Imagine-se no topo de uma montanha enevoada no Japão, onde cada pedra, cada cachoeira e cada pinheiro retorcido tem seu próprio batimento cardíaco secreto.

Este é o mundo do Xintoísmo, a crença antiga do Japão que nos ensina que a Terra não é um objeto silencioso, mas uma comunidade viva. Através de histórias reunidas em livros como o Kojiki, conhecemos os Kami, os milhares de espíritos que moldaram as ilhas e que ainda flutuam no vento hoje em dia.

Muito antes de existirem cidades ou escolas, existia o oceano. Nas primeiras histórias japonesas, o mundo começou como uma sopa de caos, toda bagunçada e giratória. Dois seres, Izanagi e Izanami, estavam sobre a Ponte Flutuante do Céu e olharam para a névoa abaixo. Eles se perguntaram o que aconteceria se tocassem na água escura lá embaixo.

Eles pegaram uma lança adornada com joias e a mergulharam no oceano, agitando o sal e a espuma. Quando levantaram a lança, gotas de água caíram e endureceram, transformando-se nas primeiras ilhas do Japão. Esse era um mundo nascendo não de uma fábrica, mas de um simples ato de curiosidade e movimento.

Imagine isso
Dois espíritos criando uma ilha com uma lança.

Imagine duas figuras sobre uma ponte feita de arco-íris e nuvens. Abaixo delas, há apenas uma névoa escura e giratória. Elas alcançam a água com uma lança e, ao puxá-la de volta, o sal na ponta endurece e cai. Splash! A primeiríssima ilha do Japão aparece no meio do mar vazio.

Essas ilhas não eram lugares vazios. Izanagi e Izanami desceram para viver na terra que haviam criado e, logo, o mundo começou a se encher de espíritos. Esses espíritos são chamados de Kami, uma palavra difícil de traduzir porque significa muitas coisas ao mesmo tempo. Um Kami pode ser uma deusa poderosa do sol, mas também pode ser aquele sentimento que você tem ao ver uma árvore antiga particularmente bonita.

Para o povo japonês antigo, o mundo estava repleto dessas presenças invisíveis. Eles o chamavam de "Terra dos Oito Milhões de Kami", que era a maneira deles de dizer que o número de espíritos era tão alto que você nunca conseguiria contar todos. Cada rio tinha um espírito; cada montanha tinha um humor; cada tempestade tinha uma voz.

Lafcadio Hearn

O mundo não é apenas o que vemos. É também o que sentimos no silêncio profundo da floresta.

Lafcadio Hearn

Hearn foi um escritor que se mudou para o Japão na década de 1890 e ficou obcecado por seu folclore 'fantasmagórico'. Ele acreditava que os mitos do Japão eram uma forma de descrever a energia invisível que conecta todos os seres vivos.

Uma das histórias mais famosas desta mitologia é sobre a Deusa do Sol, Amaterasu. Ela era a mais brilhante de todos os Kami, aquela que dava luz aos campos de arroz e calor às pessoas. Mas Amaterasu tinha um irmão chamado Susanoo, o Deus da Tempestade, que era barulhento, bagunceiro e muito difícil de lidar.

Depois que Susanoo causou muita confusão no palácio celestial, Amaterasu ficou tão triste e frustrada que fez algo inesperado. Ela entrou em uma caverna profunda, puxou uma pedra pesada para fechar a entrada e se recusou a sair. De repente, o mundo inteiro ficou escuro: as plantações pararam de crescer e os outros Kami ficaram com frio e assustados.

Finn

Finn says:

"Se o sol entrasse em uma caverna hoje, será que conseguiríamos fazê-la rir o suficiente para sair? Que tipo de festa teríamos que dar?"

Os outros Kami não tentaram forçar a porta com martelos ou palavras irritadas. Em vez disso, fizeram algo muito humano: deram uma festa. Eles se reuniram do lado de fora da caverna, acenderam fogueiras gigantes e começaram a dançar e contar piadas. Penduraram um lindo Espelho e uma joia cintilante em uma árvore próxima, esperando despertar o interesse dela.

Quando Amaterasu ouviu o som de risos e comemoração, ficou confusa. Ela se perguntou como todos podiam estar tão felizes enquanto ela não estava lá. Ela deu uma espiadinha para fora da caverna, e sua luz atingiu o espelho que os Kami haviam pendurado. Ela viu seu próprio reflexo brilhante e ficou tão maravilhada com a beleza que deu um passo à frente, permitindo que os outros Kami a puxassem para fora e trouxessem a luz de volta ao mundo.

