Se você tivesse que se descrever usando apenas três palavras, quais você escolheria?

Os seres humanos passam milhares de anos tentando desvendar o mistério da personalidade. Queremos saber por que sentimos, pensamos e agimos da maneira que agimos, e se o nosso temperamento é algo com que nascemos ou algo que aprendemos.

Imagine que você está em um parquinho lotado. Algumas crianças estão bem no meio da ação, gritando e correndo. Outras estão sentadas na beirada da caixa de areia, construindo um castelo com cuidado ou conversando baixinho com um amigo.

Imagine isso
Um casaco de retalhos colorido representando as experiências e traços únicos de uma pessoa.

Imagine que sua personalidade é como um casaco feito sob medida. Algumas partes dele têm a cor com a qual você nasceu, como seus olhos. Outras partes são remendos que você costurou porque leu livros, fez amigos e visitou lugares.

Por que uma pessoa se sente cheia de energia com uma multidão, enquanto outra se sente cansada por causa dela? Essa é a questão central da psicologia da personalidade, um ramo da ciência que observa os padrões de como nos comportamos. É o estudo do que faz você ser, unicamente, você.

Os Humores Antigos: Medicina e Humor

Para encontrar o começo desta história, precisamos voltar mais de 2.000 anos, para a Grécia Antiga. Lá, um médico chamado Hipócrates observava seus pacientes com muita atenção. Ele notou que as pessoas pareciam se encaixar em quatro categorias principais de comportamento.

Finn

Finn says:

"Espera aí, então se eu estou de mau humor, um médico antigo diria que eu só tinha muito suco amarelo na barriga? Isso é meio nojento, mas também bem engraçado."

Hipócrates acreditava que tudo no universo era feito de quatro elementos: terra, ar, fogo e água. Ele pensava que, dentro do corpo humano, existiam quatro líquidos correspondentes chamados humores. Se esses líquidos estivessem equilibrados, você estava saudável. Se você tivesse muito de um, isso mudava sua personalidade.

Você sabia?
Duas máscaras de teatro representando as origens da palavra personalidade.

A palavra 'personalidade' vem da palavra latina 'persona', que significa 'máscara'. No teatro romano antigo, os atores usavam máscaras diferentes para mostrar ao público qual personagem estavam interpretando. Hoje, pensamos na personalidade como o que está por baixo da máscara!

Se você tivesse muita "bile amarela", era considerado colérico, o que significava ser enérgico e talvez um pouco mandão. Muita "bile negra" tornava a pessoa melancólica, ou seja, pensativa e artística. Pessoas com muita "fleuma" eram fleumáticas, o que significa que eram calmas e estáveis. Finalmente, aqueles com bastante "sangue" eram sanguíneos, ou seja, alegres e sociáveis.

Hipócrates

É muito mais importante saber qual é a pessoa que a doença atingiu do que qual é a doença que a pessoa tem.

Hipócrates

Hipócrates viveu por volta de 400 a.C. na Grécia. Ele acreditava que os médicos deveriam olhar para a vida e o caráter inteiros do paciente, e não apenas para os sintomas físicos, o que foi uma maneira totalmente nova de pensar na época.

É claro que agora sabemos que nossas personalidades não são causadas por líquidos coloridos em nossos estômagos. Mas Hipócrates estava no caminho certo sobre algo importante. Ele percebeu que nossos corpos e mentes estão conectados e que as pessoas têm diferentes "configurações" naturais de como reagem ao mundo.

Carl Jung e o Mundo Interior

Por um longo tempo, a ideia dos Quatro Humores permaneceu a mesma. Mas no início dos anos 1900, um pensador suíço chamado Carl Jung decidiu olhar mais fundo. Ele não estava interessado em líquidos corporais: ele estava interessado em onde as pessoas obtinham sua energia.

Tente isso

Preste atenção na sua 'Bateria Social' hoje. Depois de passar um tempo com um grande grupo de pessoas, você sente vontade de continuar conversando? Ou sente que precisa ir para o seu quarto ficar quieto por um tempo? Não há resposta errada, isso apenas mostra como você recarrega!

