Imagine viver em um mundo onde o sol não é apenas uma estrela, mas um rei em um barco dourado lutando contra uma serpente de sombras gigante todas as noites.

Por milhares de anos, o povo do Antigo Egito viveu sob uma forma única de politeísmo, onde cada parte da natureza era um deus. Eles não apenas contavam histórias: eles usavam mitos para entender por que o rio inundava e o que acontece quando morremos.

Para entender os egípcios, você precisa olhar para o chão sob seus pés. Para eles, o mundo era dividido em dois lugares distintos: a 'Terra Negra' e a 'Terra Vermelha'. A Terra Negra era o solo rico e fértil perto do Rio Nilo, onde as coisas cresciam, enquanto a Terra Vermelha era o vasto e escaldante deserto.

Tudo em suas vidas girava em torno desse equilíbrio entre a vida e a morte. Eles acreditavam que o universo era governado por uma força poderosa chamada Ma'at. Isso não era exatamente uma pessoa, mas um conceito de verdade, equilíbrio e ordem que mantinha as estrelas se movendo e as estações mudando.

A Primeira Colina de Terra

Como um mundo começa? Muitas histórias egípcias começam com um oceano vasto, escuro e agitado chamado Nun. Não era como os nossos oceanos de hoje: era um caos aquático que continha o potencial para tudo, mas ainda não tinha uma forma definida.

Imagine isso
Uma colina dourada de terra surgindo de um mar escuro e agitado.

Imagine um mundo sem chão, sem céu e sem som. Existe apenas uma água índigo profunda e infinita que se estende em todas as direções. De repente, você ouve um sussurro e um único ponto de luz dourada aparece à distância. É assim que os egípcios sentiam que o universo começou: com um único momento de luz silenciosa.

Dessas águas escuras, surgiu uma única colina de terra, chamada Benben. Nessa colina, o primeiro deus, Atum (que mais tarde se tornou , o deus do sol), criou a si mesmo. Ele ficou em terra firme e começou o trabalho de organizar o universo.

Atum não usou ferramentas para construir o mundo. Ele usou seus pensamentos e sua voz. Ao dar nome às coisas, ele as trazia à existência, e é por isso que os egípcios acreditavam que os nomes possuíam um poder terrível e belo.

Finn

Finn says:

"E se a primeira colina de terra ainda estivesse por aí em algum lugar? Imagine ser a primeiríssima pessoa a pisar em terra firme e ter que dar nome ao vento!"

A Família dos Deuses

A mitologia egípcia é famosa por sua vasta árvore genealógica de deuses com cabeças de falcões, chacais e leões. Isso não era apenas fantasia. As cabeças de animais eram símbolos da 'personalidade' do deus ou de sua função específica no universo.

Por exemplo, Anúbis tem a cabeça de um chacal porque os chacais eram frequentemente vistos em cemitérios. Os egípcios não viam isso como algo assustador: eles viam o chacal como um guardião que conhecia o caminho pelo deserto dos mortos. Ao dar a ele uma cabeça de chacal, eles estavam dizendo: 'Este deus tem os instintos de um navegador do deserto'.

Joseph Campbell

Um mito é um sonho público, um sonho é um mito privado.

Joseph Campbell

Campbell foi um estudioso famoso que percebeu que os mitos não são apenas 'histórias falsas', mas formas pelas quais civilizações inteiras compartilham seus desejos e medos mais profundos. Ele acreditava que os egípcios usavam deuses para descrever partes da mente humana.

Uma das histórias mais importantes é o ciclo de Osíris e Ísis. Osíris era um rei sábio que foi assassinado por seu irmão invejoso, Set, o deus das tempestades e do caos. Essa história não era apenas sobre uma briga de família: era uma forma de explicar por que as coisas morrem e como elas podem renascer.

Ísis, a deusa da magia, usou seu poder para trazer seu marido de volta à vida apenas pelo tempo suficiente para garantir que seu filho, Hórus, pudesse nascer. Esse mito dava às pessoas a esperança de que a morte não era o fim, mas uma transição para um novo tipo de existência.

Vivendo com Ma'at

Para uma criança egípcia, a mitologia não era apenas um livro de histórias lido na hora de dormir. Era a lei. Como Ma'at representava a ordem, ser uma pessoa 'boa' significava viver em harmonia com o ritmo do mundo.

Se você fosse ganancioso ou cruel, você não estava apenas sendo chato: você estava, na verdade, danificando a estrutura do universo. Você estava convidando 'Isfet', ou o caos, de volta ao mundo. Isso fazia com que cada ação parecesse incrivelmente importante.

Tente isso
Uma mão escrevendo em um pergaminho antigo.

