Você já se viu numa situação em que as regras diziam uma coisa, mas o seu coração dizia outra?

Nos anos 1970, uma psicóloga chamada Carol Gilligan notou algo estranho na forma como os cientistas estudavam o certo e o errado. Ela percebeu que, por muito tempo, os pesquisadores só tinham escutado um tipo de pessoa, o que significava que estavam perdendo uma parte enorme da experiência humana. Ao ouvir vozes diferentes, ela descobriu a Ética do Cuidado, uma forma de pensar que prioriza a gentileza e os relacionamentos acima de regras abstratas.

A Sala Onde Tudo Aconteceu

Imagine andar pelos corredores da Universidade de Harvard no final dos anos 1970. Os pisos são de madeira polida e as prateleiras estão cheias de livros escritos por homens famosos.

Naquela época, a psicologia tentava mapear como as crianças cresciam para se tornarem boas pessoas. Um dos pensadores mais famosos era um homem chamado Lawrence Kohlberg.

Imagine isso
Duas crianças construindo blocos de maneiras diferentes.

Imagine uma sala de aula onde todos estão tentando construir a torre de blocos mais alta. Um grupo segue perfeitamente um manual de instruções. Outro grupo para de construir a cada poucos minutos para garantir que todos no grupo estejam se divertindo e se sintam incluídos. Qual grupo é mais 'bem-sucedido'?

Kohlberg acreditava que crescer significava subir uma escada de desenvolvimento moral. Na parte de baixo estavam as pessoas que só seguiam as regras para evitar punição. No topo estavam aquelas que seguiam leis universais de justiça, como um juiz em um tribunal.

Mas havia um problema: Kohlberg havia estudado principalmente meninos e homens para construir sua teoria. Quando as meninas faziam seus testes, elas frequentemente pontuavam mais baixo que os meninos.

Finn

Finn says:

"Espere, se os pesquisadores só conversaram com meninos, isso não é como tentar entender uma floresta inteira olhando apenas para os pinheiros?"

Carol Gilligan era assistente de pesquisa de Kohlberg. Ela olhou para os dados e fez uma pergunta muito simples e muito corajosa.

E se as meninas não estiverem falhando no teste? E se o próprio teste estiver perdendo algo importante?

O Dilema de Heinz

Para entender o que Gilligan descobriu, precisamos olhar para uma história famosa chamada Dilema de Heinz. Nesta história, um homem chamado Heinz tem uma esposa que está muito doente com uma doença rara.

Você sabia?
Uma ilustração simbólica de um experimento mental.

O Dilema de Heinz não é um evento real. É um 'experimento mental' usado por psicólogos para ver como o cérebro das pessoas funciona quando elas enfrentam uma escolha difícil sem resposta fácil.

Um farmacêutico local tem o remédio, mas ele está cobrando dez vezes o valor que custou para produzi-lo. Heinz não pode pagar, e o farmacêutico se recusa a baixar o preço.

Heinz deve roubar o remédio? Quando Kohlberg perguntava isso aos meninos, eles frequentemente tratavam o dilema como um problema de matemática.

"O direito à vida é superior ao direito à propriedade", eles poderiam dizer. Eles estavam focados na justiça e na hierarquia das regras.

Carol Gilligan

A forma como as pessoas falam sobre suas vidas é significativa: a linguagem que usam e as conexões que fazem revelam o mundo que elas veem.

Carol Gilligan

Gilligan percebeu que a psicologia estava ouvindo as coisas erradas. Em vez de apenas olhar as notas dos testes, ela começou a ouvir as histórias que as pessoas contavam.

Uma Lógica Diferente

Quando Gilligan ouvia as meninas responderem à mesma pergunta, ela ouvia outra coisa. Em vez de um problema de matemática, elas viam um relacionamento quebrado.

Uma menina, chamada Amy, não queria dizer imediatamente se Heinz estava "certo" ou "errado". Em vez disso, ela se preocupava com o que aconteceria com as pessoas da história.

Se Heinz for preso, quem cuidará da esposa dele? Por que não podemos simplesmente sentar com o farmacêutico e explicar o quão importante é a vida da esposa?

Mira

Mira says:

"Eu gosto de como a Amy pensa. Não é só sobre o remédio; é sobre o fato de que o farmacêutico e o Heinz têm que viver na mesma cidade depois."

Amy não estava sendo "menos lógica" do que os meninos. Ela estava usando um tipo diferente de lógica: a Ética do Cuidado.

Ela via o mundo como uma teia de conexão em vez de uma escada de regras. Em uma teia, se você puxa um fio, tudo o mais se move.

  • Relacionamentos importam mais do que leis abstratas.
  • Todos têm a responsabilidade de ajudar aqueles que precisam.
  • A comunicação é a melhor forma de resolver problemas.

Tente isso

Da próxima vez que você tiver um desentendimento com um amigo, tente a 'Entrevista da Voz'. Em vez de dizer quem está certo, pergunte a ele: 'O que você está preocupado que aconteça conosco se fizermos do seu jeito?' e 'O que você acha que estou sentindo agora?'

A Escada vs. A Teia

A grande ideia de Gilligan foi que existem duas maneiras de enxergar a moralidade. Nenhuma é melhor que a outra, mas precisamos de ambas para estarmos completos.

Uma forma é a Ética da Justiça. Ela se concentra em ser justo, seguir regras e proteger os direitos individuais.

Dois lados
A Ética da Justiça

Foca em regras universais. Pergunta: 'Qual é a coisa justa a fazer por todos, independentemente de quem sejam?'

