Você já se perguntou por que consegue lembrar perfeitamente a letra da sua música favorita, mas não consegue lembrar onde deixou seus sapatos cinco minutos atrás?

A memória é um dos maiores mistérios do cérebro humano. Ela é o processo de codificar, guardar e encontrar informações que moldam tudo: desde os seus primeiros sonhos de infância até a maneira como você aprende matemática hoje.

Imagine que você está em um grande salão de mármore na Grécia Antiga. O ano é aproximadamente 500 a.C., e um poeta chamado Simônides de Ceos acaba de sair de um salão de banquetes lotado. De repente, o teto desaba: um desastre que deixa os convidados irreconhecíveis.

Simônides descobriu algo incrível. Ele percebeu que, ao fechar os olhos e visualizar a sala, conseguia lembrar exatamente onde cada pessoa estava sentada. Isso permitiu que ele identificasse todos os presentes. Esse foi o nascimento do Palácio da Memória, uma técnica que as pessoas ainda usam hoje para lembrar quantidades enormes de informação.

Imagine isso
Uma ilustração lúdica de uma casa usada como um palácio da memória

Imagine uma casa gigante na sua mente. Cada cômodo está cheio de objetos estranhos que ajudam você a lembrar de algo. Para lembrar de uma lista de palavras como 'Maçã, Robô, Guarda-chuva', você pode imaginar uma maçã sentada na sua porta da frente, um robô dormindo na sua cama e um guarda-chuva pendurado no seu chuveiro. Para lembrar da lista, você só precisa caminhar pela sua casa imaginária!

Essa história nos diz algo vital sobre como nossas mentes funcionam. A memória não é apenas uma coleção aleatória de fatos. Ela está profundamente ligada aos lugares onde vamos, às coisas que vemos e às histórias que contamos a nós mesmos. Para entender a memória, temos que olhá-la como uma jornada pelo tempo e pelo espaço.

Finn

Finn says:

"Se o Simônides conseguia lembrar da sala inteira só de fechar os olhos, será que eu posso construir um Palácio da Memória para o meu dever de história? Eu colocaria a Revolução Francesa na cozinha e os Vikings na banheira!"

Os Três Estágios de uma Memória

Pense na sua memória como uma agência de correios muito movimentada. Para que um pacote chegue ao seu destino, ele precisa passar por um processo específico. Se qualquer etapa falhar, o pacote — ou a memória — se perde.

Primeiro vem a Codificação. É quando seu cérebro recebe informações do mundo através de seus olhos, ouvidos e nariz. Seu cérebro traduz essas imagens e sons em uma linguagem química especial que ele consegue entender e guardar para depois.

Aristóteles

A memória é o escrivão da alma.

Aristóteles

Aristóteles foi um filósofo grego que viveu há mais de 2.300 anos. Ele acreditava que tudo o que pensamos e sentimos é registrado em nossas mentes, como um escritor registrando uma história em um livro.

Depois que uma memória é codificada, ela passa para o Armazenamento. É aqui que o cérebro decide por quanto tempo manter a informação. Algumas coisas são guardadas por apenas alguns segundos, enquanto outras são arquivadas por décadas. O cérebro é muito exigente sobre o que decide salvar.

Finalmente, há a Recuperação. Este é o ato de esticar o braço dentro do "sótão mental" e trazer a memória de volta para a luz. Às vezes é fácil, como lembrar o seu próprio nome. Outras vezes, parece procurar uma agulha minúscula em um palheiro muito grande.

Você sabia?
Ilustração da conexão entre o cheiro e a memória

O olfato é o único sentido que pula a principal 'estação de triagem' do cérebro e vai direto para as áreas envolvidas na memória e na emoção. É por isso que o cheiro de um certo biscoito ou de uma calçada molhada pela chuva pode, de repente, levar você de volta a uma memória de anos atrás!

O Cavalo-Marinho do Cérebro

Se pudéssemos espiar dentro da sua cabeça, não encontraríamos um arquivo de metal ou um disco rígido de computador. Em vez disso, encontraríamos uma rede complexa de Neurônios, que são células nervosas minúsculas que conversam entre si. Quando você aprende algo novo, essas células se esticam e se tocam em pontos chamados Sinapses.

