Você já teve certeza absoluta de que estava certo sobre algo, só para depois descobrir que estava completamente errado?

Nossos cérebros são as máquinas mais complexas do universo, mas eles têm um segredo: adoram pegar atalhos. Esses 'bugs' mentais são chamados de vieses cognitivos, e eles moldam tudo, desde os amigos que escolhemos até o cereal que comemos.

Imagine que você está caminhando por uma floresta densa. Você precisa chegar ao outro lado rápido porque o sol está se pondo. Você poderia medir cada árvore e mapear cada pedra, ou poderia seguir uma trilha simples que outra pessoa já abriu.

Seu cérebro escolhe a trilha todas as vezes. Esses caminhos são chamados de heurísticas, que é uma palavra difícil para atalhos mentais. Eles nos ajudam a tomar decisões rápidas, mas às vezes nos levam na direção errada.

Imagine isso
Uma ilustração de uma pessoa pré-histórica em uma savana, representando a origem do pensamento rápido.

Imagine que você é um humano vivendo há 50.000 anos. Você ouve um estalo nos arbustos. Se você pensar 'É um tigre!' e correr, você vive. Se você pensar 'Deixe-me analisar as frequências sonoras para ter certeza', você pode ser comido. Nossos cérebros são descendentes dos corredores rápidos, não dos pensadores lentos.

No final da década de 1960, na Universidade Hebraica de Jerusalém, dois psicólogos chamados Daniel Kahneman e Amos Tversky começaram a notar algo estranho. Ambos eram pessoas muito inteligentes, mas continuavam cometendo os mesmos erros bobos em seus raciocínios.

Em vez de ficarem envergonhados, eles ficaram encantados. Perceberam que, se dois especialistas podiam ser enganados por suas próprias mentes, então todo mundo também deveria ser. Eles passaram anos pesquisando por que pensamos da maneira que pensamos.

Daniel Kahneman

Somos cegos para nossa própria cegueira. Temos muito pouca ideia do quão pouco sabemos. Não fomos projetados para saber o quão pouco sabemos.

Daniel Kahneman

Kahneman disse isso em seu livro Rápido e Devagar. Ele queria que as pessoas entendessem que nosso maior erro não é estar errado, mas ter 100% de certeza de que estamos certos quando não estamos.

Eles descobriram que nossos cérebros não são apenas um único pensador. Em vez disso, é como se houvesse dois sistemas diferentes trabalhando juntos, embora nem sempre se deem bem.

Kahneman chamou esses sistemas de Sistema 1 e Sistema 2. Um é como um atleta veloz que reage instantaneamente, enquanto o outro é como um bibliotecário lento e cuidadoso que confere todos os fatos.

Dois lados
O Velocista

O Sistema 1 é rápido, automático e emocional. Ele te ajuda a pegar uma bola, ler uma expressão facial e reagir ao perigo instantaneamente. Sem ele, não conseguiríamos viver.

O Cientista

O Sistema 2 é lento, esforçado e lógico. Ele te ajuda a resolver um problema de matemática, aprender um novo idioma ou perceber que uma promoção 'incrível' é, na verdade, uma furada.

Na maior parte do tempo, o Sistema 1 está no comando. Ele te diz que uma sombra é um monstro ou que uma pessoa sorridente é amigável. Ele é muito rápido, mas é também onde moram os vieses cognitivos.

Esses vieses são como ilusões de ótica para os seus pensamentos. Mesmo quando você conhece o truque, seu cérebro ainda quer acreditar no atalho porque é mais fácil do que fazer o trabalho duro de pensar devagar.

Finn

Finn says:

"Se nossos cérebros foram feitos para cometer erros, isso significa que nunca podemos confiar no que pensamos? Parece um pouco como tentar andar sobre uma gelatina mole!"

Um dos atalhos mais poderosos é chamado de Viés de Confirmação. É quando nossos cérebros agem como um ímã gigante, puxando qualquer informação que prove que já estamos certos e empurrando para longe qualquer coisa que prove que estamos errados.