Você sabia?
O sol brilhando sobre um palácio japonês.

A família imperial japonesa traça sua história desde Amaterasu, a Deusa do Sol. Isso significa que, por mais de mil anos, o povo do Japão viu seus líderes como descendentes diretos do próprio sol!

Essa história nos diz algo importante sobre como os antigos japoneses viam o mundo. Eles acreditavam que até o sol pode se sentir triste ou solitário, e que a melhor maneira de resolver um problema sombrio é, muitas vezes, através da criatividade, da comunidade e de um pouco de barulho. Isso também explica por que os espelhos são considerados objetos sagrados no Japão: eles são símbolos da luz que todos carregamos dentro de nós.

A mitologia japonesa não trata apenas de deuses distantes no céu. Ela também fala sobre as criaturas estranhas e maravilhosas que vivem nas sombras do nosso próprio mundo, conhecidas como Yōkai. Estes são os monstros, espíritos e trapaceiros do folclore japonês. Alguns são assustadores, mas muitos são apenas peculiares, como o Kappa, um espírito das águas com um bico e uma tigela de água na cabeça.

Dois lados
Kami são Deuses

Nas histórias ocidentais, os deuses costumam ser como pessoas com superpoderes que vivem longe, no céu. Alguns pensam que os Kami são apenas a versão japonesa de Zeus ou Thor.

Kami são Natureza

No Japão, um Kami muitas vezes é a própria montanha. A montanha não 'tem' um deus; a montanha 'é' o espírito. Trata-se mais da energia de um lugar do que de uma pessoa.

Se você fosse uma criança no Japão há centenas de anos, não ouviria essas histórias apenas nos livros. Você veria evidências delas por toda parte. Você veria um portal Torii, uma estrutura alta de madeira vermelha que marca a entrada de um espaço sagrado. Passar por esse portal significava que você estava deixando o mundo comum e entrando na casa de um Kami.

Por causa disso, a mitologia japonesa criou um profundo respeito pela natureza. Você não iria querer poluir um rio porque um Kami vivia ali. Você não iria querer derrubar uma floresta antiga porque os espíritos poderiam perder seu lar. Essa forma de pensar é chamada de Animismo, a crença de que tudo na natureza tem uma alma ou um espírito.

Motoori Norinaga

Para entender os Kami, deve-se primeiro aprender a ser movido pelo mistério das coisas.

Motoori Norinaga

Norinaga foi um famoso estudioso do século XVIII que passou décadas estudando os livros japoneses mais antigos. Ele argumentava que os Kami não eram apenas 'deuses', mas qualquer coisa que enchesse uma pessoa com uma sensação de admiração ou espanto.

Mira

Mira says:

"Eu gosto da ideia de que uma xícara de chá pode ter um espírito. Isso me dá vontade de ser mais cuidadoso com minhas coisas, só para o caso de elas estarem secretamente acordadas."

Com o passar do tempo, esses mitos não desapareceram. Eles mudaram e cresceram. Quando o Budismo chegou ao Japão vindo da China, as pessoas não jogaram fora suas antigas histórias de Kami. Em vez disso, elas misturaram as novas ideias com as antigas, como quem mistura cores diferentes de argila. Elas passaram a acreditar que os Kami eram protetores dos novos templos, e que as duas religiões podiam viver juntas em paz.

No período medieval, artistas começaram a pintar longos pergaminhos mostrando a "Parada Noturna de Cem Demônios". Eram cenas caóticas de objetos domésticos, como guarda-chuvas velhos ou tigelas de chá rachadas, ganhando vida como espíritos chamados Tsukumogami. As pessoas acreditavam que, se você cuidasse de suas coisas, elas o serviriam bem, mas se as jogasse fora sem cuidado, elas poderiam voltar para assombrá-lo com um pouco de travessura.

Tente isso

Vá lá fora e encontre um objeto natural: uma pedra, uma folha ou um pedaço de musgo. Sente-se calmamente e olhe para ele por um minuto inteiro. Se esse objeto tivesse um espírito, qual seria a personalidade dele? Seria uma rocha antiga e ranzinza ou uma folha dançarina e brincalhona?

Através das Eras

712 d.C.
O Kojiki é escrito. É o registro mais antigo dos mitos do Japão, criado para que as histórias dos Kami nunca fossem esquecidas.
Anos 1100-1500
As histórias de Yōkai tornam-se populares. As pessoas começam a contar contos de espíritos como o Kappa e a Kitsune (espírito de raposa) para explicar as coisas estranhas na floresta.
Anos 1800
Artistas criam xilogravuras famosas desses mitos. Pela primeira vez, todos podem ver como são os deuses e monstros em cores lindas.
Dias Atuais
Personagens como Pokémon e Totoro levam os antigos espíritos japoneses para o mundo inteiro, mostrando que os mitos podem viver na tecnologia e na animação.