No centro dessa rede está uma estrutura pequena e curva chamada Hipocampo. Ele recebeu esse nome por causa da palavra grega para cavalo-marinho, devido ao seu formato incomum. Esta é a parte do seu cérebro que age como um bibliotecário, ajudando a organizar as novas experiências e a decidir para onde elas devem ir.

Mira

Mira says:

"É estranho pensar que meu 'cavalo-marinho' está trabalhando agora mesmo para salvar o som da voz da minha mãe ou o cheiro do café da manhã. É como um bibliotecário minúsculo que nunca dorme, arquivando constantemente minha vida em pastas invisíveis."

Sem o seu hipocampo, você ficaria preso no "agora" para sempre. Você seria capaz de manter uma conversa, mas assim que saísse da sala, esqueceria que ela aconteceu. Ele é a ponte que conecta o seu eu do presente ao seu eu do passado.

Cada vez que você recorda uma memória, você está, na verdade, fortalecendo o caminho físico entre esses neurônios. Esse é um conceito chamado Neuroplasticidade. Isso significa que seu cérebro está literalmente mudando de forma com base no que você escolhe lembrar e praticar.

Tente isso

Você consegue vencer a 'Regra dos Sete'? Peça a um amigo para dizer sete números aleatórios. Tente repeti-los na ordem. Agora tente oito. Depois nove. Observe como seu cérebro começa a se sentir 'cheio' assim que você passa de sete. Esse é o limite da sua bancada de trabalho da Memória de Trabalho!

A Bancada de Trabalho e a Floresta

Os psicólogos costumam dividir a memória em diferentes "salas". A primeira sala é a Memória Sensorial, que dura apenas uma fração de segundo. É o brilho persistente de uma varinha de faíscas ou o eco de um barulho alto que fica nos seus ouvidos por apenas um momento.

Se você prestar Atenção a essa informação sensorial, ela se move para a sua Memória de Trabalho. Pense nela como uma bancada de trabalho mental. É onde você segura a informação enquanto a está usando, como lembrar os números de um problema de matemática enquanto tenta resolvê-lo.

Hermann Ebbinghaus

Deixado à própria sorte, todo conteúdo mental perde gradualmente sua capacidade de ser revivido.

Hermann Ebbinghaus

Ebbinghaus foi a primeira pessoa a rastrear cientificamente como esquecemos as coisas. Ele percebeu que, se não 'regarmos' nossas memórias pensando nelas, elas acabam murchando como uma planta sem sol.

A memória de trabalho é famosa por ser pequena. A maioria dos humanos só consegue segurar cerca de sete itens na memória de trabalho de uma vez. Se você tentar adicionar um oitavo item, um dos outros geralmente cai da bancada e desaparece para sempre. É por isso que é tão difícil lembrar uma lista de compras longa sem anotá-la.

Se uma memória for importante o suficiente, ela viaja para a Memória de Longo Prazo. Esta é como uma vasta floresta onde as memórias podem viver por toda a vida. Para chegar lá, a memória deve passar por um processo chamado Consolidação, que geralmente acontece enquanto você está dormindo profundamente.

Dois lados
A Câmera de Vídeo

Algumas pessoas costumavam pensar que a memória era como uma gravação perfeita. Se você pudesse encontrar a 'fita' certa, poderia assistir ao seu 3º aniversário exatamente como ele aconteceu, sem erros.

O Esboço do Artista

A maioria dos cientistas acredita agora que a memória é como um esboço. Toda vez que lembramos, redesenhamos as linhas. Podemos mudar as cores ou os detalhes com base em como nos sentimos hoje.

Por que Nós Esquecemos?

Pode parecer que esquecer é um erro, mas os cientistas acreditam que é, na verdade, uma característica vital da mente humana. Imagine se você lembrasse de cada folha que viu em cada árvore durante uma caminhada. Seu cérebro ficaria tão cheio de fatos inúteis que você não conseguiria encontrar as coisas importantes.

