Você já sentiu uma tempestade estranha e agitada na barriga bem antes de uma prova importante ou de se apresentar no palco?

Esse sentimento tem um nome que os humanos estudam há milhares de anos: ansiedade. Embora possa parecer um peso enorme, ela é, na verdade, uma parte complexa da nossa evolução, feita para nos manter seguros em um mundo incerto.

Imagine que você está na beira de uma floresta antiga e profunda. As árvores são altas e o ar está silencioso, mas você tem a sensação de que algo pode estar escondido nas sombras. Seu coração começa a bater um pouco mais rápido e sua respiração fica curtinha.

Isso não é um erro do seu corpo. Na verdade, é o seu cérebro fazendo exatamente o que ele foi projetado para fazer há milhões de anos.

Imagine isso
Um pequeno guarda soprando uma trombeta no portão de um castelo.

Imagine um pequeno guarda sentado nos portões de um castelo de pedra. Toda vez que ele ouve um graveto quebrar, ele sopra uma trombeta dourada gigante. Ele não está tentando ser chato: ele só quer garantir que todos dentro do castelo estejam prontos para uma visita. Esse guarda é a sua amígdala.

O Guarda Antigo no Seu Cérebro

Muito antes de termos escolas, videogames ou supermercados, os humanos viviam em um mundo cheio de perigos físicos reais. Para sobreviver, nossos ancestrais precisavam de um sistema de alarme muito rápido. Esse sistema fica em uma parte minúscula do cérebro, com formato de amêndoa, chamada amígdala.

Quando a amígdala sente uma ameaça, ela envia um sinal para o resto do corpo se preparar para a ação. Isso é frequentemente chamado de resposta de luta ou fuga. Ela inunda seu sistema com uma substância química chamada adrenalina, que deixa seus músculos fortes e seu coração acelerado.

John Milton

A mente é o seu próprio lugar, e em si mesma pode fazer do inferno um céu, e do céu um inferno.

John Milton

Milton foi um poeta que viveu durante um tempo de grandes guerras e mudanças nos anos 1600. Ele percebeu que o modo como nos sentimos depende mais dos nossos pensamentos internos do que do mundo exterior.

No passado antigo, essa resposta salvava vidas. Se um tigre estivesse escondido na grama alta, a ansiedade era a sirene interna que dizia para você correr. Hoje, geralmente não enfrentamos tigres, mas nossos cérebros ainda usam esse mesmo alarme antigo para os estresses modernos.

Finn

Finn says:

"Então, meu cérebro é basicamente um detector de fumaça que dispara mesmo quando só estou fazendo uma torrada? Isso explica muita coisa, mas ainda é muito barulhento!"

Por Que Parece uma Neblina Pesada?

Se a ansiedade deveria ser um alarme útil, por que ela é tão desconfortável? A palavra ansiedade vem de uma antiga palavra latina, angere, que significa sufocar ou estrangular. Isso descreve a sensação física de aperto ou restrição que sentimos quando nos preocupamos.

Ao contrário do medo, que geralmente é sobre algo que está acontecendo agora, a ansiedade é sobre o futuro. É uma emoção do tempo futuro que foca em cenários do tipo "E se?". Isso pode parecer como caminhar através de uma neblina espessa onde você não consegue ver o caminho à frente.

Você sabia?
Um polvo parecendo curioso e cauteloso.

Você sabia que os humanos não são os únicos que sentem ansiedade? Cientistas descobriram que quase todos os animais com cérebros complexos, de cães a polvos, têm sistemas que os ajudam a se preocupar com perigos potenciais. É uma ferramenta de sobrevivência evolutiva usada em todo o reino animal!

Como não podemos ver o futuro, nossos cérebros às vezes tentam preencher os espaços em branco com palpites assustadores. Este é um processo chamado imaginação e, embora seja ótimo para escrever histórias, pode ser complicado quando se trata de nossos sentimentos.

A Vertigem da Liberdade

Nos anos 1800, um filósofo chamado Søren Kierkegaard vivia na movimentada cidade de Copenhague. Ele passou muito tempo pensando sobre por que os humanos sentem tanta pressão. Ele teve uma ideia famosa: a ansiedade é a "vertigem da liberdade".

