Você já se perguntou por que as pessoas constroem muros entre si, mesmo quando vivem no mesmo bairro?
Há mais de 500 anos, um homem chamado Guru Nanak passou a vida caminhando pela Ásia para fazer exatamente essa pergunta. Ele se tornou o fundador do Sikhismo, um modo de vida baseado na ideia de que todos são iguais e estão conectados por uma única e misteriosa luz divina.
Imagine um mundo onde suas roupas, seu sobrenome e até a maneira como você reza determinassem quem poderia ser seu amigo. No ano de 1469, em uma região chamada Punjab (que hoje é dividida entre a Índia e o Paquistão), era exatamente assim que a vida funcionava. As pessoas eram divididas por um rígido sistema de castas e por seus rótulos religiosos.
Imagine o Punjab há 500 anos. O ar tem cheiro de especiarias assadas e estradas empoeiradas. Você ouve os sons das línguas persa, punjabi e sânscrito se misturando nos mercados. Não há carros, apenas o pocotó dos cavalos e o rangido lento das carroças de boi carregando grãos.
Nanak nasceu em uma família que esperava que ele seguisse as regras da época. Mas, mesmo quando era um garotinho, ele era diferente. Ele não aceitava as coisas apenas porque "é assim que se faz". Ele queria saber por que as pessoas tratavam algumas como "superiores" e outras como "inferiores".
Finn says:
"Se Nanak não queria o cordão sagrado, será que ele estava dizendo que as coisas que vestimos para parecer 'especiais' na verdade nos fazem sentir mais separados uns dos outros?"
Quando Nanak tinha apenas nove anos, sua família organizou uma cerimônia para lhe dar um "cordão sagrado" para usar, o que mostraria sua alta posição social. Nanak recusou. Ele disse ao sacerdote que um cordão poderia quebrar, sujar ou ser queimado. Em vez disso, ele pediu um cordão feito de bondade e contentamento.
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Faça do contentamento seus brincos, da humildade sua tigela de esmolas e da meditação as cinzas que você aplica ao corpo.
Conforme crescia, Nanak trabalhava como lojista, mas sua mente estava quase sempre em outro lugar. Ele passava as manhãs tomando banho no rio e as noites conversando com viajantes de todas as crenças. Ele estava procurando uma maneira de enxergar além dos rótulos que as pessoas vestiam como se fossem casacos pesados.
Quando Nanak era adolescente, seu pai lhe deu dinheiro para começar um negócio. Em vez de comprar mercadorias para vender, Nanak usou o dinheiro para comprar comida para um grupo de viajantes famintos que encontrou. Ele chamou isso de 'Sacha Sauda', que significa 'O Verdadeiro Negócio'.
Certa manhã, quando Nanak tinha cerca de 30 anos, algo extraordinário aconteceu. Ele desceu ao rio Kali Bein para seu banho matinal, mergulhou na água e não voltou. Seus amigos e familiares esperaram por horas, depois dias, mas o rio estava em silêncio.
O Silêncio de Três Dias
Todos pensaram que Nanak tivesse se afogado. Mas, três dias depois, ele saiu da água, parecendo em paz e transformado. Por um dia inteiro, ele não disse uma única palavra. Quando finalmente falou, disse algo que chocou a todos: "Não há Hindu, e não há Muçulmano".
Mira says:
"É como quando você está na praia e vê as ondas. Todas parecem diferentes, mas são todas apenas o mesmo oceano. Talvez Nanak tenha visto o oceano, não apenas as ondas."
Isso não significava que aquelas religiões não existissem. Significava que, aos olhos do Criador, aqueles rótulos não importavam. Ele acreditava que, se Deus é como o sol, então as diferentes religiões são apenas janelas diferentes pelas quais vemos a mesma luz.
Que seguir rituais específicos e usar certos símbolos era a única maneira de estar perto de Deus.
Que os rituais eram como caixas vazias: eles só importavam se estivessem cheios de ações honestas e amor pelos outros.
