Imagine o universo inteiro guardadinho dentro da casca de um único ovo gigante.
Por milhares de anos, as pessoas que viviam ao longo dos grandes rios da China usaram histórias chamadas Shenhua para explicar como o mundo funciona. Esses contos de deuses, dragões e macacos espertos não são apenas diversão: eles são uma maneira de entender o equilíbrio entre o céu, a terra e o coração humano.
Há muito tempo, nas vastas terras que hoje chamamos de China, as pessoas olhavam para as montanhas altíssimas e para o veloz Rio Amarelo e faziam as mesmas perguntas que você pode fazer hoje. De onde viemos? Por que a lua muda de forma? Quem é o responsável pela chuva?
Para responder a essas perguntas, elas construíram um mundo de histórias que ia das nuvens mais altas até os oceanos mais profundos. Essas histórias não ficavam guardadas em um único livro, mas eram passadas adiante através de canções, pinturas e sussurros de avós e avôs.
O Grande Nascimento
Antes de existir o sol ou a lua, havia apenas uma névoa espessa e rodopiante. Essa névoa se juntou em um Ovo Cósmico que repousou na escuridão por dezoito mil anos. Dentro do ovo, um gigante chamado Pangu estava crescendo, esperando o momento em que finalmente acordaria.
Quando Pangu finalmente quebrou a casca, as partes mais leves do ovo flutuaram para cima para se tornarem o céu. As partes mais pesadas e escuras afundaram para se tornarem a terra. Esse foi o primeiro momento de equilíbrio entre os céus e o chão sob nossos pés.
Feche os olhos e imagine Pangu no centro do mundo. Enquanto ele cresce, sua cabeça toca as nuvens e seus pés afundam na lama. O mundo é um canteiro de obras gigante, e ele é o único trabalhador, empurrando lentamente o teto do mundo para longe do chão.
Pangu ficou entre os dois, segurando o céu com as mãos enquanto seus pés pressionavam firmemente a terra. A cada dia ele ficava mais alto e, a cada dia, o céu se afastava mais. Ele ficou assim por mais dezoito mil anos, até ter certeza de que o céu nunca mais cairia.
Quando Pangu finalmente se cansou e se deitou para descansar, seu corpo começou a se transformar no mundo que conhecemos. Seu hálito tornou-se o vento, sua voz tornou-se o trovão e seu olho esquerdo tornou-se o sol. Seu olho direito tornou-se a lua, e seu sangue fluiu para formar os grandes rios.
Finn says:
"Se o suor de Pangu se tornou a chuva e seus piolhos se tornaram os animais, eu me pergunto no que os sonhos dele se transformaram?"
A Lama e as Estrelas
Mesmo com as montanhas e os rios no lugar, o mundo parecia um pouco silencioso demais. Uma deusa chamada Nuwa, que tinha o corpo de mulher e cauda de dragão, caminhava pelas margens do Rio Amarelo. Ela amava a beleza do mundo, mas sentia-se sozinha e queria alguém com quem conversar.
Ela se ajoelhou à beira do rio e começou a moldar pequenas figuras com o barro amarelo. Assim que ela as colocava no chão, elas ganhavam vida, dançando e gritando de alegria. Esses foram os primeiros seres humanos, criados da própria terra da China.
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O coração da compaixão é a semente da humanidade.
Nuwa percebeu que fazer cada pessoa à mão levaria muito tempo. Ela pegou uma longa videira, mergulhou-a na lama e a sacudiu no ar. Cada gota de lama que caía no chão se transformava em uma pessoa, enchendo o mundo de vida e risadas.
Nuwa não apenas criou as pessoas: ela também as salvou. Quando os pilares que sustentavam o céu se quebraram durante uma grande batalha entre deuses, ela derreteu cinco pedras coloridas para remendar o buraco nos céus. Ela é um lembrete de que o mundo é frágil, mas sempre pode ser consertado com cuidado.
Alguns dizem que Nuwa criou os humanos porque estava sozinha e queria que o mundo tivesse o som de vozes e risadas.
Outros acreditam que o mundo precisava dos humanos para serem os cuidadores da terra, agindo como uma ponte entre os deuses e os animais.
O Escritório Celestial
Se você entrasse em uma escola movimentada ou em um prédio do governo, veria pessoas com tarefas específicas para fazer. Os antigos contadores de histórias chineses imaginavam que o céu funcionava exatamente da mesma forma. Esse sistema é frequentemente chamado de Burocracia Celestial, onde cada deus tem um título e uma lista de responsabilidades.
No topo deste escritório celestial senta-se o Imperador de Jade. Ele não é um deus que criou o universo, mas sim um governante sábio que conquistou sua posição através da bondade e do estudo. Ele acompanha tudo o que acontece na terra, desde as maiores guerras até os menores atos de honestidade.
Mira says:
"É engraçado pensar no céu como um escritório gigante. Eu me pergunto se o Imperador de Jade se cansa de tanta papelada!"
Abaixo do Imperador de Jade estão deuses para quase tudo o que você possa imaginar. Existe um Deus da Riqueza, uma Deusa do Mar e até um Deus da Cozinha que vive na sua casa. O Deus da Cozinha observa como a família se comporta o ano todo e depois viaja ao céu para dar um relatório ao Imperador de Jade.