Os egípcios tinham uma lista chamada 'Confissões Negativas'. Em vez de dizerem o que fizeram de certo, eles listavam coisas que não fizeram de errado. Tente fazer sua própria lista de 5 coisas que você não fez hoje para manter a 'Ma'at' (equilíbrio). Por exemplo: 'Eu não desperdicei comida' ou 'Eu não ignorei um amigo que estava triste'.

Manter a Ma'at era o trabalho principal do Faraó. Como o elo vivo entre os deuses e o povo, o rei ou a rainha tinha que realizar rituais para garantir que o Nilo inundasse todos os anos. Essa inundação, conhecida como a Inundação, era a única razão pela qual o Egito conseguia existir no meio de um deserto.

Quando o rio subia, não era apenas água: eram os deuses provendo para seus filhos. Quando ele não subia, era um sinal de que o equilíbrio havia sido perdido e as pessoas precisavam se esforçar mais para restaurar a Ma'at.

Mira

Mira says:

"Eu gosto da ideia de que somos responsáveis pelo equilíbrio de todo o mundo. É como quando todo mundo tem que fazer sua parte em um trabalho em grupo, senão tudo dá errado."

O Mistério da Alma

Os antigos egípcios tinham uma ideia muito complexa do que uma 'pessoa' realmente é. Eles não achavam que você tinha apenas uma alma: eles achavam que você era feito de várias partes diferentes que precisavam trabalhar juntas mesmo depois de você morrer.

  • O Ka: Seu 'duplo' ou força vital que ficava na tumba e precisava de oferendas de comida.
  • O Ba: Sua personalidade, muitas vezes retratada como um pássaro com cabeça humana, que podia voar para fora da tumba para visitar o mundo dos vivos.
  • O Ren: Seu nome secreto, que precisava ser falado em voz alta para você continuar existindo na vida após a morte.

Você sabia?
Um gato preto com um colar dourado.

Os egípcios amavam tanto os gatos que eles eram considerados sagrados! Se um gato de estimação morresse, a família inteira raspava as sobrancelhas como sinal de luto. Eles acreditavam que os gatos podiam ver o mundo espiritual e manter afastadas as cobras malignas.

Para manter essas partes da alma vivas, os egípcios desenvolveram a arte da mumificação. Eles acreditavam que o corpo físico era um 'lar' para a alma. Se a casa desaparecesse, a alma não teria onde ficar e acabaria desaparecendo na escuridão.

É por isso que eles construíram as pirâmides e tumbas escondidas no Vale dos Reis. Estas não eram apenas sepulturas luxuosas: eram 'casas de eternidade' projetadas para proteger o corpo e os pertences da alma por milhares de anos.

A Jornada pelo Duat

Quando um egípcio morria, sua jornada estava apenas começando. Eles tinham que viajar pelo Duat, um submundo misterioso cheio de monstros, lagos de fogo e portões mágicos. Para atravessá-lo, eles precisavam de um guia.

Esse guia é o que chamamos hoje de Livro dos Mortos. Era uma coleção de feitiços e instruções escritos em rolos de Papiro e colocados no caixão. Ajudava o viajante a saber em quais deuses confiar e de quais monstros fugir.

E.A. Wallis Budge

Os egípcios não eram um povo sombrio. Eles amavam a vida e esperavam continuá-la em um mundo muito melhor.

E.A. Wallis Budge

Budge foi uma das primeiras pessoas a traduzir o Livro dos Mortos para o inglês. Ele queria que as pessoas entendessem que todas aquelas tumbas e múmias não existiam porque os egípcios eram obcecados pela morte, mas porque eram obcecados em viver para sempre.

O teste final era a 'Pesagem do Coração'. Em um Grande Salão, o deus Anúbis colocava o coração da pessoa em uma balança. Do outro lado da balança, estava a pena de Ma'at. Se o coração estivesse pesado com más ações, a balança se inclinava.

Se o coração fosse leve como a pena, significava que a pessoa viveu uma vida equilibrada. Eles eram autorizados a entrar no 'Campo de Juncos', uma versão perfeita do Egito onde as plantações cresciam altas, a água era fresca e eles viveriam com os deuses para sempre.

Dois lados
A Visão da Ordem

Set é o vilão da história. Ele é o deus das tempestades e do caos que matou seu irmão. Sem ele, o mundo seria pacífico e seguro.

A Visão da Mudança

Set é necessário para o mundo. Caos e tempestades são o que nos fazem crescer e mudar. Até Rá precisa de Set em seu barco todas as noites para lutar contra a serpente gigante da escuridão.

O Poder da Imagem

Os antigos egípcios acreditavam que a arte era mágica. Se um Escriba esculpisse a imagem de um pão na parede de uma tumba, esse pão poderia se tornar comida real para a alma. É por isso que a arte deles parece tão específica: não era para ser apenas bonita, era para ser funcional.