Imagine estar no topo de uma montanha muito alta. Você não tem apenas medo de cair: você também tem consciência de que poderia pular, ou poderia descer, ou poderia ficar parado. Kierkegaard argumentou que ter tantas escolhas nos faz sentir um pouco de tontura.

Mira

Mira says:

"Eu gosto da ideia de que a ansiedade é a 'vertigem da liberdade'. Significa que, quando estou preocupado com uma escolha, é só porque eu tenho o poder de fazer uma escolha antes de tudo."

Essa tontura é, na verdade, um sinal de que você tem poder. Você se sente ansioso porque se importa com o que acontece a seguir e porque percebe que suas escolhas importam. É o preço que pagamos por sermos capazes de pensar no futuro.

Dois lados
A Visão do Alarme

A ansiedade é um sistema de aviso que nos diz que algo está errado e precisamos consertar imediatamente.

A Visão Existencial

A ansiedade é um sinal de liberdade. Ela nos mostra que temos escolhas e que nos importamos com o nosso futuro.

A Rede de Segurança: Donald Winnicott

Durante a Segunda Guerra Mundial, um médico chamado Donald Winnicott trabalhou com muitas crianças que tiveram que sair de casa para ficar em segurança. Ele notou que as crianças se sentiam melhor quando tinham o que ele chamava de ambiente de acolhimento (holding). Isso não era apenas um abraço físico, mas a sensação de que suas grandes emoções estavam sendo seguradas por alguém firme.

Ele acreditava que não precisamos fazer a ansiedade desaparecer instantaneamente. Em vez disso, precisamos nos sentir seguros o suficiente para vivenciá-la. Winnicott ensinou que ser "suficientemente bom" é melhor do que ser perfeito, tanto para os pais quanto para os filhos.

Donald Winnicott

A capacidade de estar só é a capacidade de amar. Pode parecer paradoxal para você, mas não é.

Donald Winnicott

Winnicott acreditava que quando as crianças se sentem seguras e 'acolhidas' pelo ambiente, elas aprendem a ficar bem com seus próprios pensamentos, mesmo os assustadores.

Quando nos sentimos ansiosos, podemos nos imaginar nesse ambiente de acolhimento. É um espaço onde podemos dizer: "Estou me sentindo muito preocupado agora, e tudo bem". Ao reconhecer o sentimento, damos a ele um lugar para sentar, em vez de deixá-lo correr solto.

Tente isso

Da próxima vez que você sentir uma 'tempestade de preocupação' começando, tente a técnica 5-4-3-2-1. Encontre 5 coisas que você pode ver, 4 coisas que você pode tocar, 3 coisas que você pode ouvir, 2 coisas que você pode cheirar e 1 coisa que você pode provar. Isso tira seu cérebro da neblina do 'E se' e o traz de volta para a sala real onde você está seguro.

Através dos Tempos

Como pensamos sobre a preocupação mudou conforme o mundo mudou. Vamos ver como essa ideia viajou no tempo.

Uma História da Preocupação

100.000 a.C.
Os primeiros humanos desenvolvem a resposta de 'luta ou fuga' para sobreviver a predadores na savana africana.
Século I d.C.
Filósofos estoicos como Sêneca ensinam que devemos nos preocupar apenas com as coisas que podemos controlar.
1844
Søren Kierkegaard escreve sobre 'O Conceito de Angústia', chamando-o de um resultado da liberdade humana.
Anos 1950
Donald Winnicott explora como um 'ambiente de acolhimento' ajuda as crianças a se sentirem seguras durante tempos estressantes.
Anos 2020
Cientistas usam exames cerebrais para ver exatamente como a amígdala e o córtex pré-frontal trabalham juntos para gerenciar a preocupação.

O Segredo Estoico: Real vs. Imaginado

Antigos pensadores romanos, conhecidos como os Estoicos, tinham uma maneira muito prática de encarar a ansiedade. Eles perceberam que os humanos costumam sofrer mais com seus pensamentos sobre um problema do que com o próprio problema.