Esquecer é a maneira do cérebro de limpar a casa. Isso nos ajuda a focar no que mais importa. Hermann Ebbinghaus, um cientista que estudou sua própria memória, descobriu a "Curva do Esquecimento". Ele descobriu que esquecemos a maioria das informações novas muito rapidamente, geralmente nas primeiras 24 horas, a menos que façamos um esforço para revisá-las.

Mira

Mira says:

"Talvez esquecer não seja perder algo. Talvez seja apenas abrir espaço para algo novo crescer. Se eu lembrasse de cada vez que tropecei em um tapete, eu teria medo de andar de novo!"

A memória também não é uma gravação perfeita como um vídeo. Em vez disso, ela é mais como um conjunto de Lego que você reconstrói toda vez que pensa nela. Cada vez que você tira uma memória do armazenamento, seu cérebro pode mudar algumas peças, adicionar uma cor nova ou deixar uma parte para trás. É por isso que duas pessoas podem lembrar do mesmo evento de maneiras muito diferentes.

Frederic Bartlett

A memória não é uma reprodução, mas uma reconstrução.

Frederic Bartlett

Bartlett foi um psicólogo que descobriu que nossas memórias são frequentemente influenciadas por nossa própria cultura e expectativas. Ele mostrou que não apenas lembramos fatos: nós contamos histórias a nós mesmos sobre o que aconteceu.

Este processo de "reconstrução" é o que nos torna humanos. Ele nos permite aprender com nossos erros e imaginar o futuro. Nossas memórias não são apenas sobre o passado: elas são as ferramentas que usamos para construir a pessoa que queremos nos tornar amanhã.

Através das Eras: Mapeando a Mente

500 a.C.
Simônides de Ceos inventa o Método de Loci (o Palácio da Memória) na Grécia Antiga.
350 a.C.
Platão compara a memória a um bloco de cera: algumas mentes têm cera 'dura' que segura bem as formas, outras têm cera 'mole' que borra facilmente.
1885
Hermann Ebbinghaus publica o primeiro estudo científico sobre o esquecimento e a importância da repetição.
1953
O caso do 'Paciente H.M.' revela que o hipocampo é a chave para criar novas memórias de longo prazo.
Hoje
Neurocientistas usam varreduras de alta tecnologia para ver memórias 'acendendo' no cérebro como aglomerados de neurônios.

Você sabia?
Um pássaro Quebra-nozes de Clark enterrando sementes

Um pássaro Quebra-nozes de Clark pode esconder até 30.000 sementes em milhares de locais diferentes por quilômetros de floresta, e ele lembra exatamente onde quase todas estão meses depois! Comparados a eles, os humanos são, na verdade, bem esquecidos.

Algo para Pensar

Se você pudesse escolher apenas uma memória para guardar para sempre, mesmo que esquecesse tudo o mais, qual seria?

Não existe resposta certa ou errada. Algumas pessoas escolhem um grande evento, como uma viagem, enquanto outras escolhem um momento minúsculo, como o toque de um cobertor quentinho. Sua memória é exclusivamente sua.

Perguntas sobre Psicologia

Por que eu esqueço por que entrei em um cômodo?
Isso é frequentemente chamado de 'Efeito da Porta'. Cientistas acreditam que, quando você passa por uma porta, seu cérebro 'limpa a bancada' da sua memória de trabalho para se preparar para um novo ambiente, fazendo você deixar cair o pensamento que estava segurando.
Eu posso realmente ficar sem espaço no meu cérebro?
Na verdade, não! Seu cérebro tem bilhões de neurônios e trilhões de conexões. Estima-se que o cérebro humano possa armazenar cerca de 2,5 petabytes de dados, o que é suficiente para guardar 3 milhões de horas de programas de TV.
Dormir realmente ajuda minha memória?
Sim! Enquanto você dorme, seu cérebro está ocupado reprisando os eventos do dia e movendo informações importantes do seu 'cavalo-marinho' (hipocampo) de curto prazo para o armazenamento de longo prazo no seu córtex.

Uma Biblioteca Viva

A memória não é apenas um registro do que aconteceu com você. É uma parte criativa e viva da sua mente que ajuda você a entender o mundo. Ao aprender como ela funciona, você pode começar a tratar sua memória com mais gentileza: sabendo quando confiar nela, quando ajudá-la e quando deixar as coisas irem embora.