Nanak decidiu que não poderia mais ficar em um só lugar. Ele se tornou um Guru, que significa um mestre que traz luz para a escuridão. Ele doou todos os seus pertences e iniciou uma série de longas jornadas chamadas Udasis.
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A verdade é a virtude mais alta, mas viver com verdade é ainda mais alto.
Acompanhado por seu amigo Mardana, um músico talentoso que tocava um instrumento de cordas chamado rabab, Nanak caminhou milhares de quilômetros. Eles viajaram para as montanhas nevadas do Tibete, os desertos de Meca e as ruas movimentadas de Bagdá. Por onde passavam, usavam a música para compartilhar sua mensagem.
O melhor amigo de Guru Nanak, Mardana, era muçulmano, enquanto a família de Nanak era hindu. Naquela época, pessoas de origens tão diferentes raramente viajavam juntas como iguais. A amizade deles era um exemplo vivo da mensagem de Nanak.
Uma das histórias mais famosas de suas viagens é sobre um homem rico e ganancioso chamado Malik Bhago. Malik deu um banquete gigante para exibir seu poder. Nanak se recusou a comparecer, escolhendo em vez disso comer um pão simples com um carpinteiro pobre chamado Lalo.
Mira says:
"A história do leite e do sangue é interessante. Não se trata do gosto da comida, mas da *energia* usada para fazê-la. Isso me faz pensar sobre as coisas que eu tenho."
Quando Malik Bhago perguntou irritado por que Nanak preferia a comida do carpinteiro, dizem que Nanak pegou um pedaço da comida farta de Malik em uma mão e o pão simples de Lalo na outra. Quando os espremeu, leite escorreu do pão do carpinteiro, mas sangue pingou da comida do homem rico. Isso era um símbolo: um foi ganho com trabalho honesto e duro, o outro através do sofrimento das pessoas.
Através dos Tempos
A Cozinha da Igualdade
Em seus últimos anos, Guru Nanak se estabeleceu e fundou uma aldeia chamada Kartarpur, que significa "Cidade do Criador". Aqui, ele transformou suas grandes ideias em hábitos diários. O mais importante deles era o Langar, ou cozinha comunitária.
Na próxima vez que você estiver comendo com um grupo de pessoas — no almoço da escola, em um jantar de família ou em uma festa — tente imaginar que cada pessoa ali tem a mesma 'luz' dentro de si. Como isso muda a maneira como você olha para aquela pessoa com quem costuma ter dificuldade de conversar?
No Langar, todos tinham que se sentar no chão em uma linha reta, lado a lado. Reis tinham que se sentar ao lado de servos. Pessoas ricas tinham que se sentar ao lado dos pobres. Ao comerem a mesma comida da mesma maneira, os muros entre eles começaram a desmoronar.
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Reconheça toda a raça humana como uma só.
Guru Nanak ensinou que você não precisa viver em uma caverna ou escalar uma montanha para ser uma pessoa boa. Você encontra o divino vivendo uma vida normal, trabalhando duro e ajudando os outros. Ele chamou isso de Seva, que é o serviço que não espera nada em troca.
Algo para Pensar
Se você pudesse usar apenas suas ações, e não suas palavras ou roupas, como as pessoas saberiam quem você realmente é?
Não existe uma única resposta certa para isso. Guru Nanak acreditava que nosso 'verdadeiro eu' é encontrado na maneira como tratamos os outros quando ninguém está olhando.
Perguntas sobre Religião
Guru Nanak era um rei ou um sacerdote?
Por que ele é chamado de 'Guru'?
Guru Nanak começou uma nova religião de propósito?
A Jornada Continua
A vida de Guru Nanak foi uma longa caminhada em direção a um mundo sem muros. Ele não deixou um conjunto de regras complicadas, mas sim um convite simples e desafiador: ver o divino em cada rosto que encontramos. Estejamos em uma cidade barulhenta ou em um quarto silencioso, esse convite ainda está aberto para nós hoje.