Você já sentiu um frio estranho na barriga ou o coração batendo mais forte logo antes de uma prova importante ou de se apresentar em um palco?

Esse sentimento tem um nome que os adultos usam muito: ansiedade. É uma das experiências mais antigas da história humana, ligada profundamente à nossa biologia evolutiva e ao modo como o nosso cérebro tenta nos manter seguros em um mundo incerto.

Muito antes de existirem escolas, arranha-céus ou até mesmo cidades, os seres humanos viviam em um mundo muito diferente. Imagine-se em um campo aberto e gramado há milhares de anos.

Qualquer barulho na grama alta poderia ser apenas o vento, ou poderia ser um predador faminto. Seu cérebro precisava decidir muito rápido se você estava seguro ou em perigo.

Imagine isso
Um detector de fumaça de desenho animado olhando para uma torrada.

Imagine que seu cérebro tem um detector de fumaça. O trabalho dele é apitar quando há um incêndio. Mas às vezes, ele é tão sensível que apita só porque você está fazendo uma torrada. A ansiedade é como esse apito da torrada: é um alarme barulhento para um calor pequeno.

Esse cérebro humano primitivo desenvolveu um sistema chamado resposta ao estresse. Quando seus ancestrais sentiam uma ameaça, o corpo deles era inundado de energia para ajudá-los a fugir correndo ou ficar e lutar.

Hoje, chamamos isso de resposta de 'lutar ou fugir'. Mesmo que não precisemos mais nos preocupar com leões, nossos cérebros ainda usam esse mesmo sistema antigo.

O Cão de Guarda no seu Cérebro

Dentro da sua cabeça, existe uma parte minúscula, em formato de amêndoa, chamada amígdala. Pense nela como um cão de guarda muito leal, mas às vezes um pouco exagerado.

O único trabalho dela é vigiar o perigo e latir alto para te avisar. Quando a amígdala late, seu coração bate mais rápido e sua respiração fica curtinha.

Finn

Finn says:

"Então, se meu coração começa a acelerar antes de um jogo de futebol, é só o meu 'cão de guarda' achando que um atacante é um tigre-dentes-de-sabre?"

É assim que a ansiedade se sente no corpo. É o seu cão de guarda latindo para algo que ele acha que pode ser um problema, como uma prova de matemática ou um grupo novo de pessoas.

Às vezes, o cachorro late para coisas que não são perigosas de verdade. Ele pode latir para uma sombra inofensiva ou para um pensamento do tipo 'e se...' sobre o futuro.

Søren Kierkegaard

A ansiedade é a tontura da liberdade.

Søren Kierkegaard

Kierkegaard escreveu isso em 1844 para explicar que, quando percebemos que podemos escolher nosso próprio futuro, isso parece esmagador. Ele comparou isso a estar na beira de um penhasco e sentir tontura por causa de todas as possibilidades.

Kierkegaard foi um filósofo que viveu na Dinamarca há muito tempo. Ele achava que a ansiedade não era apenas um erro ou um sentimento 'ruim'.

Em vez disso, ele acreditava que era um sinal de que somos livres para fazer escolhas. Quando percebemos que temos muitos caminhos diferentes para seguir, sentimos um pouco de tontura, e essa tontura é a ansiedade.

A Invenção do 'Nervosismo'

Por muito tempo, as pessoas não usavam a palavra 'ansiedade' como usamos agora. Na Grécia Antiga, médicos como Hipócrates achavam que os sentimentos vinham do equilíbrio de líquidos no corpo.

Eles chamavam a tristeza profunda ou a preocupação de 'melancolia'. Acreditavam que era causada por ter muita 'bile negra', que eles pensavam ser um líquido escuro e pesado.

Você sabia?
Uma ilustração mostrando a conexão entre o cérebro e o estômago.

Nos anos 1600, as pessoas achavam que a ansiedade morava no estômago. Elas não estavam totalmente erradas! Hoje, os cientistas chamam o intestino de nosso 'segundo cérebro' porque ele é cheio de nervos que falam diretamente com a nossa cabeça.

Lá pelos anos 1800, o mundo estava mudando rápido por causa da Revolução Industrial. As pessoas se mudaram para cidades lotadas e começaram a trabalhar em fábricas barulhentas com horários rígidos.

Os médicos começaram a notar um novo tipo de sentimento que chamaram de 'neurastenia' ou 'exaustão nervosa'. Eles achavam que o mundo moderno estava simplesmente se movendo rápido demais para o cérebro humano acompanhar.

