Como seria viver sem absolutamente nada?

Nas ruas movimentadas da Grécia Antiga, um grupo de pensadores chamados Cínicos tentou fazer exatamente isso. Eles acreditavam que a maioria das coisas com as quais nos preocupamos, como roupas elegantes ou brinquedos caros, são, na verdade, como pesados sacos invisíveis que nos impedem de ser verdadeiramente felizes.

Imagine caminhar por um mercado lotado na cidade de Atenas, mais de dois mil anos atrás. Você vê pessoas discutindo sobre dinheiro, olhando seus reflexos em bronze polido e correndo para reuniões importantes.

Então, você vê um homem que não possui nada além de um manto esfarrapado e um cajado de madeira. Ele não parece triste ou estressado. Na verdade, ele parece ser a única pessoa ali que está realmente desperta.

Imagine isso
Um grande pote de cerâmica usado como casa simples na Grécia Antiga.

Imagine um lar feito de barro. Não é uma casa, mas um jarro gigante de cerâmica chamado 'pithos', normalmente usado para guardar vinho ou azeite. É fresco por dentro, redondo como um casulo, e fica bem na beira da praça da cidade, onde todos podem vê-lo. Foi ali que Diógenes viveu, provando que ele não precisava de um teto e paredes para se sentir em casa no mundo.

Este homem pertencia a um grupo de filósofos chamados Cínicos. Eles não estavam interessados em sentar em salas de aula silenciosas ou escrever livros longos e empoeirados.

Em vez disso, eles queriam viver suas ideias em voz alta. Eles acreditavam que os seres humanos haviam se confundido com muitas regras e muitas 'coisas'.

Finn

Finn says:

"Se eu vivesse em um pote gigante, onde eu guardaria meus gibis? Espere, talvez um Cínico nem quisesse gibis porque preferiria apenas assistir o mundo real acontecer!"

A história desta escola começou com um homem chamado Antístenes. Ele era aluno do famoso Sócrates e notou algo interessante sobre seu professor.

Sócrates não se importava com riqueza ou popularidade. Ele só se importava com a verdade. Antístenes decidiu levar essa ideia o mais longe que pudesse ir.

Antístenes

A peça de aprendizado mais útil para os usos da vida é desaprender o que é falso.

Antístenes

Antístenes acreditava que nossas cabeças estão cheias de ideias erradas ensinadas pela sociedade. Ele achava que o primeiro passo para ser sábio era esquecer as coisas que pensamos saber sobre ser 'legal' ou 'rico'.

Antístenes ensinava em um lugar chamado Kynosarges, que era um ginásio para pessoas que não eram consideradas cidadãos de 'primeira linha'. Algumas pessoas acreditam que o nome da escola, Cinismo, vem deste lugar.

No entanto, outros dizem que o nome vem da palavra grega para cachorro, kynikos. Isso porque os Cínicos decidiram viver como a natureza pretendia, como um cão vadio, mas honesto.

Você sabia?
Um cão vira-lata e amigável simbolizando a filosofia Cínica.

A palavra 'Cínico' significa literalmente 'Semelhante a um Cachorro'. Os gregos os chamavam assim de insulto no início, porque eles viviam nas ruas e não seguiam as regras sociais. Mas os filósofos adoraram o nome! Eles achavam que os cães eram os melhores professores porque são honestos, não se importam com dinheiro e sabem exatamente quem são seus verdadeiros amigos.

O 'cão' mais famoso de todos era um homem chamado Diógenes de Sinope. Ele é aquele de quem você talvez tenha ouvido falar, vivendo em um enorme pote de cerâmica no meio da cidade.

Diógenes não morava ali porque era pobre ou não tinha escolha. Ele escolheu para mostrar a todos que um ser humano precisa apenas de um pedacinho de espaço e um pouco de ar fresco para ser feliz.

Mira

Mira says:

"É como quando você vai acampar e percebe que só precisa de uma mochila para ser feliz. Os Cínicos simplesmente nunca voltaram da viagem de acampamento!"

Um dia, o homem mais poderoso do mundo, Alexandre, o Grande, veio conhecer Diógenes. Alexandre estava impressionado com a reputação do filósofo e queria lhe dar um presente.

Ele ficou sobre o filósofo, que estava tomando sol no chão, e perguntou: 'Há algo que eu possa fazer por você?' Diógenes não pediu ouro nem um palácio.

Diógenes de Sinope

Sim, saia da frente do meu sol.

Diógenes de Sinope

Esta foi sua resposta a Alexandre, o Grande, o rei mais poderoso da Terra, quando perguntado se ele queria algo. Diógenes queria mostrar que até um rei não poderia dar a ele algo tão bom quanto o calor do sol.

Essa interação chocou as pessoas que assistiam. Elas não conseguiam entender por que alguém recusaria um favor de um rei.

Mas para Diógenes, o sol era um presente da natureza que era muito mais valioso do que qualquer presente de um rei humano. Ele queria que as pessoas vissem que muitas vezes ignoramos as melhores coisas da vida porque estamos ocupados correndo atrás de coisas que, na verdade, não importam.

Tente isso

O Teste 'É Necessário?'. Escolha uma coisa que você possui hoje, como um brinquedo ou um gadget. Pergunte a si mesmo: Se eu perdesse isso amanhã, eu ainda seria 'eu'? Eu ainda seria capaz de ser gentil e pensar claramente? Os Cínicos acreditavam que quanto mais coisas você puder dizer 'não', mais 'sim' você tem para a sua própria liberdade.

Os Cínicos tinham uma palavra especial para a maneira como falavam: parrhesia. Significa 'fala ousada' ou 'dizer as coisas como elas são'.