Eles usavam Hieróglifos, um sistema de escrita onde desenhos representavam sons e ideias. Escrever o nome de uma pessoa em hieróglifos era uma forma de torná-la imortal. Enquanto seu nome fosse escrito ou falado, ela nunca morreria de verdade.

Através das Eras

3100 a.C.
Começa a Primeira Dinastia. O Egito é unificado e o Faraó é visto como um deus vivo que mantém o equilíbrio do universo.
1350 a.C.
O Faraó Akhenaton tenta proibir todos os deuses, exceto o disco solar, o Áton. Esse experimento de 'um só deus' dura apenas alguns anos antes do retorno dos antigos deuses.
332 a.C.
Alexandre, o Grande, conquista o Egito. Mitos gregos e egípcios começam a se misturar, criando novos deuses como Serápis.
1822 d.C.
Jean-François Champollion decifra a Pedra de Roseta. Após 1.500 anos de silêncio, os mitos egípcios podem finalmente ser lidos e compreendidos novamente.
Hoje
Os mitos egípcios vivem em filmes, livros e na arte, continuando a nos fascinar com seus símbolos de vida, morte e magia.

Essa crença no poder dos símbolos é o motivo pelo qual encontramos tantos Amuletos nas ruínas egípcias. As pessoas usavam pequenos pingentes no formato do 'Olho de Hórus' para proteção ou do 'Escaravelho' para o renascimento. Não eram apenas joias: eram pequenos pedaços de mitologia que você podia carregar no bolso.

Mira

Mira says:

"É engraçado como ainda usamos símbolos hoje, como os emojis. Talvez daqui a mil anos as pessoas pensem que o nosso emoji de 'coração' era um feitiço mágico para o amor!"

Por que os Mitos Ainda nos Falam

Hoje, olhamos para as ruínas das Grandes Pirâmides ou para as pinturas coloridas em uma Necrópole (uma cidade dos mortos) e nos perguntamos o que aquelas pessoas estavam pensando. O mundo delas parece tão diferente do nosso, mas suas perguntas eram exatamente as mesmas.

Eles se perguntavam por que o sol nasce, como ser uma pessoa boa e o que acontece quando as pessoas que amamos partem. Eles não tinham microscópios ou telescópios, mas tinham histórias que eram tão poderosas que duraram trinta séculos.

Erik Hornung

Os deuses são muitos, mas também são um.

Erik Hornung

Hornung foi um historiador moderno que explicou que os egípcios lidavam bem com contradições. Eles podiam acreditar em centenas de deuses e, ao mesmo tempo, acreditar que todos eram apenas faces diferentes do mesmo mistério.

A mitologia egípcia nos lembra que o mundo é mais do que apenas pedras e água. É um lugar de padrões e ecos. Mesmo que não acreditemos em deuses com cabeça de chacal hoje em dia, ainda valorizamos a ideia de um 'coração leve' e de uma vida vivida em equilíbrio com o mundo ao nosso redor.

Você sabia?
Uma tigela de pigmento azul brilhante.

A cor azul era incrivelmente difícil de fabricar no mundo antigo. Os egípcios inventaram o primeiro pigmento sintético, chamado 'Azul Egípcio', porque queriam pintar os deuses com a cor dos céus e do Nilo.

Algo para Pensar

Se sua vida fosse uma história, que cabeça de animal sua forma divina teria para representar sua personalidade?

Não existem respostas certas ou erradas. Pense nos traços que você mais valoriza: você é paciente como uma garça, protetor como uma leoa ou curioso como um gato?

Perguntas sobre Religião

Os egípcios realmente achavam que seus deuses tinham cabeças de animais?
A maioria dos historiadores acredita que as cabeças de animais eram símbolos. Assim como usamos um leão para representar 'coragem', os egípcios usavam características animais para mostrar os poderes e as características de seus deuses.
Por que eles tinham tantos deuses diferentes?
Eles acreditavam que um único deus era grande demais para a mente humana entender. Ao dividir o divino em muitos deuses diferentes (como o deus do sol, o deus do rio ou a deusa dos gatos), eles podiam se concentrar em uma parte da natureza de cada vez.
O Livro dos Mortos era um livro assustador?
Na verdade, era um livro cheio de esperança! Estava repleto de feitiços mágicos projetados para ajudar a pessoa a ter sucesso e encontrar a felicidade na vida após a morte. Era mais como um 'Guia de Dicas' para um videogame difícil do que uma história de terror.

O Rio Nunca Para

Os mitos do Egito são como o próprio Nilo: fluem através do tempo, mudando de forma, mas sempre carregando as mesmas verdades essenciais. Estejamos olhando para uma pintura de 4.000 anos ou para um super-herói moderno, ainda estamos procurando a mesma coisa que os egípcios: uma maneira de nos sentirmos em casa em um universo vasto e misterioso.