Se você fechasse os olhos e flutuasse em um quarto escuro onde não pudesse sentir o chão, ver as paredes ou ouvir sons, você ainda saberia que existia?
Há mais de mil anos, durante a Idade de Ouro do Islã, um pensador brilhante chamado Ibn Sina fez exatamente essa pergunta. Ele não era apenas um filósofo: ele era médico, cientista e viajante que usava a lógica para explorar os mistérios do corpo humano e da alma.
Imagine que você está na cidade de Bukhara, um centro movimentado da antiga Rota da Seda, por volta do ano 990. O ar cheira a cordeiro assado, especiarias caras e ao couro empoeirado de milhares de livros.
No meio dessa cidade, vive um jovem que é notavelmente ocupado. Enquanto outras crianças de dez anos estão jogando, este menino já memorizou todo o Alcorão. Quando tem dezesseis anos, ele já está tratando pacientes e descobrindo novas maneiras de entender a medicina.
Aos dez anos, Ibn Sina já havia memorizado todo o Alcorão e vários livros de poesia persa. Ele é o que chamamos de 'prodígio', alguém que domina assuntos difíceis em uma idade muito jovem.
Este menino era Ibn Sina, conhecido no Ocidente como Avicena. Ele viveu em uma época em que o mundo islâmico era o centro do saber global. Enquanto grande parte da Europa passava por um período de silêncio, cidades como Bukhara e Bagdá brilhavam com novas ideias.
Ibn Sina não queria aprender apenas uma coisa. Ele queria entender o universo inteiro, desde a forma como o sangue circula em nossas veias até por que as estrelas ficam no céu.
A Biblioteca do Sultão
Quando Ibn Sina tinha dezessete anos, aconteceu algo que mudou sua vida para sempre. O Sultão local adoeceu gravemente, e nenhum dos médicos mais velhos e famosos conseguia curá-lo.
O jovem Ibn Sina foi chamado ao palácio. Usando sua mente afiada e observação cuidadosa, ele conseguiu ajudar o Sultão a se recuperar. Como recompensa, ele não pediu ouro ou joias.
Finn says:
"Se eu pudesse ter qualquer recompensa por ajudar um Sultão, acho que escolheria uma biblioteca também. Imagine ter todos os livros do mundo em uma única sala! Você acha que ele ficava entediado, ou é impossível ficar entediado quando há tanto a aprender?"
Em vez disso, ele pediu permissão para usar a biblioteca particular do Sultão. Não era apenas uma sala com algumas prateleiras. Era uma coleção enorme de pergaminhos e livros de todos os cantos do mundo, incluindo a sabedoria perdida dos antigos gregos.
Ibn Sina passava seus dias e noites lá. Ele lia tudo, da matemática de Euclides à filosofia de Aristóteles. Ele afirmava que, aos dezoito anos, havia aprendido tudo o que precisava saber: pelo resto da vida, ele apenas se dedicou a aprofundar essas ideias.
Imagine uma biblioteca com tetos altos e abobadados onde o som dos seus passos ecoa nas pedras. Há milhares de pergaminhos escritos à mão, cada um um tesouro diferente. Alguns são sobre as estrelas, outros sobre medicina, e alguns são histórias de terras distantes. Este era o playground de Ibn Sina.
O Experimento do Homem Voador
Uma das ideias mais famosas de Ibn Sina é um experimento mental chamado 'O Homem Voador'. Um experimento mental é como um laboratório na sua mente onde você testa ideias que não pode testar na vida real.
Ele pedia às pessoas que imaginassem uma pessoa criada no ar, totalmente adulta, mas com os olhos vendados. Essa pessoa estaria com os braços e pernas afastados para não tocar o próprio corpo. Não haveria som, cheiro ou luz.
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A alma humana é uma substância separada do corpo, e pode perceber a si mesma sem qualquer ajuda dos sentidos.
Nesse estado, a pessoa não teria sentidos. Ela não poderia ver as mãos, sentir o chão ou ouvir a própria respiração. Ibn Sina então perguntava: essa pessoa saberia que existe?
A resposta dele foi um 'Sim' confiante. Mesmo sem um corpo para sentir ou olhos para ver, a pessoa ainda teria um senso de 'Eu sou'. Para Ibn Sina, isso provava que a alma ou a mente é algo separado do corpo físico.
Mira says:
"A ideia do Homem Voador me lembra de quando estou sonhando acordado com tanta força que esqueço que estou sentado em uma sala de aula. Meu 'eu' está explorando um castelo enquanto meu corpo está apenas sentado em uma carteira. Talvez Ibn Sina tenha sido a primeira pessoa a realmente explicar como é um devaneio!"
Esta foi uma ideia enorme porque sugeria que quem somos no fundo não é feito apenas de pele, ossos e músculos. É algo que existe mesmo quando o mundo físico desaparece.
O Príncipe dos Médicos
Enquanto pensava sobre a alma, Ibn Sina também se interessava muito pelo corpo físico. Ele escreveu um livro gigantesco chamado O Cânone da Medicina.
Antes de Ibn Sina, a medicina era muitas vezes uma mistura de palpites e histórias antigas. Ibn Sina queria transformá-la em uma ciência. Ele acreditava que os médicos deveriam usar o empirismo, o que significa tomar decisões baseadas no que você realmente vê e testa.
