Você já se perguntou por que escolhe ser 'bonzinho'?

Seria porque você quer ganhar uma estrela dourada ou porque tem medo de se encrencar? Lawrence Kohlberg foi um cientista da mente que acreditava que nosso desenvolvimento moral acontece em estágios, assim como aprender a andar ou falar. Ele passou a vida estudando a justiça e como as crianças se tornam adultos capazes de pensar por si mesmos sobre o que é realmente justo.

Imagine que estamos em 1958, na cidade de Chicago. As ruas estão cheias de carros grandes e pesados e o som do jazz ecoa pelo ar. Dentro de um prédio silencioso de uma universidade, um jovem chamado Lawrence Kohlberg está fazendo perguntas muito estranhas às pessoas.

Ele não está interessado em saber se as pessoas conhecem fatos matemáticos ou datas históricas. Ele quer saber como elas decidem o que é certo e o que é errado. Kohlberg foi um homem que viu algumas das partes mais difíceis da história, incluindo a Segunda Guerra Mundial, e tinha curiosidade sobre por que algumas pessoas seguem regras mesmo quando elas são cruéis, enquanto outras lutam pelo que é justo.

Imagine isso
A silhueta de uma pessoa parada diante de uma janela iluminada à noite.

Imagine que você está sentado em uma cadeira de madeira em frente a um pesquisador. Ele não quer saber seu nome nem suas notas. Ele te mostra a foto de um homem parado do lado de fora de uma farmácia à noite. Ele pergunta: 'Se este homem quebrar a janela para salvar alguém que ama, ele é um herói ou um criminoso?' Seu coração bate um pouco mais rápido porque você percebe que pode não haver uma única resposta certa.

Kohlberg era um pensador profundo que adorava as ideias de Jean Piaget, um cientista que estudou como as crianças aprendem. Piaget percebeu que as crianças não sabem apenas menos que os adultos: elas pensam de um jeito completamente diferente.

Kohlberg pegou essa ideia e a aplicou ao mundo da ética. Ele acreditava que, conforme nosso cérebro cresce, nossa capacidade de pensar sobre justiça também cresce. Não se trata apenas de ser 'bem-comportado', mas de entender os motivos por trás de nossas escolhas.

Lawrence Kohlberg

A criança é um filósofo. Ela é um pensador sobre o mundo social.

Lawrence Kohlberg

Kohlberg disse isso porque queria que os adultos percebessem que as crianças estão constantemente tentando entender a lógica do mundo ao seu redor.

Para descobrir isso, Kohlberg criou uma série de histórias chamadas dilemas morais. São situações complicadas onde não existe uma resposta fácil. A mais famosa delas é conhecida como o Dilema de Heinz.

Nessa história, um homem chamado Heinz tem uma esposa que está muito doente. Um farmacêutico da cidade tem um remédio especial que poderia salvá-la, mas ele está cobrando dez vezes mais do que custa para fabricá-lo. Heinz tenta arrecadar o dinheiro, mas só consegue metade. O farmacêutico se recusa a baixar o preço ou a deixar Heinz pagar depois.

Finn

Finn says:

"Espera aí, se o Heinz roubar, ele é um ladrão. Mas se não roubar, ele deixa a esposa dele piorar? É uma situação onde todo mundo perde! Como a gente deve escolher?"

Então, Heinz fica desesperado. Ele invade a loja e rouba o remédio para sua esposa. Kohlberg contava essa história para crianças e adultos e depois perguntava: Heinz deveria ter feito isso? Por que sim ou por que não?

Ele não se importava muito se diziam 'sim' ou 'não' ao roubo. O que importava eram os motivos que as pessoas davam. Ele percebeu que as respostas mudavam conforme as pessoas ficavam mais velhas e mais reflexivas.

Tente isso
Três pegadas de tamanhos diferentes subindo por um caminho.

Pense na última vez que você seguiu uma regra. Foi porque não queria se encrencar (Nível 1)? Foi porque queria ser uma 'boa criança' (Nível 2)? Ou foi porque você realmente acreditava que a regra era justa para todos (Nível 3)? Tente identificar esses três níveis nas histórias que lê ou nos filmes que assiste!

Kohlberg organizou essas diferentes formas de pensar em três grandes níveis. O primeiro nível é chamado de moralidade Pré-convencional. É assim que muitas crianças pequenas pensam sobre o mundo, mas até os adultos às vezes pensam assim quando estão com pressa ou sendo egoístas.