A Ética do Cuidado

Foca em necessidades específicas. Pergunta: 'Qual é a coisa mais gentil a fazer por esta pessoa nesta situação?'

A outra forma é a Ética do Cuidado. Ela se concentra em ser empático, manter conexões e responder às necessidades específicas de pessoas reais.

Pense em uma briga em um parquinho. Uma abordagem de "Justiça" diria: "A regra é cinco minutos no balanço por pessoa."

Uma abordagem de "Cuidado" diria: "Eu percebo que meu amigo está tendo um dia muito ruim, então vou deixá-lo ficar mais tempo no balanço para ajudá-lo a se sentir melhor."

Carol Gilligan

A pessoa moral é aquela que ajuda os outros; a bondade é serviço, cumprindo as obrigações e responsabilidades para com os outros.

Carol Gilligan

Isso resume o coração da sua teoria. Ser 'bom' não é apenas não quebrar regras; é cuidar ativamente das pessoas ao seu redor.

Ouvindo o Silêncio

Gilligan não parou apenas na história de Heinz. Ela começou a notar que, à medida que as crianças crescem, elas às vezes perdem a sua "voz".

Ela observou que as meninas, em particular, eram frequentemente mandadas serem "boazinhas" ou "abnegadas". Elas eram encorajadas a ouvir as necessidades de todos os outros, mas ignorar as suas próprias.

Mira

Mira says:

"Isso me faz pensar em como às vezes eu digo 'Eu não me importo' só para evitar uma briga, mesmo quando eu me importo muito."

Gilligan argumentou que o cuidado verdadeiro deve incluir o autocuidado. Se você ignora sua própria voz para manter os outros felizes, a teia de conexão está, na verdade, ficando mais fraca, e não mais forte.

Ela queria que as pessoas percebessem que ser honesto sobre o que você sente faz parte de ser uma boa pessoa. É preciso coragem para expressar sua verdade quando isso pode perturbar o que já existe.

  • Ouvir a si mesmo é tão importante quanto ouvir os outros.
  • Ser "bom" não significa ser silencioso.
  • A conexão verdadeira requer duas pessoas reais, não duas pessoas fingindo.

Carol Gilligan

Ter uma voz é ser humano. Ter uma voz humana é estar em relacionamento.

Carol Gilligan

Ela acreditava que só nos tornamos verdadeiramente nós mesmos quando expressamos nossa verdade e temos alguém para ouvi-la.

A Jornada da Voz Cuidativa

c. 350 A.C.
Aristóteles e outros filósofos focam na 'Justiça' como a maior virtude para os cidadãos em uma cidade.
1958
Lawrence Kohlberg começa seu estudo dos estágios morais, focando principalmente na lógica dos meninos.
1982
Carol Gilligan publica 'Uma Voz Diferente', apresentando ao mundo a Ética do Cuidado.
Dias Atuais
Psicólogos usam as ideias de Gilligan para ensinar empatia e inteligência emocional em escolas no mundo todo.

Por Que Isso Importa Hoje

Antes de Carol Gilligan, muitas pessoas pensavam que emoções e sentimentos eram coisas confusas que atrapalhavam o "pensamento real".

Ela nos mostrou que a empatia é, na verdade, uma forma de inteligência altamente sofisticada. Ela exige que imaginemos o mundo através dos olhos de outra pessoa.

Hoje, médicos, advogados e até líderes mundiais usam a Ética do Cuidado para tomar decisões melhores. Eles não perguntam apenas: "Isso é legal?"

Eles perguntam: "Quem isso vai machucar? Quem isso vai ajudar? Como podemos manter nossa comunidade unida?"

Imagine isso
Uma teia de aranha linda coberta de orvalho representando conexão.

Pense em uma teia de aranha gigante e brilhante no orvalho da manhã. Se um fio minúsculo se quebrar, toda a teia treme. É assim que Carol Gilligan via o nosso mundo: somos todos os fios, e nosso cuidado uns com os outros é o que mantém a teia forte.

Algo para Pensar

Se você tivesse que escolher entre ser perfeitamente justo ou ser perfeitamente gentil, qual você escolheria?

Não há resposta certa ou errada aqui. Alguns momentos da vida podem precisar de um juiz, e outros podem precisar de um amigo. Pense em uma vez em que você escolheu um em detrimento do outro.

Perguntas sobre Psicologia

Carol Gilligan achava que meninos não sabem cuidar?
De jeito nenhum! Embora ela tenha usado as experiências das meninas para encontrar a 'Ética do Cuidado', ela acreditava que tanto o cuidado quanto a justiça são qualidades humanas que todos podem usar. Ela apenas notou que nossa sociedade tendia a valorizar mais o lado da 'justiça'.
A Ética do Cuidado é melhor que a Ética da Justiça?
Gilligan argumentou que elas são como duas línguas diferentes. Você precisa das duas para ter uma conversa completa. A Justiça mantém as coisas justas e iguais, enquanto o Cuidado mantém as pessoas conectadas e apoiadas.
Por que o título é 'Uma Voz Diferente'?
Ela escolheu esse título porque as pessoas que ela entrevistou não estavam falando da maneira 'padrão' que os livros didáticos esperavam. O foco delas nos relacionamentos soava como uma melodia diferente comparado ao foco nas regras.

A Teia é Sua

Na próxima vez que você estiver sentado em círculo com seus amigos ou ajudando um irmão, lembre-se de que sua 'voz' importa. Carol Gilligan nos ensinou que a psicologia não é apenas sobre o que está em nossas cabeças, mas sobre o que acontece entre nós. Ao escolher cuidar, você está construindo uma teia mais forte para todos.