Uma História da Preocupação

Idade da Pedra
A ansiedade começa como um instinto de sobrevivência para ajudar os humanos a evitar predadores como os tigres-dentes-de-sabre.
Grécia Antiga (400 a.C.)
Os médicos a chamam de 'Melancolia' e acham que ela vem de ter muito líquido frio e escuro no corpo.
Anos 1800
Conforme as cidades ficam mais barulhentas e ocupadas, os médicos chamam o sentimento de 'Neurastenia' e culpam os relógios modernos e as máquinas a vapor.
Anos 1950
Pensadores como Donald Winnicott percebem que se sentir seguro com outras pessoas é a melhor maneira de lidar com grandes preocupações.
Hoje
Entendemos que a ansiedade é uma mistura da nossa biologia antiga, nossos pensamentos e o mundo ao nosso redor.

Como você pode ver, os humanos sempre tentaram encontrar palavras para aquela sensação de aperto no peito. Sempre soubemos que viver pode parecer um pouco demais às vezes.

Um Lugar Seguro para Sentir

No meio do século XX, um médico chamado Donald Winnicott olhou para a ansiedade de um jeito novo. Ele passou muito tempo observando como bebês e pais interagem.

Winnicott percebeu que todos precisamos de algo que ele chamou de ambiente de acolhimento (ou holding). Isso não é apenas um abraço físico, embora abraços sejam muito importantes.

Tente isso

Tente a técnica 5-4-3-2-1 para ajudar seu 'cão de guarda' a se sentir seguro. Olhe ao redor e nomeie 5 coisas que você pode ver, 4 que pode tocar, 3 que pode ouvir, 2 que pode cheirar e 1 que pode sentir o gosto. Isso avisa ao seu cérebro que você está aqui agora e que está tudo bem.

Um ambiente de acolhimento é um espaço onde você se sente seguro o suficiente para ser você mesmo, mesmo quando está com medo. É um lugar onde outra pessoa pode 'segurar' seus sentimentos grandes para que eles não pareçam tão pesados.

Quando estamos ansiosos, muitas vezes sentimos que estamos caindo ou que as coisas estão desmoronando. Um pai, um professor ou um amigo ajuda nos mostrando que ainda estamos seguros.

Mira

Mira says:

"Exatamente! E às vezes, só de ter alguém sentado com você enquanto você se sente assim, o 'tigre' vira uma bola de futebol de novo."

Winnicott também falou sobre o espaço potencial. Esta é a área entre o seu mundo interior (seus pensamentos) e o mundo exterior (as coisas reais ao seu redor).

Donald Winnicott

É no brincar, e talvez apenas no brincar, que a criança ou o adulto fruem sua liberdade de criação e podem usar a personalidade integral.

Donald Winnicott

Winnicott era um pediatra que acreditava que 'brincar' era a melhor maneira de lidar com as partes assustadoras da vida. Ele achava que, quando brincamos, criamos uma ponte entre nossos medos e a realidade.

Winnicott acreditava que, quando nos sentimos seguros, podemos usar nossa imaginação para 'brincar' com nossos medos. Podemos transformar um pensamento assustador em uma história ou um desenho, o que faz com que ele pareça menor.

O Mistério do Desconhecido

Outro pensador chamado Adam Phillips acredita que a ansiedade geralmente é sobre coisas que sentimos que estamos 'perdendo'. Ele acha que nos preocupamos porque queremos que nossas vidas sejam perfeitas.

Mas a vida raramente é perfeita, e quase sempre é cheia de surpresas. Phillips sugere que ser 'bom o suficiente' é, na verdade, melhor do que ser perfeito.

Dois lados
Empurrãozinho Útil

Um pouco de ansiedade ajuda porque nos lembra de nos preparar. É como um empurrãozinho dizendo: 'Ei, não esqueça de estudar para o teste!'

Congelamento Inútil

Muita ansiedade não ajuda porque nos faz travar. É como um barulho tão alto que torna impossível sequer pensar no teste.

Se tentamos ser perfeitos, nosso cão de guarda late o tempo todo porque a perfeição é impossível. Se aceitarmos que somos 'bons o suficiente', o cachorro pode finalmente tirar uma soneca.

A ansiedade geralmente aparece quando não sabemos o que vai acontecer a seguir. Os humanos geralmente preferem saber o plano, mas a vida nem sempre nos dá um.

