Você já olhou para um nevoeiro espesso de manhã e sentiu que algo estava escondido logo atrás dele?

Para os antigos Celtas, o mundo nunca era apenas uma coisa só. Eles acreditavam que o mundo comum, de grama e pedra, vivia bem ao lado de um Outro Mundo mágico que era normalmente invisível, mas que estava sempre lá.

Para entender essas histórias, temos que viajar mais de dois mil anos no tempo. As pessoas que chamamos de Celtas viviam em uma grande parte da Europa, desde as colinas verdes da Irlanda e da Escócia até as costas acidentadas da França e até partes da Turquia. Eles não eram um único país: em vez disso, eram muitas tribos diferentes que compartilhavam uma língua parecida e um amor profundo pelo mundo natural.

No início, eles não escreviam suas histórias em livros. Em vez disso, usavam a Tradição Oral, o que significa que passavam sua história e seus mitos de pessoa para pessoa através de poemas e canções. Imagine sentar-se ao redor de uma fogueira crepitante em uma casa redonda, ouvindo um contador de histórias descrever heróis que podiam lutar contra gigantes e deuses que podiam se transformar em cisnes.

Você sabia?
Uma espada de bronze debaixo d'água em um lago.

Os antigos Celtas não tinham templos como os Gregos. Em vez disso, consideravam a própria natureza sagrada. Eles frequentemente deixavam oferendas, como espadas ou joias, em lagos e rios para honrar os espíritos da água.

Como essas histórias eram faladas em vez de escritas, elas mudavam um pouco cada vez que eram contadas. Isso cria uma maravilhosa sensação de mistério. Não temos uma única versão de um mito celta: temos mil ecos diferentes deles. Isso faz com que a mitologia pareça viva, como uma conversa que nunca termina.

Finn

Finn says:

"Se as histórias nunca foram escritas, isso significa que elas ainda estão crescendo? Como uma árvore que parece diferente toda vez que você a visita?"

O Povo da Deusa

Na mitologia irlandesa, de onde vêm muitas das nossas histórias celtas mais bem preservadas, os deuses eram conhecidos como os Tuatha Dé Danann. Esse nome significa o Povo da Deusa Danu. Eles não eram apenas seres poderosos que viviam no céu: eram vistos como uma raça antiga de pessoas que eram mestres da magia, da arte e da ciência.

Quando um novo grupo de humanos chegou à Irlanda, os Tuatha Dé Danann não simplesmente desapareceram. A lenda diz que eles usaram sua magia para se tornarem invisíveis e recuaram para dentro das colinas e montes da terra. Esses lugares são chamados de Sidhe (pronuncia-se 'shí'). Até hoje, algumas pessoas na Irlanda e na Escócia tomam cuidado para não perturbar certos montes de terra, só por precaução.

Lady Augusta Gregory

Os deuses não partiram para sempre: eles apenas se tornaram distantes e silenciosos.

Lady Augusta Gregory

Lady Gregory foi uma folclorista irlandesa que passou a vida visitando pequenas aldeias para registrar as histórias de pessoas idosas. Ela acreditava que os antigos mitos eram uma parte vital de quem somos hoje.

Esses deuses eram complicados. Eles nem sempre eram 'bons' ou 'ruins' da maneira que pensamos sobre os super-heróis de hoje. Eles podiam ser ciumentos, engraçados, sábios ou até rabugentos. O Dagda, por exemplo, era um poderoso deus-pai que possuía uma clava mágica que podia matar nove homens com uma ponta e trazê-los de volta à vida com a outra. Ele também tinha um caldeirão gigante onde a comida nunca acabava.

Imagine isso
Um gigante criando um rio com sua clava.

Imagine um gigante com uma enorme clava de madeira sendo arrastada atrás dele, deixando um sulco profundo na terra que se torna um novo rio. Ele usa uma túnica simples e tem uma barba tão grossa quanto uma floresta. Este é o Dagda: ele é desajeitado e poderoso, um deus da terra que ama a vida e a comida.

A Magia do Três

Se você observar as joias celtas antigas ou esculturas em pedra, notará uma forma que aparece repetidamente: o Trisquel (ou Triskelion). Este é um desenho com três espirais entrelaçadas. Para os Celtas, o número três era incrivelmente importante. Ele representava o equilíbrio e a maneira como diferentes partes da vida estão conectadas.