Jung notou que algumas pessoas parecem ser orientadas para o "mundo exterior" das pessoas e das coisas. Ele chamou essas pessoas de extrovertidas. Elas tendem a pensar em voz alta e adoram variedade. Quando estão perto de outras pessoas, sentem como se uma bateria estivesse sendo carregada.

Mira

Mira says:

"Eu gosto da ideia de um 'mundo interior'. Faz com que meus devaneios pareçam um lugar real que posso visitar sempre que preciso recarregar meu cérebro."

Por outro lado, algumas pessoas são orientadas para o seu "mundo interior" de pensamentos e sentimentos. Jung as chamou de introvertidas. Isso não significa necessariamente que sejam tímidas. Significa apenas que precisam de tempo em silêncio para recarregar suas baterias depois de estarem em um grupo grande.

Carl Jung

Não existe um extrovertido puro ou um introvertido puro. Tal homem estaria no manicômio.

Carl Jung

Jung foi um psiquiatra suíço que escreveu isso na década de 1920. Ele queria que as pessoas entendessem que a personalidade é um equilíbrio, e que ser 'demais' de uma coisa tornaria difícil viver uma vida normal.

Jung acreditava que ninguém é 100% de um jeito ou de outro. Em vez disso, ele achava que todos nós temos um pouco dos dois dentro de nós. Pense nisso como ser destro ou canhoto: você pode preferir um, mas usa as duas mãos todos os dias.

O Chapéu Seletor dos Anos 1940

Durante a Segunda Guerra Mundial, uma mãe e filha chamadas Katharine Briggs e Isabel Briggs Myers pegaram as ideias de Jung e as transformaram em uma ferramenta. Elas queriam ajudar as pessoas a encontrar empregos que realmente se encaixassem em seus pontos fortes naturais. Elas criaram o Indicador de Tipo Myers-Briggs, muitas vezes chamado de MBTI.

Dois lados
A Visão Pró-Rótulo

Rótulos nos ajudam a nos entender e a nos sentir menos sozinhos. Eles nos dão uma linguagem para explicar por que fazemos o que fazemos.

A Visão Cética

Rótulos podem ser como gaiolas. Se você pensa que é 'apenas uma pessoa tímida', pode não tentar coisas novas que poderiam ajudá-lo a crescer.

Elas adicionaram mais categorias à lista de Jung. Elas observaram como as pessoas reúnem informações: você olha para os detalhes minúsculos (Sensação), ou você olha para o quadro geral e as possibilidades (Intuição)? Elas também observaram como as pessoas tomam decisões: você usa a lógica (Pensamento) ou pensa em como a decisão afeta os sentimentos das pessoas (Sentimento)?

Isabel Briggs Myers

Tudo o que nos irrita nos outros pode nos levar a uma compreensão de nós mesmos.

Isabel Briggs Myers

Isabel passou a vida estudando como as pessoas diferem. Ela acreditava que, se entendermos nosso próprio 'tipo', podemos parar de nos incomodar com os outros e começar a apreciar seus dons únicos.

Ao combinar essas escolhas, elas criaram 16 "tipos" diferentes. Para muitas pessoas, encontrar seu tipo é como encontrar a chave para uma fechadura. Isso as ajuda a entender por que podem ter dificuldade com algumas coisas, enquanto para outros isso é fácil. No entanto, alguns cientistas se preocupam que esses tipos sejam como caixas que nos prendem.

Mapeando a Mente Humana Através do Tempo

400 a.C.
Hipócrates desenvolve a teoria dos Quatro Humores na Grécia Antiga, ligando o corpo à mente.
1921
Carl Jung publica 'Tipos Psicológicos', introduzindo os famosos termos Introvertido e Extrovertido.
1944
Isabel Briggs Myers e sua mãe criam a primeira versão do MBTI para ajudar as pessoas a encontrar seus empregos 'mais adequados'.
Década de 1980
Pesquisadores como Lewis Goldberg e outros refinam o 'Big Five', que é hoje o modelo cientificamente mais aceito.

O Big Five: O Mapa Moderno

Hoje, muitos psicólogos preferem um sistema diferente chamado Big Five (Os Cinco Grandes). Em vez de colocar as pessoas em caixas, o Big Five mede a personalidade em cinco espectros diferentes. Você pode lembrá-los usando a palavra OCEAN (em inglês, que no português fica: Abertura, Conscienciosidade, Extroversão, Agregabilidade, Neuroticismo – mas usaremos o mnemônico OCEAN adaptado para o português quando necessário).