Finn

Finn says:

"Acho que não saber o que tem para o jantar é um pouco como uma história de mistério. É assustador se eu estiver com muita fome, mas é legal se eu estiver curioso."

Phillips sugere que a incerteza é, na verdade, onde as coisas mais interessantes acontecem. Se soubéssemos exatamente o que aconteceria todos os dias, a vida seria muito chata.

Adam Phillips

A capacidade de ficar entediado pode ser uma conquista de desenvolvimento para a criança.

Adam Phillips

Phillips é um psicólogo moderno que acha que muitas vezes ficamos ansiosos porque estamos ocupados demais. Ele acredita que ser capaz de sentar e não fazer nada é um superpoder que nos ajuda a lidar com a incerteza.

Phillips quer que vejamos que se sentir um pouco perdido faz parte de ser uma pessoa. Não precisamos ter todas as respostas imediatamente.

Por que seu Cérebro faz Isso

Ajuda lembrar que seu cérebro não está tentando ser mau com você. Na verdade, ele está tentando ser seu melhor amigo e protetor.

Imagine isso
Uma criança exploradora em uma selva.

Imagine que você é um explorador em uma selva densa. Você está alerta e seus sentidos estão aguçados. Esse 'alerta' é uma forma de ansiedade que impede você de pisar em uma cobra. Em doses pequenas, a ansiedade é, na verdade, uma habilidade de sobrevivência!

Quando você sente aquela onda de adrenalina, seu cérebro está dizendo: 'Ei! Preste atenção! Algo importante está acontecendo!'

O problema é que o cérebro nem sempre sabe a diferença entre uma coisa 'importante' e uma coisa 'assustadora'. Ele trata uma palavra difícil em um ditado do mesmo jeito que trata um tigre.

Como Conversar com sua Ansiedade

Como a ansiedade faz parte do ser humano, não precisamos tentar nos livrar dela para sempre. Em vez disso, podemos aprender a conviver com ela, como um colega de quarto que fala um pouco alto demais.

Uma das melhores maneiras de lidar com isso é dar um nome a ela. Cientistas descobriram que dizer 'Estou me sentindo ansioso' ajuda a amígdala a se acalmar.

  • Dê um apelido à sua ansiedade, como 'O Assobiador de Preocupações' ou 'Professor Pânico'.
  • Agradeça ao seu cérebro por tentar te proteger, mas diga a ele que você dá conta disso.
  • Concentre-se na sensação dos seus pés no chão para lembrar ao seu cérebro que você está em solo firme.

Algo para Pensar

Se a sua ansiedade fosse um personagem de filme, como ele seria e do que ele estaria tentando te proteger?

Não existe resposta certa ou errada aqui. Seu 'personagem' pode ser um camundongo minúsculo, um robô gigante ou até uma nuvem. Pensar dessa forma ajuda você a ver a ansiedade como algo que você *tem*, não algo que você *é*.

Aprender sobre a ansiedade é como aprender a velejar um barco. Você não pode controlar o vento ou as ondas, mas pode aprender a mover as velas.

A história nos mostra que cada pessoa que você admira já se sentiu assim em algum momento. É simplesmente o preço que pagamos por ter cérebros tão poderosos e imaginativos.

Perguntas sobre Psicologia

Ansiedade é uma coisa ruim?
De jeito nenhum. É uma parte natural do ser humano, feita para te manter seguro. Só se torna um problema quando começa a 'latir' com muita frequência para coisas que não são perigosas de verdade.
Por que sinto isso no meu estômago?
Quando seu cérebro sente perigo, ele envia sangue para longe do estômago e em direção aos seus músculos para que você possa correr rápido. Essa mudança no fluxo sanguíneo é o que cria a sensação de 'borboletas' ou um 'nó'.
Eu vou parar de sentir ansiedade algum dia?
Todo mundo sente ansiedade às vezes, até os adultos mais corajosos. O objetivo não é fazê-la desaparecer para sempre, mas aprender a notá-la e lembrar a si mesmo que você está seguro.

O Ato Corajoso de Não Saber

A ansiedade muitas vezes é apenas uma maneira de dizer que você se importa com o que vai acontecer a seguir. Ao aprender de onde vêm esses sentimentos, você está fazendo algo muito corajoso: está conhecendo a si mesmo. Lembre-se de que você não precisa carregar suas preocupações sozinho e que até os filósofos mais antigos e os médicos mais inteligentes se sentiam exatamente como você.