Se você acredita que seu time de futebol é o melhor da liga, você vai se lembrar de cada gol incrível que eles fizeram. Você pode convenientemente 'esquecer' os jogos em que eles jogaram mal ou as vezes em que o outro time foi simplesmente melhor.

Mira

Mira says:

"É como ter um par de óculos que deixa tudo roxo. Você esquece que está usando até que alguém avise, e então você começa a ver as cores reais de novo."

Vemos isso todos os dias no pátio da escola e no noticiário. As pessoas tendem a andar com outras que concordam com elas, o que torna o viés ainda mais forte. Isso nos faz sentir seguros e inteligentes, mas também nos deixa um pouco cegos para a verdade.

Tente isso

Vá a um site de buscas com um adulto. Digite 'Por que cachorros são melhores que gatos?' e veja os resultados. Depois digite 'Por que gatos são melhores que cachorros?'. Você verá como a internet ajuda a alimentar nosso viés de confirmação, nos dando exatamente o que pedimos!

Depois, há o efeito de Ancoragem. Isso acontece quando seu cérebro fica 'preso' na primeira informação que ouve. Imagine que você entra em uma loja e vê um brinquedo por cem reais.

Você acha que isso é caro demais. Mas então você vê outro brinquedo em promoção por cinquenta reais. De repente, cinquenta reais parece uma super pechincha, mesmo que aquele brinquedo valha, na verdade, apenas dez reais. Seu cérebro 'ancorou' no primeiro preço alto.

Francis Bacon

A compreensão humana é como um espelho falso que, ao receber raios de forma irregular, distorce e descolore a natureza das coisas.

Francis Bacon

Escrevendo em 1620, Bacon foi uma das primeiras pessoas a perceber que nossos próprios cérebros são o maior obstáculo para encontrar a verdade. Ele chamou isso de 'Ídolos'.

Muito antes da psicologia moderna, as pessoas já notavam essas armadilhas. Em 1620, um filósofo chamado Francis Bacon escreveu sobre os 'Ídolos da Mente'. Ele acreditava que a compreensão humana é como um espelho torto que distorce tudo o que reflete.

Ele queria que as pessoas percebessem que nossos sentidos e sentimentos muitas vezes atrapalham a ciência clara. Ele sabia que, para encontrar a verdade, temos que admitir que nossas próprias mentes podem estar nos pregando peças.

Através dos Tempos

1620
Francis Bacon publica 'Novum Organum', descrevendo os quatro 'Ídolos' que impedem os humanos de ver o mundo com clareza.
1972
Daniel Kahneman e Amos Tversky publicam seu primeiro grande artigo sobre heurísticas e vieses, mudando a psicologia para sempre.
1999
David Dunning e Justin Kruger descrevem o 'Efeito Dunning-Kruger', explicando por que iniciantes costumam ser excessivamente confiantes.
2011
O livro 'Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar' é lançado, trazendo essas ideias para milhões de pessoas ao redor do mundo.

Outra falha estranha é a Heurística de Disponibilidade. É quando achamos que algo tem mais chance de acontecer só porque conseguimos lembrar facilmente de um exemplo disso.

Se você acabou de ver um filme sobre um ataque de tubarão, pode ficar aterrorizado de entrar no mar. Mesmo que você tenha muito mais chance de se machucar com um coco caindo do que com um tubarão, a memória 'disponível' do filme faz o tubarão parecer uma ameaça maior.

Você sabia?
Um diagrama geométrico colorido representando os muitos diferentes vieses cognitivos.

Existem mais de 180 vieses cognitivos reconhecidos! Algumas pessoas tentaram mapear todos eles em um círculo gigante. Parece uma flor enorme e complicada de todas as maneiras como nossos cérebros podem se confundir um pouco.

Você já começou um livro ou um filme que era muito chato, mas terminou mesmo assim porque já tinha passado uma hora nele? Isso é a Falácia do Custo Irrecuperável.