Eles viam o mundo em trios: terra, mar e céu. Também viam o tempo em três: passado, presente e futuro. Muitos de seus deuses tinham até três faces diferentes ou apareciam como três pessoas diferentes ao mesmo tempo. Isso nos mostra que eles não achavam que as coisas eram simples ou de um lado só. Eles acreditavam que, para algo ser completo, precisava de várias partes diferentes trabalhando juntas.

Mira

Mira says:

"Eu gosto da ideia do Trisquel. Ele me lembra que eu não sou apenas uma coisa só. Sou estudante, irmã e sonhadora, tudo ao mesmo tempo."

Muitos heróis celtas tinham que navegar por essas camadas triplas da realidade. Eles podiam ter uma missão física, como encontrar uma espada perdida, mas também tinham uma missão espiritual, como aprender a ser corajoso. O mundo estava cheio de símbolos, e tudo, desde um cervo branco até uma árvore de sorveira, podia ser uma mensagem do Outro Mundo.

Tente isso

Olhe ao redor do seu quarto ou do seu jardim. Você consegue encontrar três coisas que se unem para formar um todo? Talvez sejam as raízes, o tronco e as folhas de uma árvore, ou o início, o meio e o fim da sua música favorita. Os Celtas diriam que perceber esses padrões ajuda você a entender o ritmo do mundo.

Heróis, Gigantes e Conhecimento

Os mitos celtas estão cheios de heróis extraordinários. Um dos mais famosos é Finn MacCool, líder de um grupo de guerreiros chamado Fianna. Finn não era apenas forte: ele era incrivelmente sábio. Ele ganhou sua sabedoria por acidente quando era menino, enquanto cozinhava um peixe mágico chamado o Salmão do Conhecimento.

Você sabia?
Colunas de pedra hexagonais da Calçada dos Gigantes.

A Calçada dos Gigantes (Giant's Causeway), na Irlanda do Norte, é feita de 40.000 colunas de basalto que se encaixam. A ciência nos diz que foi formada por vulcões, mas a lenda diz que Finn MacCool a construiu como uma ponte para a Escócia para poder desafiar outro gigante!

As histórias de Finn costumam ser sobre a proteção da terra, mas também sobre a esperteza dos humanos. Em uma história famosa, Finn tem que enfrentar um gigante escocês chamado Benandonner. Em vez de usar sua espada, Finn e sua esposa Oonagh usam a inteligência para enganar o gigante, fazendo-o pensar que Finn é muito maior e mais forte do que realmente é.

W.B. Yeats

O mundo está cheio de coisas mágicas, esperando pacientemente que nossos sentidos fiquem mais aguçados.

W.B. Yeats

Yeats foi um poeta famoso que era fascinado pelo 'Crepúsculo Celta'. Ele acreditava que a magia não havia desaparecido: nós apenas precisávamos aprender a vê-la novamente.

Isso nos diz algo importante sobre como os Celtas viam o mundo. Embora a força importasse, a inteligência e a criatividade eram muitas vezes mais poderosas. Um herói não era apenas alguém que sabia manejar uma espada: era alguém que conseguia enxergar através de um truque ou contar uma história que mudava o que as pessoas sentiam.

O Outro Mundo e os Lugares Finos

Talvez a ideia mais bonita da mitologia celta seja o conceito do Outro Mundo. Ao contrário de algumas religiões onde o mundo dos espíritos fica longe, no céu ou nas profundezas da terra, o Outro Mundo celta estava bem aqui. Ele estava apenas um pouco fora de alcance, separado por um véu fino.

Mira

Mira says:

"Eu senti essa 'finura' uma vez quando estava caminhando no nevoeiro. Não parecia assustador: parecia que o mundo estava prendendo a respiração."

Havia certas épocas do ano e certos lugares onde esse véu se tornava muito fino. Esses lugares são frequentemente chamados de Lugares Finos. Um lago enevoado ao amanhecer, uma caverna escura ou uma floresta onde as árvores crescem em um círculo perfeito podem ser portais. O festival de Samhain (que acabou se transformando no Halloween) era a época do ano em que o véu era mais fino de todos.

Dois lados
A Visão Mítica

A mudança das estações é uma batalha entre a Rainha do Inverno e o Rei do Verão. O nevoeiro é um portal para outro mundo.

