ela para o mundo maior e mais assustador.

É assim que começamos a construir nosso Modelo Operacional Interno (Internal Working Model). Este é um mapa mental que carregamos dentro de nós que nos diz se o mundo é um lugar seguro e se merecemos ser amados.

Através das Eras: A História da Conexão

Início de 1900
A visão 'Behaviorista': Cientistas acreditam que os bebês só amam os pais porque eles fornecem comida. Mostrar muito afeto é considerado 'fraco'.
Décadas de 1940-1950
John Bowlby observa crianças em hospitais e orfanatos de Londres. Ele prova que a 'privação materna' causa dor emocional profunda.
Década de 1970
Mary Ainsworth realiza o experimento da 'Situação Estranha' em Uganda e nos EUA, identificando os três principais estilos de apego.
Décadas de 1990-Presente
Escaneamentos cerebrais mostram que o apego realmente muda a forma como nossos sistemas nervosos se desenvolvem. Sabemos agora que a 'correugulação' (acalmar-se com outra pessoa) é vital para a saúde.

Por Que Isso Importa Para Você

Entender o apego não é para culpar ninguém ou fazer você sentir que tem o estilo "errado". É sobre perceber que nossos sentimentos fazem sentido.

Se você se sente nervoso quando um amigo não responde a uma mensagem, ou se você quer sair para brincar sozinho por horas, isso é o seu mapa de apego em ação.

Todos nós estamos aprendendo a estar perto dos outros enquanto também somos nós mesmos. É um projeto para a vida toda, e tudo bem se parecer um pouco confuso às vezes.

Algo para Pensar

Se você fosse desenhar o seu próprio 'Modelo Operacional Interno', como seria o mapa do seu mundo?

Não há mapas certos ou errados. Alguns mapas têm muitos portos seguros, outros têm montanhas altas para escalar, e alguns têm cavernas escondidas. O seu mapa tem permissão para mudar conforme você cresce.

Perguntas sobre Psicologia

Podemos ter estilos de apego diferentes com pessoas diferentes?
Sim! Você pode se sentir muito seguro com um avô(ó) e mais ansioso com um amigo da escola. Nossos cérebros se adaptam à pessoa com quem estamos e como ela nos trata.
Um estilo de apego 'Evitativo' ou 'Ansioso' é ruim?
De jeito nenhum. Esses estilos são, na verdade, maneiras muito espertas que o cérebro tenta usar para se proteger quando as coisas parecem incertas. São estratégias de sobrevivência, não erros.
Podemos mudar nosso estilo de apego quando ficamos mais velhos?
Com certeza. Psicólogos chamam isso de 'segurança conquistada'. Ao ter relacionamentos saudáveis com professores, parceiros ou terapeutas, você pode atualizar seu 'mapa mental' para se sentir mais seguro.

Segurando a Incerteza

O apego não é um quebra-cabeça a ser resolvido, é uma forma de estar vivo. Às vezes, a corda parece firme e forte, e outras vezes parece que pode se romper. Mas como Winnicott nos ensinou, são as conexões 'boas o suficiente' – aquelas que resistem às tempestades e continuam aparecendo – que nos ajudam a nos tornar quem devemos ser. Continue explorando sua floresta, sabendo que sua base segura é sempre parte de você.