Seu cérebro diz que você não deve 'desperdiçar' o tempo que já gastou. Mas o tempo já foi embora! Ao ficar até o fim, você está, na verdade, desperdiçando ainda mais tempo. É uma armadilha lógica que nos mantém presos em situações ruins.

Finn

Finn says:

"Eu me pergunto se os animais também têm vieses. Será que meu cachorro acha que eu sou o melhor cozinheiro do mundo só porque eu sou o único que dá comida para ele? Isso com certeza é um viés."

Há também o famoso Efeito Dunning-Kruger. Esta é a tendência engraçada, e às vezes irritante, de pessoas que sabem muito pouco sobre um assunto terem certeza absoluta de que são especialistas.

Quando você começa a aprender xadrez, pode se achar um gênio depois de ganhar uma partida. Só depois de aprender mais é que você percebe o quanto, na verdade, ainda não sabe. Os verdadeiros especialistas costumam ser menos confiantes porque sabem o quanto o mundo é complicado de verdade.

Tente isso

Na próxima vez que estiver discutindo com um amigo, tente o desafio do 'Homem de Ferro' (Steel Man). Em vez de atacar a ideia dele, tente explicar o ponto de vista dele tão bem que ele diga: 'Sim, é exatamente isso que eu quero dizer!'. É a melhor maneira de quebrar seu próprio viés de confirmação.

Finalmente, temos o Efeito de Enquadramento. É como a maneira de descrever uma escolha muda como nos sentimos sobre ela. Você preferiria comer um hambúrguer que é '80% sem gordura' ou um que tem '20% de gordura'?

A maioria das pessoas escolhe a opção '80% sem gordura', embora sejam exatamente a mesma coisa. Nossos cérebros reagem às palavras usadas, não apenas aos fatos. Publicitários e políticos usam esse viés o tempo todo para nos empurrar para certas escolhas.

Amos Tversky

O cérebro é uma máquina de tirar conclusões precipitadas.

Amos Tversky

Tversky era conhecido por seu senso de humor. Ele quis dizer que nossos cérebros foram feitos para velocidade e sobrevivência, não necessariamente para lógica perfeita ou matemática.

Então, por que temos esses vieses? Se eles nos fazem cometer erros, não seríamos melhores sem eles? Não necessariamente. Na natureza, um cérebro que para para pensar lentamente se o barulho na grama é um leão ou o vento pode acabar sendo comido.

Vieses são o preço que pagamos por ter um cérebro que pode tomar decisões que salvam vidas num piscar de olhos. O objetivo não é se livrar deles, porque não podemos. O objetivo é percebê-los, como um capitão percebendo uma corrente no oceano, e ajustar o leme.

Algo para Pensar

Qual viés cognitivo você acha que mais usa no seu dia a dia?

Não existe resposta certa ou errada aqui. Todos nós temos esses vieses. Percebê-los é como se tornar o detetive da sua própria mente.

Perguntas sobre Psicologia

O que é um viés cognitivo em termos simples?
Um viés cognitivo é um atalho mental que ajuda seu cérebro a tomar decisões rápidas, mas que também pode te levar a cometer erros de lógica ou de julgamento.
Existe uma 'cura' para os vieses cognitivos?
Não, você não pode se livrar deles porque eles fazem parte de como o cérebro humano é construído. No entanto, você pode aprender a percebê-los e desacelerar seu pensamento quando precisar fazer escolhas importantes.
Os vieses cognitivos são sempre ruins?
De jeito nenhum! Muitos vieses existem porque ajudaram nossos ancestrais a sobreviver. Eles nos ajudam a reagir rápido ao perigo e a processar enormes quantidades de informações sem ficarmos sobrecarregados.

A Aventura de Pensar

O mundo é um lugar complicado, e seu cérebro está fazendo o melhor para te ajudar a navegar por ele. Ao aprender sobre esses vieses, você não está apenas estudando psicologia: está aprendendo a ser um amigo melhor, um juiz mais justo e um explorador da verdade mais curioso. Continue questionando suas primeiras impressões e não tenha medo de estar errado. É aí que o verdadeiro aprendizado começa.