Você já notou como um simples dinossauro de plástico pode de repente se tornar um herói, um vilão ou um explorador solitário só porque você decidiu que ele era?

No início dos anos 1900, uma mulher chamada Melanie Klein percebeu que as crianças estavam fazendo algo muito mais profundo do que apenas 'se divertir' quando brincavam. Ela descobriu que nosso mundo interior está cheio de histórias secretas, medos e esperanças que expressamos através das coisas que fazemos e dos objetos que amamos.

Imagine entrar em uma sala em Londres há uns oitenta anos. O ar está um pouco fresco, e o som do trânsito distante zune lá fora da janela.

Dentro da sala, há uma mesinha pequena, algumas cadeiras e uma pia com água corrente. Mas o mais importante é um baú de madeira cheio de brinquedos minúsculos: carrinhos, bonecos de madeira e pequenos animais.

Imagine isso
Um baú de brinquedos antigo com pequenos brinquedos de madeira.

Imagine uma gaveta de brinquedos minúscula que pertence só a você. Ninguém mais pode tocar nela, e toda vez que você visita a Melanie, você encontra seus brinquedos exatamente onde os deixou. Esta gaveta representa a sua própria mente privada: um espaço onde você é o chefe da sua própria história.

Melanie Klein sentava-se nesta sala, observando as crianças brincarem. Ela foi uma pioneira que se mudou de Viena para Berlim, e, finalmente, para a Inglaterra, procurando uma maneira de entender o que estava acontecendo dentro da cabeça de uma criança.

Naquela época, muitos adultos pensavam que as crianças eram apenas 'vasos vazios' esperando para serem preenchidos com conhecimento. Melanie sabia que era melhor: ela via que as crianças já estavam cheias de ideias complexas.

Finn

Finn says:

"Se a Melanie estivesse me observando brincar com meus LEGOs, ela acharia que estou construindo um castelo, ou ela pensaria que estou construindo um lugar seguro para minhas preocupações se esconderem?"

A Linguagem do Brincar

O maior avanço de Melanie foi algo que hoje chamamos de técnica do brincar. Antes dela, os médicos tentavam ajudar as pessoas fazendo-as falar sobre seus sentimentos por horas.

Mas Melanie notou que as crianças nem sempre têm as palavras para sentimentos grandes como 'sobrecarregado' ou 'ansioso'. Em vez disso, elas mostram esses sentimentos através dos seus brinquedos.

Melanie Klein

O brincar da criança... é o equivalente às associações livres do adulto.

Melanie Klein

Melanie disse isso para explicar que, para as crianças, os brinquedos são como palavras. Brincar não é apenas uma pausa no aprendizado: é como as crianças contam suas histórias mais importantes.

Se uma criança fazia dois carrinhos baterem um no outro, Melanie não via apenas uma batida. Ela via uma maneira da criança expressar um conflito ou um 'choque' de sentimentos que ela poderia estar tendo por dentro.

Ela tratava o brincar como uma espécie de código secreto. Observando como uma criança lidava com uma boneca ou construía uma torre, ela podia começar a entender seus pensamentos inconscientes.

Você sabia?
Um bebê pensando com balões de pensamento.

Melanie Klein foi uma das primeiras pessoas a dizer que os bebês são pensadores muito ocupados! Antes dela, muitas pessoas achavam que os bebês realmente não tinham personalidade até conseguirem falar.

O Mundo da Fantasia

Melanie usava uma palavra especial para descrever as histórias que contamos a nós mesmos: fantasia. Ela escreveu com 'f' para mostrar que era diferente de apenas imaginar que você é um mago ou um capitão espacial.

Para Melanie, uma fantasia é algo que acontece no fundo da sua mente o tempo todo. É como você dá sentido ao mundo ao seu redor, mesmo quando não está pensando nisso.

Mira

Mira says:

"Acho que entendi o 'f' de fantasia. É como a música de fundo de um filme: você nem sempre nota, mas muda como a cena inteira se sente."

Pense em quando você está com fome. Você pode ficar um pouco rabugento ou 'mal-humorado'. Melanie acreditava que, no fundo, sua mente cria uma história sobre essa fome.

Talvez a fome pareça algo 'ruim' atacando você por dentro. Quando você finalmente come, parece que algo 'bom' está cuidando de você.

Tente isso

Da próxima vez que você sentir uma emoção muito forte: como estar super feliz ou super irritado: tente imaginar esse sentimento como um personagem. Como ele seria? O que ele diria? Esta é uma maneira de olhar para o seu próprio 'mundo interior' exatamente como Melanie fazia.

Cisão: O Bom e o Mau

Uma das ideias mais famosas de Melanie é chamada de cisão (splitting). Ela percebeu que, quando somos muito jovens, o mundo parece muito extremo: as coisas são ou perfeitamente boas ou totalmente más.

Você já ficou com muita raiva de alguém que você geralmente ama, como um pai ou um melhor amigo? Naquele momento, parece que a pessoa é completamente diferente, uma pessoa 'má'.

Donald Winnicott (inspirado por Klein)

Não existe tal coisa como um bebê... existe apenas uma mãe e um bebê juntos.

Donald Winnicott (inspirado por Klein)

Embora isso tenha sido dito por seu aluno, captura a ideia de Melanie de que nunca estamos verdadeiramente sozinhos. Nossas mentes são construídas a partir de nossos relacionamentos com os outros.

Isso acontece porque é difícil para nossos cérebros segurar dois sentimentos opostos ao mesmo tempo. É mais fácil 'dividir' a pessoa em duas: o 'Amigo Bom' e o 'Amigo Mau'.