Nesse estágio, o certo e o errado giram em torno do 'eu'. Uma criança pode dizer que Heinz não deve roubar porque ele irá para a cadeia, e a cadeia é assustadora. Ou pode dizer que ele deve roubar porque ficará feliz se sua esposa viver.

Mira

Mira says:

"Isso me lembra quando meu irmãozinho só arruma o quarto para poder jogar videogame. Ele não está sendo 'limpinho', ele só está fugindo da regra do 'ficar sem tela'!"

Neste primeiro nível, o foco é evitar punições ou ganhar uma recompensa. É um pouco como um jogo: você segue as regras para o juiz não apitar contra você. Você não está pensando se as regras são justas: está apenas pensando em não se meter em encrenca.

Conforme crescemos, geralmente passamos para o segundo nível, que Kohlberg chamou de moralidade Convencional. Este nível trata de se encaixar na sociedade e ser uma pessoa 'boa' aos olhos dos outros.

Lawrence Kohlberg

A ação correta tende a ser definida em termos de direitos individuais gerais e padrões que foram examinados criticamente e aceitos por toda a sociedade.

Lawrence Kohlberg

Em seus escritos, Kohlberg explicou que, conforme crescemos, paramos de seguir as regras cegamente e passamos a buscar regras que todos concordem que são justas.

No nível Convencional, começamos a nos importar com o que nossa família, amigos e vizinhos pensam. Se você perguntasse a alguém nesse estágio sobre Heinz, essa pessoa poderia dizer que ele deveria roubar o remédio porque um 'bom marido' faria qualquer coisa por sua esposa.

Também poderiam dizer que ele não deveria roubar porque roubar é contra a lei e, se todos quebrassem a lei, a sociedade desmoronaria. Nesse estágio, valorizamos a ordem e a harmonia social. Queremos fazer parte do grupo, e o grupo tem regras que nos mantêm seguros.

Você sabia?
Um grupo de pessoas sentadas em círculo compartilhando ideias.

Kohlberg passou um tempo em um 'Kibbutz' em Israel. Este é um tipo especial de comunidade onde todos compartilham tudo e tomam decisões juntos. Ver como as pessoas trabalhavam juntas sem chefes ou punições rígidas ajudou a inspirar suas ideias sobre 'Comunidades Justas'.

O nível final é o mais complexo: a moralidade Pós-convencional. Kohlberg achava que apenas um pequeno número de pessoas alcança esse estágio e permanece nele o tempo todo. É aqui que você começa a olhar para as leis e regras sociais como coisas que podem ser mudadas se não forem realmente justas.

Alguém nesse estágio pode dizer que, embora roubar seja geralmente errado, o direito à vida humana é mais importante do que o direito de um dono de loja de ganhar dinheiro. Essa pessoa está olhando para princípios universais como justiça, dignidade e igualdade.

Mira

Mira says:

"Então o nível mais alto não é só seguir a lei, é seguir a consciência? Isso parece corajoso, mas também um pouco assustador."

Esse tipo de pensamento é o que leva as pessoas a protestarem contra leis que consideram cruéis. É o tipo de pensamento usado por líderes como Martin Luther King Jr. ou Rosa Parks. Eles acreditavam que só porque algo é uma 'regra', não significa que seja 'certo'.

O trabalho de Kohlberg foi revolucionário, mas nem todos concordavam com ele. Uma de suas alunas, Carol Gilligan, percebeu algo interessante. Ela sentiu que os estágios de Kohlberg eram baseados principalmente em como meninos e homens pensam sobre 'regras' e 'justiça'.

Dois lados
Visão de Kohlberg

A moralidade é como uma escada de lógica. Passamos de pensar em nós mesmos para pensar em regras universais de justiça que se aplicam a todos igualmente.

Visão de Gilligan

A moralidade é como uma teia de conexões. Devemos fazer escolhas com base em como elas afetam nossos relacionamentos e o quanto nos importamos com as pessoas envolvidas.

Gilligan sugeriu que muitas pessoas, especialmente meninas e mulheres, podem focar mais no cuidado e nos relacionamentos. Em vez de perguntar 'Qual é a regra?', elas podem perguntar 'Quem sairá machucado?' ou 'Como podemos manter todos conectados?'

Isso abriu um grande debate na psicologia. Ser 'moral' é seguir um mapa lógico de justiça ou se trata do calor dos nossos corações e do cuidado uns com os outros? Hoje, muitos psicólogos acham que é um pouco de cada coisa.

