Você já teve tanta certeza de algo, apenas para descobrir mais tarde que estava completamente enganado?

Quase mil anos atrás, um homem chamado Al-Ghazali era o professor mais famoso do mundo. Ele viveu durante a Idade de Ouro Islâmica, uma época em que as bibliotecas eram como palácios e as ideias valiam mais do que ouro. Mas no auge de seu sucesso, ele começou a se perguntar se algo que ele sabia era realmente verdade.

Imagine passear pelas ruas de Bagdá no ano de 1091. A cidade é um círculo, protegida por muralhas enormes, e no seu centro há uma biblioteca chamada Casa da Sabedoria.

Este era um mundo de lógica e debate. Cientistas mediam as estrelas, médicos escreviam livros de medicina e filósofos traduziam as obras dos gregos antigos.

Imagine isso
Uma aquarela de um mapa da cidade redonda de Bagdá.

Imagine uma cidade onde o ar cheira a canela e papel de pergaminho. Bagdá era a maior cidade da Terra, cheia de parques, mercados e mais de 100 livrarias. Nas grandes bibliotecas, estudiosos de diferentes religiões se sentavam juntos para resolver problemas de matemática e traduzir pergaminhos antigos.

No centro de toda essa agitação estava Al-Ghazali. Ele era o diretor da Nizamiyya, a escola mais famosa do mundo.

Ele era tão brilhante que as pessoas o chamavam de Prova do Islã. Quando ele caminhava pelos corredores, centenas de estudantes paravam para ouvir.

Finn

Finn says:

"Se ele já era o professor mais famoso, por que sentia que não sabia nada? Eu ficaria feliz só de saber passar na prova de ortografia!"

Mas Al-Ghazali tinha um segredo. Mesmo sendo capaz de vencer qualquer argumento, ele sentia que estava pisando em terreno instável.

Ele começou a se fazer uma pergunta difícil: Como sei que meus sentidos não estão me enganando? É uma pergunta que parece simples, mas quando você começa a pensar nela, ela se torna muito grande.

Tente isso
Uma criança olhando para a lua de um carro em movimento.

Da próxima vez que você estiver em um carro ou trem, olhe para a lua. Parece que ela está te seguindo, não é? Mas você sabe que ela está, na verdade, muito longe no espaço. Seus olhos veem uma coisa, mas sua mente sabe de outra. Este é exatamente o sentimento que deu início à grande aventura de Al-Ghazali.

Ele olhou para uma sombra no chão. Aos seus olhos, a sombra parecia estar parada.

Mas ele sabia que o sol estava se movendo pelo céu e que a sombra estava, na verdade, se movendo, centímetro por centímetro. Se seus olhos estavam errados sobre a sombra, sobre o que mais eles poderiam estar errados?

Al-Ghazali

Os sentidos disseram: 'É impossível estarmos errados.' Mas então a Razão apareceu e disse: 'Vocês estão errados.'

Al-Ghazali

Isso vem de sua autobiografia, onde ele explica como começou a duvidar de seus próprios olhos e ouvidos. Ele percebeu que nossos sentidos muitas vezes nos enganam, como quando um bastão reto parece torto na água.

Essa dúvida cresceu até que Al-Ghazali se sentiu perdido em uma neblina. Ele olhava para as estrelas e pensava em como pareciam pequenas, embora soubesse que eram gigantescas.

Ele percebeu que nossa razão, a parte do nosso cérebro que resolve problemas, muitas vezes precisa corrigir o que nossos olhos veem. Mas então ele se perguntou: e se algo mais precisar corrigir a nossa razão?

Você sabia?
Um livro antigo brilhante.

A 'crise de dúvida' de Al-Ghazali aconteceu 500 anos antes do famoso filósofo francês René Descartes. Descartes é famoso por dizer 'Penso, logo existo', mas Al-Ghazali estava fazendo quase as mesmas perguntas séculos antes, em uma torre em Damasco!

As coisas ficaram tão intensas que Al-Ghazali perdeu a voz literalmente. Ele ficava diante de sua turma, pronto para dar uma aula, e nenhuma palavra saía.

Médicos iam vê-lo, mas não encontravam nada de errado com sua garganta. O problema dele não estava no corpo: estava na mente.

Mira

Mira says:

"A voz dele parou porque o cérebro dele estava fazendo muitas perguntas ao mesmo tempo. É como quando o seu computador trava porque você abriu muitas abas."

Para encontrar a resposta, Al-Ghazali fez algo que chocou a todos. Ele doou suas roupas caras, abandonou seu famoso cargo e saiu de Bagdá.

Ele se tornou um Sufi, uma pessoa que acredita que a verdade é encontrada através do coração, e não apenas através de livros. Por onze anos, ele viajou e viveu uma vida simples.

Dois lados
O Estudioso diz

A melhor maneira de encontrar a verdade é estudar muito, ler todos os livros que puder e usar a lógica para resolver cada problema como se fosse um quebra-cabeça.

O Sufi diz

A melhor maneira de encontrar a verdade é ficar quieto, ouvir seu coração e experimentar o mundo diretamente em vez de apenas ler sobre ele.