Sente-se em silêncio e feche os olhos. Tente 'sentir' sua mente sem mover o corpo. Se você não pudesse sentir os dedos dos pés ou a cadeira sob você, você ainda se sentiria como 'você' ali? Este é o ponto de partida do mistério mais famoso de Ibn Sina.
Ele foi um dos primeiros a perceber que algumas doenças poderiam ser espalhadas pelo ar ou pela água. Ele até sugeriu que as pessoas doentes deveriam ser mantidas afastadas umas das outras para impedir que um vírus se espalhasse, uma ideia que hoje chamamos de quarentena.
Seu livro era tão bem organizado e inteligente que se tornou o livro-texto médico mais importante do mundo por mais de 600 anos. Médicos em universidades de Oxford a Paris usavam suas palavras para aprender a curar pessoas.
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Medicina é a ciência pela qual aprendemos os vários estados do corpo humano, na saúde e quando não está saudável, e os meios pelos quais a saúde tem probabilidade de ser perdida e, quando perdida, tem probabilidade de ser restaurada.
Uma Vida em Movimento
O mundo em que Ibn Sina viveu era bonito, mas muitas vezes perigoso. Reinos surgiam e caíam constantemente. Como ele era muito famoso e inteligente, muitos governantes queriam que ele trabalhasse para eles, mas outros o viam como uma ameaça.
Ele passou grande parte de sua vida viajando pela Pérsia (atual Irã). Às vezes, ele era um oficial de alto escalão do governo, e outras vezes estava escondido na casa de um amigo ou até mesmo na prisão.
Muitas pessoas no mundo antigo acreditavam que a cura era uma arte espiritual ou dependia de magia e tradição.
Ibn Sina argumentou que a medicina deveria ser uma ciência baseada na lógica, no teste e na observação exata do que acontece com um paciente.
Mesmo quando estava preso ou viajando em um camelo sacolejante pelo deserto, ele nunca parava de escrever. Ele ditava suas ideias para seus alunos enquanto cavalgavam. Ele acreditava que a mente nunca deveria ficar parada, não importa onde o corpo estivesse.
Ele estava tentando fazer algo muito difícil: ligar a razão à fé. Ele usava a lógica grega para explicar coisas sobre Deus e o universo, mostrando que ciência e religião não precisavam ser inimigas.
O Presente da Dúvida e da Certeza
Ibn Sina não tinha medo de admitir quando achava algo difícil. Ele leu um livro de Aristóteles quarenta vezes até o ter decorado, mas ainda não entendia o que significava!
Ele só entendeu depois de encontrar um pequeno livro barato de outro filósofo chamado Al-Farabi em um mercado. Este momento humilde mostra que até a pessoa mais inteligente do mundo precisa da ajuda de outras para desvendar grandes ideias.
Finn says:
"É um alívio que até Ibn Sina teve que ler um livro quarenta vezes para entender. Às vezes, sinto que sou o único que não 'pega' uma lição imediatamente. Acho que até os gênios precisam de um pouco de ajuda de uma perspectiva diferente às vezes."
Ele nos ensinou que pensar é uma jornada. Você começa com o que pode ver (medicina), passa para o que pode pensar (lógica) e, finalmente, chega ao que só pode se perguntar (a alma).
O Legado de Ibn Sina Através das Eras
Como Ele Mudou o Mundo
A influência de Ibn Sina é como um longo fio tecido através da história. Ele salvou as ideias dos antigos gregos traduzindo-as e adicionando suas próprias descobertas brilhantes. Sem ele, poderíamos ter perdido parte da filosofia mais importante da história.
Ele também nos deu a ideia do 'Eu'. Quando filósofos posteriores como René Descartes disseram: 'Penso, logo existo', eles estavam caminhando por um caminho que Ibn Sina havia aberto centenas de anos antes com seu Homem Voador.
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Prefiro uma vida curta com largura a uma longa e estreita.
Ele nos lembra que ser um 'polímata': alguém que é especialista em muitas coisas diferentes: é possível. Você não precisa escolher entre ser cientista ou sonhador. Você pode ser os dois.
O livro de Ibn Sina, O Cânone da Medicina, foi tão famoso que foi o livro-texto médico padrão na Europa por mais de 600 anos. Isso é mais tempo do que os Estados Unidos existem como país!
Hoje, ainda usamos o método científico que ele ajudou a construir. Ainda fazemos as mesmas perguntas sobre a mente que ele fez nas bibliotecas silenciosas de Bukhara. Ibn Sina nos mostrou que quanto mais olhamos para dentro de nós, mais encontramos um universo que vale a pena explorar.
Algo para Pensar
Se você tivesse um corpo de robô, mas sua mesma mente, você ainda seria a mesma pessoa?
Ibn Sina acreditava que nosso 'eu' é separado de nossas partes físicas. Não há resposta certa ou errada aqui: apenas algo muito interessante para se perguntar!
Perguntas sobre Filosofia
Ibn Sina foi uma pessoa real?
Qual é a descoberta mais importante dele?
Por que as pessoas o chamam de Avicena?
Continue Explorando
A vida de Ibn Sina nos mostra que a curiosidade não tem limites. Quer ele estivesse olhando para a febre de um paciente ou para as estrelas distantes, ele usava a mesma ferramenta: sua mente. Da próxima vez que você sentir uma 'faísca' de ideia, lembre-se de que você está fazendo exatamente o que o Príncipe dos Médicos fazia mil anos atrás.