O Crescimento de uma Ideia

Grécia Antiga (c. 400 a.C.)
Sócrates e Platão defendem que a 'Justiça' é algo que podemos entender através do pensamento profundo e do questionamento.
1932
Jean Piaget publica 'O Julgamento Moral na Criança', sugerindo que as brincadeiras infantis têm seus próprios conjuntos de regras que evoluem.
1958
Lawrence Kohlberg termina seu famoso estudo, apresentando os Três Níveis e os Seis Estágios do Desenvolvimento Moral.
1982
Carol Gilligan publica 'In a Different Voice' (Uma voz diferente), desafiando Kohlberg e adicionando a 'Ética do Cuidado' à conversa.
Hoje
Psicólogos usam tanto a Justiça quanto o Cuidado para entender como nos tornamos seres humanos gentis, justos e corajosos.

Kohlberg não queria apenas escrever livros sobre essas ideias: ele queria vê-las em ação. Ele ajudou a criar escolas de 'Comunidade Justa', onde alunos e professores tinham votos iguais sobre as regras da escola.

Ele acreditava que a única maneira de se tornar uma pessoa mais moral era praticando. É preciso falar sobre problemas difíceis, ouvir pessoas de quem você discorda e sentir o peso de fazer uma escolha. A moralidade, para Kohlberg, era um músculo que precisava de exercício.

Lawrence Kohlberg

O objetivo da educação é o crescimento ou desenvolvimento, tanto intelectual quanto moral.

Lawrence Kohlberg

Kohlberg acreditava que as escolas não deveriam apenas ensinar fatos: elas deveriam ajudar os alunos a se tornarem melhores em refletir sobre escolhas difíceis.

Quando olhamos para a vida de Kohlberg, vemos um homem profundamente curioso sobre a alma humana. Ele não achava que as crianças eram 'vasos vazios' a serem preenchidos com regras. Ele achava que as crianças eram pequenos filósofos, constantemente tentando dar sentido ao mundo.

Não tem problema se você não souber a resposta para o Dilema de Heinz logo de cara. Na verdade, esse é o objetivo. O 'não saber' é onde o pensamento acontece. É onde você começa a imaginar que tipo de pessoa deseja ser.

Você sabia?
Um pequeno robô observando uma balança que está perfeitamente equilibrada.

As ideias de Kohlberg ainda são usadas hoje para treinar policiais, médicos e até pessoas que projetam Inteligência Artificial (IA)! Quando ensinamos um robô a fazer uma escolha 'justa', muitas vezes olhamos para os estágios de Kohlberg em busca de orientação.

Pensar sobre o certo e o errado pode parecer pesado às vezes, como tentar carregar uma pilha enorme de livros. Mas também pode parecer uma aventura. Cada vez que você para para pensar antes de agir, está dando um passo naquele caminho sinuoso que Kohlberg descreveu.

Algo para Pensar

Se você tivesse que criar uma regra que todos no mundo tivessem que seguir, qual seria?

Não existe uma única resposta correta aqui. Sua regra pode ser baseada na lógica, no cuidado ou em algo totalmente diferente. Pense por que você a escolheu e quem ela poderia ajudar — ou prejudicar.

Perguntas sobre Psicologia

Todo mundo chega ao estágio mais alto do desenvolvimento moral?
Kohlberg acreditava que a maioria das pessoas permanece no nível 'Convencional', que trata de seguir as leis e ser um bom cidadão. Ele achava que alcançar o nível 'Pós-convencional' exige muita prática, pensamento profundo e, muitas vezes, experiências de vida que desafiam nossas crenças.
É possível voltar nos estágios?
Geralmente, Kohlberg achava que avançamos conforme nosso cérebro se desenvolve e aprendemos mais sobre o mundo. No entanto, sob muito estresse ou medo, até adultos podem agir temporariamente em um nível 'Pré-convencional', focando apenas em sua própria segurança ou recompensas.
Por que Kohlberg só usava histórias sobre dilemas?
Kohlberg usava dilemas porque eles nos forçam a escolher entre duas coisas que valorizamos, como 'seguir a lei' versus 'salvar uma vida'. Essas escolhas difíceis revelam a 'estrutura' do nosso pensamento de uma forma que as escolhas fáceis não revelam.

A Jornada Continua

Lawrence Kohlberg nos mostrou que crescer não é apenas ficar mais alto ou mais rápido: é sobre a maneira como nossa mente se expande para abraçar ideias maiores de justiça. Quer você concorde com os estágios dele ou prefira o foco de Carol Gilligan no cuidado, o mais importante é que você continue perguntando 'Por quê?'. Cada vez que você questiona uma regra ou pensa nos sentimentos de outra pessoa, você está fazendo o trabalho de um filósofo.