Durante esse tempo, ele praticou a meditação. Ele acreditava que o coração é como um espelho.

Se um espelho está coberto de poeira, ele não consegue refletir a luz do sol. Al-Ghazali achava que nossos corações ficam empoeirados com preocupações, orgulho e distrações.

Al-Ghazali

O coração é como um espelho, e as coisas que fazemos são como o polimento que o faz brilhar.

Al-Ghazali

Al-Ghazali usou essa metáfora para explicar que ser uma boa pessoa e manter a calma não é apenas sobre regras. É sobre tornar seu ser interior claro o suficiente para entender o mundo.

Quando limpamos o espelho do coração, Al-Ghazali acreditava que podemos ver um tipo diferente de verdade. Ele a chamou de Certeza.

Não é o tipo de certeza que se obtém ao resolver um problema de matemática. É o tipo de certeza que você sente quando sabe que alguém te ama, ou quando se sente em paz na natureza.

Mira

Mira says:

"Eu gosto da ideia do coração ser um espelho. Significa que a verdade já está lá, só precisamos nos manter claros o suficiente para vê-la."

Eventualmente, Al-Ghazali começou a escrever novamente. Ele escreveu um livro chamado A Incoerência dos Filósofos, onde ele debatia com aqueles que achavam que a lógica podia explicar tudo.

Ele não achava que a lógica era ruim, mas pensava que ela tinha limites. Ele a comparava a um conjunto de balanças: ótima para pesar ouro, mas não para pesar o oceano.

Você sabia?

Al-Ghazali era um grande fã de fábulas. Ele frequentemente usava histórias de animais, como um burro carregando livros ou uma mariposa atraída por uma chama, para explicar ideias complicadas a seus alunos para que se lembrassem delas para sempre.

As ideias de Al-Ghazali mudaram a forma como as pessoas no mundo islâmico pensavam sobre Deus e o mundo. Ele uniu a cabeça e o coração.

Ele mostrou que era possível ser cientista e uma pessoa de fé ao mesmo tempo. Ele acreditava que o mundo interior era tão vasto e importante quanto o mundo exterior.

Através das Eras

1058
Al-Ghazali nasce em Tus, uma cidade no atual Irã, conhecida por seus belos jardins e estudiosos.
1095
A Grande Crise. Al-Ghazali deixa Bagdá para buscar a verdade, vivendo como um viajante simples em Damasco e Jerusalém.
1106
Ele retorna ao ensino, mas desta vez ensina sobre o equilíbrio entre a mente e o coração.
1200s
Seus livros são traduzidos para o latim e o hebraico, influenciando pensadores judeus e cristãos na Europa.
Hoje
Ele é considerado uma das pessoas mais influentes da história por trazer profundidade espiritual à lógica.

Hoje, Al-Ghazali é lembrado como um dos pensadores mais importantes da história. Sua jornada da sala de aula para o deserto nos lembra que é normal ficar inseguro.

Às vezes, perder o rumo é a única maneira de descobrir onde você realmente está. É preciso coragem para admitir que você não tem todas as respostas.

Al-Ghazali

A sede pela verdade das coisas era meu hábito desde os meus primeiros anos.

Al-Ghazali

Al-Ghazali escreveu isso perto do fim de sua vida. Ele queria que as pessoas soubessem que sua busca não foi uma fase, mas uma fome de longa data para entender o que é verdadeiramente real.

Mesmo agora, os filósofos releem seu trabalho quando querem entender o que significa verdadeiramente "saber" alguma coisa. Ele nos lembra que a mente é uma ferramenta maravilhosa, mas o coração é uma bússola poderosa.

Algo para Pensar

Se você não pudesse confiar em seus olhos ou ouvidos por um dia, como você decidiria o que é real?

Não há uma única resposta correta para isso. Algumas pessoas acham que usamos nossos sentimentos, outras acham que usamos nossas memórias, e outras acham que apenas temos que confiar que o mundo está lá. O que você acha?

Perguntas sobre Filosofia

Al-Ghazali odiava ciência?
De jeito nenhum! Ele achava a ciência e a matemática muito úteis para entender como o mundo funciona. Ele só não achava que elas poderiam responder a perguntas de 'porquê', como por que devemos ser gentis ou qual é o sentido da vida.
O que é um Sufi?
Um Sufi é uma pessoa que se concentra no lado espiritual e interno do Islã. Eles usam poesia, música e meditação para se sentirem mais próximos do divino, enfatizando o amor e a experiência pessoal.
Por que ele parou de falar?
Provavelmente foi uma reação física ao estresse profundo e à dúvida. Ele sentiu que, se não pudesse ter certeza da verdade, não tinha o direito de ensiná-la aos outros, e seu corpo simplesmente se recusou a deixá-lo continuar até que encontrasse uma resposta.

A Jornada Inacabada

A história de Al-Ghazali não termina com um conjunto perfeito de regras. Ela termina com um lembrete de que o mundo é muito maior do que aquilo que vemos à nossa frente. Se você está olhando através de um microscópio ou sentado quieto em seu quarto, há sempre mais a descobrir sobre a 'luz interior' que ele passou a vida procurando.