Um desses pensadores, Sêneca, costumava dizer aos seus amigos que eles estavam se preocupando com coisas que talvez nunca acontecessem. Ele encorajava as pessoas a olharem de perto para seus medos e perguntarem: "Isso está acontecendo agora?"

Sêneca

Sofremos mais vezes na imaginação do que na realidade.

Sêneca

Sêneca foi um conselheiro romano que enfrentou muitas situações perigosas. Ele aprendeu que se preocupar com o futuro muitas vezes machucava mais do que os eventos reais quando eles finalmente chegavam.

Ao focar no momento presente, muitas vezes podemos acalmar o sistema de alarme. Esta é uma habilidade chamada atenção plena ou ancoragem. Envolve tirar sua atenção do "E se?" do futuro e trazê-la de volta para o "O que é" do agora.

Finn

Finn says:

"Às vezes tento imaginar que minhas preocupações são como nuvens. Elas podem ser grandes e escuras, mas eu sou a montanha que fica parada enquanto elas passam flutuando. Isso não faz as nuvens irem embora, mas eu me sinto menos como se estivesse sendo soprado junto com elas."

Vivendo Com Seu Vigilante Interno

Pense na sua ansiedade como um vigilante interno muito barulhento e um pouco confuso. Esse vigilante quer te proteger, mas às vezes ele confunde um gato amigável da vizinhança com um monstro gigante.

Em vez de tentar demitir o vigilante, podemos aprender a conversar com ele. Podemos reconhecer o seu aviso, mas também lembrá-lo de que estamos seguros neste momento. É assim que construímos a resiliência, que é a capacidade de dar a volta por cima mesmo quando as coisas parecem difíceis.

Imagine isso
Formas coloridas representando diferentes emoções sentadas juntas em um sofá.

Pense nos seus sentimentos como convidados chegando a uma festa em sua casa. A Felicidade pode ser o convidado barulhento com balões, enquanto a Ansiedade é o convidado quieto que fica checando as trancas das portas. Você não precisa expulsar ninguém: você pode apenas deixar todos sentarem no sofá juntos.

Talvez nunca vivamos em um mundo sem nenhuma preocupação, e tudo bem. Um pouco de ansiedade pode nos ajudar a nos preparar para um grande jogo ou a estudar para uma prova. O objetivo não é não ter medo, mas ser corajoso o suficiente para segurar nossos medos enquanto continuamos seguindo em frente.

Algo para Pensar

Se a sua ansiedade tivesse uma voz, do que ela estaria tentando te proteger hoje?

Não existem respostas certas ou erradas aqui. Às vezes, apenas ouvir o que o 'vigilante' está dizendo pode ajudar o sentimento a ficar um pouco menor.

Perguntas sobre Psicologia

A ansiedade é uma emoção 'ruim'?
Nenhuma emoção é verdadeiramente ruim. A ansiedade é como um detector de fumaça: pode ser barulhenta e irritante, mas o trabalho dela é manter você seguro e alertá-lo sobre coisas importantes.
Por que minha barriga dói quando estou preocupado?
Quando você se sente ansioso, seu cérebro envia sinais para o estômago diminuir a digestão para que seu corpo possa focar em 'lutar ou fugir'. Essa mudança no seu sistema digestivo é o que causa aquela sensação de agitação ou peso.
Eu vou parar de sentir ansiedade algum dia?
Todo mundo sente ansiedade às vezes, até os adultos. O objetivo não é nunca mais senti-la, mas aprender a notá-la, dar um nome a ela e continuar fazendo as coisas que você ama, mesmo quando ela estiver presente.

Acolhendo a Neblina

A ansiedade pode parecer um mistério, mas como vimos, é uma experiência muito humana com uma longa história. Seja a antiga amígdala protegendo você ou a 'tontura' de fazer uma escolha, esses sentimentos fazem parte da sua história. Ao aprendermos a abrir espaço para nossas preocupações, nos tornamos o solo firme sobre o qual a neblina descansa.