Eles acreditavam que ser honesto era mais importante do que ser educado. Se viam alguém sendo ganancioso ou falso, eles apontavam isso ali mesmo na rua, às vezes usando piadas ou até latindo como um cachorro para chamar a atenção.

Finn

Finn says:

"Ouvi dizer que Diógenes andava por aí com uma lanterna durante o dia. Quando as pessoas perguntavam por quê, ele dizia que estava 'procurando um ser humano de verdade'. Será que ele chegou a encontrar um?"

Outro Cínico famoso foi Crates de Tebas. Ele nasceu em uma família muito rica e deveria herdar uma fortuna.

Em vez de ficar com o dinheiro, ele deu tudo para o povo de sua cidade. Ele decidiu que sabedoria e bondade eram as únicas coisas que não poderiam ser tiradas dele.

Crates de Tebas

Sabedoria e virtude são as únicas riquezas que não podem ser roubadas.

Crates de Tebas

Crates deu uma fortuna enorme porque percebeu que o dinheiro pode ser perdido ou tomado. Ele acreditava que a bondade dentro do seu coração é a única coisa que você realmente possui para sempre.

Crates não era uma pessoa rabugenta. Na verdade, ele era conhecido como o 'Abre-Portas' porque as pessoas o amavam tanto que o convidavam para entrar em suas casas para ajudar a resolver discussões familiares.

Ele mostrou que você poderia ser um Cínico e ainda ser uma parte calorosa e prestativa de uma comunidade. Você só precisava estar disposto a viver com uma mala muito leve.

Dois lados
A Regra Social

Você deve vestir as roupas mais recentes e agir com educação para que as pessoas o respeitem e pensem que você é bem-sucedido.

O Jeito Cínico

Não importa o que você veste. Se você é uma boa pessoa, você já é bem-sucedido. As regras sobre 'moda' são apenas distrações.

Com o tempo, as ideias dos Cínicos começaram a mudar a forma como outras pessoas pensavam sobre o mundo. Elas influenciaram outro grupo famoso chamado Estoicos.

Os Estoicos pegaram a ideia Cínica de 'viver simplesmente' e a transformaram em uma maneira de manter a mente calma mesmo quando a vida fica confusa ou difícil.

Através das Eras

400 a.C.
Antístenes inicia a escola em Atenas após aprender com Sócrates. Ele enfatiza que ser uma boa pessoa é a única coisa que importa.
350 a.C.
Diógenes leva as ideias ao extremo, vivendo em seu pote e desafiando todos, de comerciantes a reis, a serem mais honestos.
300 a.C.
Crates e Hiparquia (uma rara filósofa) mostram que o Cinismo pode ser sobre amor e comunidade, não apenas viver sozinho.
100 d.C.
O Cinismo tem um grande retorno no Império Romano. Seu estilo de vida simples inspira muitas pessoas, incluindo alguns dos primeiros cristãos.
Hoje
Os 'Minimalistas' modernos seguem o espírito dos Cínicos ao optar por possuir menos coisas para se concentrarem em experiências e na natureza.

Hoje, a palavra 'cínico' tem um significado diferente. Muitas vezes, a usamos para descrever alguém mal-humorado ou que espera o pior das pessoas.

Mas os Cínicos Antigos não eram assim. Eles estavam, na verdade, cheios de esperança. Eles acreditavam que se pudéssemos apenas limpar a 'bagunça' de nossas vidas, encontraríamos uma versão de nós mesmos que é corajosa, livre e totalmente natural.

Imagine isso
Uma lanterna brilhando sob a luz do dia.

Imagine um homem carregando uma lanterna acesa por um mercado ensolarado ao meio-dia. Quando as pessoas riem e perguntam o que ele está fazendo, ele ergue a luz em seus rostos e diz: 'Estou apenas procurando por um ser humano de verdade.' Ele estava tentando mostrar que, apesar de todas as suas roupas elegantes, as pessoas estavam escondendo quem realmente eram.

Pense nas coisas que você possui. Quais delas você realmente precisa, e quais estão apenas ocupando espaço?

Talvez os Cínicos estivessem certos: talvez as coisas mais importantes que possuímos não sejam coisas, mas a maneira como escolhemos ver o mundo e tratar as pessoas nele.

Algo para Pensar

Se você tivesse que se mudar para um pote de cerâmica minúsculo amanhã e pudesse levar apenas três coisas, quais seriam elas?

Não há resposta certa ou errada aqui. Esta é apenas uma forma de ver quais coisas em sua vida parecem ser 'você' e quais são apenas 'tralhas'.

Perguntas sobre Filosofia

Os Cínicos odiavam tudo?
De jeito nenhum! Eles amavam a natureza, a amizade e a verdade. Eles só 'odiavam' as coisas que tornavam as pessoas falsas ou infelizes, como ser ganancioso ou se preocupar demais com o que os vizinhos pensam.
Eles eram realmente sem-teto?
Muitos escolhiam ser. Eles queriam provar que um ser humano está 'em casa' em qualquer lugar do mundo, desde que tenha seus próprios pensamentos e um coração virtuoso.
Um 'cínico' moderno é o mesmo que um antigo?
Geralmente, não. Hoje, um cínico é alguém que não confia na bondade das pessoas. Um Cínico antigo era alguém que confiava tanto na natureza que sentia que não precisava de mais nada.

Vivendo Levemente

Os Cínicos nos lembram que fazemos parte do mundo natural, assim como as árvores e os cães que eles admiravam. Não precisamos ser perfeitos ou ricos para sermos 'suficientes'. Às vezes, a melhor maneira de se encontrar é deixar ir tudo aquilo que você achava que precisava ser.