A Visão Científica

As estações são causadas pela inclinação da Terra enquanto ela orbita o sol. O nevoeiro é apenas vapor de água suspenso no ar perto do solo.

Durante o Samhain, os Celtas acreditavam que os espíritos dos ancestrais e o povo dos Sidhe podiam caminhar entre nós. Isso não era necessariamente assustador para eles: era um momento para lembrar que fazemos parte de uma história muito maior, que inclui pessoas que viveram há muito tempo e mistérios que não podemos explicar totalmente.

Através dos Tempos

A Jornada dos Mitos Celtas

500 AEC - 100 EC
A Idade do Ferro: A cultura celta se espalha pela Europa. As histórias são mantidas vivas através da tradição oral e da poesia falada.
400 EC - 1000 EC
A Era dos Manuscritos: Monges cristãos na Irlanda e no País de Gales começam a escrever os antigos mitos pela primeira vez.
Anos 1880 - 1920
O Renascimento Celta: Artistas e poetas como Yeats redescobrem essas histórias para ajudar as pessoas a se sentirem conectadas à natureza e ao passado.
Hoje
Fantasia Moderna: Autores e cineastas usam ideias celtas de fadas, druidas e mundos escondidos para criar novas histórias.

Ao longo dos séculos, a forma como vemos essas histórias mudou. Quando os Romanos chegaram, tentaram renomear os deuses celtas para combinar com os seus. Mais tarde, quando os monges cristãos começaram a escrever as histórias orais, às vezes transformavam os deuses em reis e rainhas do passado para que se encaixassem em novas ideias religiosas.

Mas a magia das histórias sobreviveu. Nos anos 1800, houve um grande 'Renascimento Celta', onde artistas e escritores como W.B. Yeats começaram a olhar para esses mitos em busca de inspiração. Eles sentiam que a vida moderna estava se tornando barulhenta e mecânica demais, e queriam reencontrar o encantamento silencioso e mágico das florestas antigas.

Joseph Campbell

Os mitos são sonhos públicos: os sonhos são mitos privados.

Joseph Campbell

Campbell foi um pensador que estudou histórias de todo o mundo. Ele acreditava que os símbolos nos mitos celtas são, na verdade, mapas para as nossas próprias mentes.

Hoje, você pode ver a influência da mitologia celta em todos os lugares. Desde os 'elfos' nos livros de J.R.R. Tolkien até os sistemas de magia em videogames, a ideia de um mundo mágico escondido vivendo ao lado do nosso continua a capturar nossa imaginação. Esses mitos nos lembram de olhar com mais atenção para o mundo ao nosso redor.

Algo para Pensar

Se você pudesse visitar o Outro Mundo por apenas um dia, qual seria a pergunta que você faria às pessoas que vivem lá?

Não existe resposta certa ou errada. Às vezes, a parte mais interessante de um mistério são as perguntas que ele nos faz criar.

Perguntas sobre Religião

Os Celtas foram pessoas reais?
Sim, eles foram muito reais! Eram um conjunto de tribos com línguas e costumes semelhantes que viveram durante a Idade do Ferro. Encontramos suas ferramentas, joias e até suas casas por toda a Europa hoje.
A mitologia celta é a mesma coisa que a mitologia irlandesa?
A mitologia irlandesa é uma parte importante da mitologia celta, mas não é a única. Também existem belas histórias celtas do País de Gales (encontradas em um livro chamado Mabinogion), da Escócia, da Bretanha e da Cornualha.
As pessoas ainda acreditam nesses deuses hoje?
Embora a maioria das pessoas os trate como histórias ou folclore, algumas pessoas ainda sentem uma conexão espiritual com os deuses celtas e o mundo natural. Muitas pessoas ainda respeitam os 'fortes de fadas' e as tradições antigas como uma forma de honrar sua herança.

Continue Procurando pelos Lugares Finos

A mitologia celta nos lembra que o mundo é muito maior do que aquilo que podemos ver com nossos olhos. Esteja você olhando para uma pedra com formato estranho ou para um padrão espiral em um riacho, sempre há uma história esperando para ser descoberta. Você não precisa de um mapa para encontrar o Outro Mundo: você só precisa de um pouco de imaginação.