Melanie acreditava que crescer significa aprender a juntar essas duas partes. Começamos a perceber que a pessoa com quem estávamos bravos é a mesma pessoa que nos ama.

Dois lados
Cisão

O mundo é dividido em Bom e Mau. É simples, claro e nos ajuda a saber a quem correr e de quem se esconder.

Totalidade

O mundo é 'Inteiro'. Pessoas que amamos podem, às vezes, ser más, e pessoas de quem não gostamos podem, às vezes, ser gentis. É mais confuso, mas mais real.

Juntando as Peças

Quando percebemos que a pessoa de quem estávamos bravos também é a pessoa que cuida de nós, sentimos um novo tipo de emoção. Melanie chamou isso de posição depressiva, mas não deixe o nome enganar você: é, na verdade, algo muito corajoso.

É o momento em que percebemos que as pessoas são complicadas. Começamos a sentir ambivalência, que é apenas uma maneira chique de dizer que podemos sentir duas coisas opostas ao mesmo tempo.

Finn

Finn says:

"Então, quando estou bravo com meu irmão, mas também quero dividir meu lanche com ele mais tarde, eu estou fazendo essa coisa de 'ambivalência'? Isso dá muito trabalho para um cérebro só!"

Assim que percebemos que talvez tenhamos sido um pouco rudes com alguém que amamos, queremos consertar. Melanie chamou isso de reparação. É o impulso de 'reparar' ou melhorar as coisas.

Pense em fazer um cartão para alguém depois de uma discussão, ou dar um abraço. Isso é a sua mente trabalhando para manter seu mundo inteiro e conectado.

Melanie Klein

Uma das muitas coisas interessantes sobre a mente humana é que ela nunca está parada.

Melanie Klein

Melanie acreditava que nosso 'mundo interior' está sempre ocupado, como um teatro onde a peça nunca termina, mesmo quando estamos dormindo.

O Grande Debate

Melanie não era a única a pensar nessas coisas. Havia outra mulher famosa chamada Anna Freud (filha de Sigmund Freud) que tinha ideias diferentes.

Anna acreditava que as crianças precisavam ser ensinadas a se comportar antes de poderem olhar para seus sentimentos profundos. Melanie discordava: ela achava que as crianças estavam prontas para explorar seus mundos interiores imediatamente.

Você sabia?

As 'Discussões Controversas' duraram anos! Mesmo que os analistas discordassem sobre como a mente funcionava, eles continuaram se reunindo para conversar sobre isso porque todos concordavam que ajudar as crianças era o trabalho mais importante do mundo.

Isso levou a algumas reuniões muito famosas em Londres chamadas 'As Discussões Controversas'. Imagine um grupo das pessoas mais inteligentes do mundo discutindo educadamente em uma biblioteca enquanto bombas caíam sobre Londres durante a Segunda Guerra Mundial.

Eles estavam tentando decidir a melhor maneira de ajudar as crianças a permanecerem corajosas e saudáveis durante tempos assustadores. As ideias de Melanie ajudaram a moldar a forma como os médicos ajudam as crianças hoje.

A Jornada das Ideias de Melanie

1914-1921
Melanie começa sua própria terapia em Budapeste e começa a se perguntar: poderíamos ajudar as crianças observando-as brincar?
1926
Melanie se muda para Londres. Ela traz sua 'caixa de brinquedos' e começa a mudar a forma como os médicos britânicos pensam sobre a mente.
1941-1945
As Discussões Controversas. Melanie e Anna Freud debatem suas ideias enquanto Londres sobrevive aos bombardeios (Blitz).
Hoje
A Terapia do Brincar é usada em escolas e hospitais ao redor do mundo para ajudar as crianças a expressar o que não conseguem dizer em palavras.

Por Que Melanie é Importante Hoje

Melanie Klein nos ensinou que a infância é um tempo de grande aventura emocional. Ela nos mostrou que até as crianças pequenas têm um rico mundo interior que merece respeito e atenção.

Ao entender nossos 'objetos internos' (as versões das pessoas que carregamos em nossos corações), podemos entender por que reagimos às coisas da maneira que reagimos.

Ela acreditava que ser humano significa mover-se constantemente entre sentir-se 'dividido' e sentir-se 'inteiro'. É uma jornada que começa no berçário e dura a vida toda.

Algo para Pensar

Se você tivesse um 'código secreto' para os seus sentimentos, qual seria?

Não há respostas certas ou erradas aqui. Talvez o seu código seja desenhar, construir ou até mesmo a forma como você organiza seus livros. Todos expressam seu mundo interior de maneiras diferentes.

Perguntas sobre Psicologia

Melanie Klein trabalhava apenas com crianças doentes?
Não! Melanie acreditava que toda criança (e todo adulto) tem um mundo interior complexo. Suas ideias nos ajudam a entender como todos crescem, fazem amigos e lidam com sentimentos grandes.
Por que ela usava brinquedos em vez de apenas conversar?
Melanie percebeu que, para uma criança, brincar é conversar. Brinquedos permitem que as crianças encenem situações complicadas e 'pratiquem' seus sentimentos de uma forma que pareça segura.
O que é a 'Posição Depressiva' em termos simples?
É o momento em que percebemos que a pessoa de quem estávamos bravos também é alguém que amamos. É o começo de 'crescer' porque nos ajuda a ver as pessoas como inteiras e complicadas, em vez de apenas 'boas' ou 'más'.

A Exploradora do Interior

Melanie Klein foi como uma exploradora que não precisava de navio ou mapa. Ela permaneceu em um único cômodo e descobriu um universo inteiro dentro da mente das crianças. Ao aprender sobre ela, nós também podemos começar a ser exploradores das nossas próprias mentes. O que você vai descobrir no seu mundo interior hoje?