No mundo moderno, você ainda pode ver as pegadas da mitologia japonesa em todos os lugares. Se você já assistiu a um filme do Studio Ghibli, como A Viagem de Chihiro ou Meu Vizinho Totoro, você está vendo versões modernas desses espíritos antigos. O gigante e fofinho Totoro é um Kami da floresta, e as fuligens (Susuwatari) são um tipo de yōkai que vive nos cantos de casas antigas.

Cineastas e escritores hoje usam esses mitos porque eles nos ajudam a falar sobre sentimentos grandes e complicados. Quando um personagem de um filme encontra um espírito na floresta, isso nos lembra que o mundo é muito maior do que nossas próprias preocupações. Sugere que existem mistérios ao nosso redor que não precisamos resolver, mas que definitivamente devemos respeitar.

Hayao Miyazaki

No tempo dos meus avós, acreditava-se que os espíritos viviam em todos os lugares - em árvores, rios, insetos, poços, em qualquer coisa.

Hayao Miyazaki

Miyazaki é o lendário criador de filmes como 'Meu Vizinho Totoro'. Ele usa a mitologia japonesa para nos lembrar que os humanos são apenas uma parte de um mundo natural vasto e mágico.

Mesmo hoje, muitas pessoas no Japão visitam santuários para deixar uma pequena moeda ou uma oração para os Kami. Elas não estão necessariamente pedindo truques de mágica. Muitas vezes, estão apenas dizendo "obrigado" à montanha, ao sol ou ao espírito de seus antepassados. É uma maneira de permanecer conectado à longa e sinuosa história da própria terra.

A mitologia japonesa nos ensina que o mundo nunca é verdadeiramente vazio ou entediante. Se você olhar de perto para uma rocha coberta de musgo ou ouvir o vento assobiando em um bambuzal, poderá começar a sentir o mesmo encantamento que os escritores do Nihon Shoki sentiram há mais de mil anos. Os "Oito Milhões de Kami" ainda estão lá, se você souber como procurá-los.

Finn

Finn says:

"Então, se tudo tem um Kami, isso significa que meu computador ou meu tênis também têm espíritos? O que um Kami-tênis iria querer?"

Você sabia?
Uma serpente de várias cabeças no mar.

No mito japonês, o número 8 é muito especial. Ele representa o 'infinito' ou 'uma quantidade muito grande'. É por isso que dizem que existem 'Oito Milhões de Kami' e por que o deus da tempestade teve que lutar contra uma serpente de oito cabeças e oito caudas!

Algo para Pensar

Se você passasse por um portal Torii hoje, que tipo de Kami você acha que encontraria do outro lado?

Não existe resposta certa ou errada. A mitologia é uma forma de a nossa imaginação nos ajudar a nos sentirmos mais em casa em um mundo cheio de mistérios.

Perguntas sobre Religião

Os Kami são sempre bons?
Não necessariamente. Na mitologia japonesa, os Kami são como a natureza: podem ser úteis e quentes como o sol, mas também podem ser perigosos como uma tempestade ou um terremoto. Eles não são 'bons' ou 'maus' da maneira que costumamos pensar: eles são apenas poderosos e precisam ser respeitados.
Qual é a diferença entre um Yōkai e um Kami?
Pode ser difícil de distinguir! Geralmente, os Kami são espíritos elevados que as pessoas adoram em santuários, enquanto os Yōkai são mais como 'monstros' ou 'criaturas' que vivem em lugares específicos. Pense nos Kami como os reis e rainhas da floresta, e nos Yōkai como os vizinhos estranhos que moram debaixo da ponte.
O Xintoísmo é uma religião?
Sim, mas é diferente de muitas outras religiões. Não possui um único livro sagrado como a Bíblia e não tem um fundador como o Buda. É mais sobre um modo de viver e uma forma de mostrar respeito aos espíritos do mundo ao seu redor.

O Mundo Está Ouvindo

A mitologia japonesa nos lembra que nunca estamos verdadeiramente sozinhos. Estejamos em uma cidade lotada ou em uma floresta profunda, há uma sensação de que o mundo está observando, respirando e participando de nossas vidas. Ao aprender essas histórias, aprendemos a olhar para uma simples árvore ou para o nascer do sol com um pouco mais de admiração.