  • Abertura (Openness): Quão abertos você é a novas ideias e aventuras?
  • Conscienciosidade (Conscientiousness): Quão organizado e trabalhador você é?
  • Extroversão (Extraversion): Quão social você gosta de ser?
  • Agregabilidade (Agreeableness): Quão preocupado você é em se dar bem com os outros?
  • Neuroticismo (Neuroticism): Com que facilidade você fica estressado ou preocupado?

Você sabia?
Um polvo curioso mostrando traços de personalidade.

Animais também têm personalidades! Cientistas descobriram que polvos, pássaros e até alguns insetos mostram padrões consistentes de serem 'ousados' ou 'tímidos' quando estão explorando novos lugares ou procurando comida.

No sistema Big Five, você não é apenas "um introvertido". Você pode estar "baixo na escala de extroversão". Isso permite mais margem para manobra. Reconhece que você pode ser muito organizado na escola, mas muito bagunceiro no seu quarto, ou corajoso com aranhas, mas nervoso com falar em público.

Finn

Finn says:

"Se meu cérebro pode construir novos caminhos, isso significa que eu posso 'praticar' ser uma personalidade diferente? Tipo, eu poderia me treinar para ser mais aventureiro?"

Uma das coisas mais empolgantes na psicologia moderna é a descoberta de que nossas personalidades podem mudar. Embora possamos ter um temperamento natural com o qual nascemos, também podemos crescer. Isso é chamado de neuroplasticidade, a ideia de que nossos cérebros podem construir novos caminhos enquanto aprendemos e praticamos novas maneiras de ser.

Por Que os Rótulos Importam (e Por Que Não Importam)

Aprender sobre tipos de personalidade é como acender uma lanterna em um quarto escuro. Ajuda você a ver coisas que já estavam lá, mas eram difíceis de descrever. Pode ajudar você a ser mais gentil consigo mesmo quando se sente "diferente" de seus amigos. Também pode ajudar você a ser mais paciente com um irmão que vê o mundo de forma diferente de você.

No entanto, é importante lembrar que um tipo de personalidade é apenas uma descrição, não um destino. Você é muito mais complexo do que quatro letras ou uma pontuação em uma escala. Você é uma pessoa viva e pulsante que está em constante crescimento e mudança em resposta ao mundo ao seu redor.

Algo para Pensar

Qual parte da sua personalidade parece uma 'rocha' sólida que não muda, e qual parte parece 'água' que muda dependendo de com quem você está?

Não há respostas certas ou erradas aqui. Você pode sentir que tem muitas versões diferentes de si mesmo, e isso é perfeitamente normal.

Perguntas sobre Psicologia

O tipo da sua personalidade pode mudar com o tempo?
Sim! Embora algumas partes do nosso temperamento permaneçam as mesmas, pesquisas mostram que a maioria das pessoas se torna mais organizada, agradável e estável emocionalmente à medida que envelhece. Isso é frequentemente chamado de 'princípio da maturidade'.
E se eu não me encaixar em nenhum dos tipos?
Isso é muito comum. A maioria das pessoas são 'ambivertidas', o que significa que caem bem no meio das escalas de introvertido e extrovertido. Testes de personalidade são apenas ferramentas, não definições perfeitas de quem você é.
Um tipo de personalidade é melhor que os outros?
Absolutamente não. O mundo precisa de todos os tipos de pessoas: precisamos dos observadores silenciosos para notar coisas que outros perdem, e dos líderes cheios de energia para fazer as coisas andarem. Cada 'tipo' tem seus próprios superpoderes únicos.

A História Desdobrada de Você

Pensar sobre a personalidade não é sobre encontrar uma resposta final. É sobre iniciar uma conversa consigo mesmo. Conforme você avança na vida, continuará a descobrir novas camadas de quem você é, como um livro que não para de adicionar novos capítulos. Mantenha a curiosidade sobre sua própria mente, é o lugar mais interessante que você jamais visitará.