Essa ideia de um governo celestial refletia a maneira como a sociedade chinesa foi organizada por séculos. Isso sugere que o universo não é apenas um acidente caótico. Em vez disso, é um lugar ordenado onde todos, desde um deus até uma criança, têm um papel a desempenhar para manter tudo funcionando bem.
Dizem que o Deus da Cozinha adora doces. Todos os anos, antes de ele ir ao céu relatar sobre a família, as pessoas costumam passar mel ou arroz grudento nos lábios de sua estátua de papel. A esperança é que suas palavras sejam doces, ou que seus dentes fiquem tão grudados que ele não consiga dizer nada de ruim!
A Grande Rebelião
Nem todo personagem na mitologia chinesa gosta de seguir as regras da burocracia. O mais famoso desses rebeldes é Sun Wukong, mais conhecido como o Rei Macaco. Nascido de uma pedra, ele aprendeu a mudar de forma, voar em nuvens e lutar com um bastão mágico que podia mudar de tamanho.
O Macaco era incrivelmente esperto, mas também era muito orgulhoso e um tanto bagunceiro. Ele até tentou dominar o céu, dizendo ao Imperador de Jade que ele é quem deveria mandar. Isso levou a uma famosa série de aventuras contadas no livro Jornada ao Oeste.
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O mito é a abertura secreta através da qual as energias inesgotáveis do cosmos jorram sobre a cultura humana.
Com o tempo, o Macaco teve que aprender que poder não é o mesmo que sabedoria. Ele recebeu a tarefa de proteger um monge em uma jornada perigosa para encontrar pergaminhos sagrados. Através dessa jornada, ele aprendeu sobre lealdade e como usar sua força para os outros, em vez de apenas para si mesmo.
Sua história é uma das mais amadas do mundo porque ele é muito humano. Ele comete erros, fica bravo e adora pregar peças, mas também tem o potencial de se tornar alguém grandioso. Ele representa a energia inquieta que existe dentro de todos nós.
O Rei Macaco pode se transformar em 72 formas diferentes, incluindo um templo, uma árvore ou até um inseto minúsculo. Se você pudesse se transformar em qualquer coisa para resolver um problema hoje, o que seria? Desenhe-se como esse objeto e pense em qual poder especial essa forma lhe daria.
Dragões e o Sopro da Água
Em muitas histórias ocidentais, os dragões são monstros assustadores que vivem em cavernas e cospem fogo. Na mitologia chinesa, o dragão é uma criatura de maravilha, sabedoria e água. Eles não têm asas, mas se movem pelo ar como fitas de seda flutuando no vento.
Os dragões são os governantes dos oceanos, dos lagos e da chuva. Quando você vê uma nuvem de tempestade carregada, um contador de histórias pode dizer que um dragão está espreguiçando suas escamas. Eles representam o poder da natureza: às vezes suaves como uma chuva de primavera, e às vezes ferozes como uma inundação de verão.
Finn says:
"Eu gosto que os dragões sejam a chuva. Faz uma tempestade parecer a visita de um amigo gigante voador, em vez de apenas tempo ruim."
Por muito tempo, o dragão foi o símbolo do Imperador Chinês. Acreditava-se que um líder verdadeiramente grande governava com o Mandato do Céu, o que significava que ele tinha a bênção dos deuses. Se um Imperador fosse injusto ou cruel, o povo acreditava que os dragões reteriam a chuva como um sinal de que era hora de mudar.
Essa conexão entre a natureza e a liderança é uma parte importante do pensamento chinês. Ela ensina que os seres humanos não estão separados do mundo ao seu redor. Se quisermos que nossas vidas sejam equilibradas, temos que respeitar os rios, as montanhas e as criaturas que vivem neles.
Através das Eras
Vivendo com os Mitos
Você pode pensar que essas histórias são apenas história antiga, mas elas ainda estão muito vivas. Todos os anos, milhões de pessoas celebram o Ano Novo Lunar. Elas podem realizar a dança do dragão para trazer boa sorte ou soltar fogos de artifício para assustar uma fera lendária chamada Nian.
Até a maneira como pensamos sobre o tempo no Zodíaco chinês vem da mitologia. A lenda diz que o Imperador de Jade realizou uma grande corrida para todos os animais. A ordem em que eles terminaram determinou qual ano seria batizado com o nome deles, e é por isso que temos o Ano do Rato, do Tigre e do Dragão.
Em muitos mitos chineses, as pessoas não apenas morrem: elas podem se tornar 'imortais'. Isso geralmente acontece ao comer um Pêssego da Imortalidade mágico do jardim da Rainha Mãe do Ocidente. Esses pêssegos só amadurecem uma vez a cada três mil anos, tornando-os o lanche mais raro do universo.
A mitologia chinesa não pede que você acredite em magia como uma série de fatos. Em vez disso, ela convida você a ver o mundo como um lugar cheio de conexões ocultas. Ela usa a ideia de Yin e Yang para mostrar que opostos como luz e escuridão, ou barulho e silêncio, precisam um do outro para existir.
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O Tao que pode ser dito não é o Tao eterno.
Quando lemos sobre o sacrifício de Pangu ou a jornada do Rei Macaco, estamos olhando para um espelho. Essas histórias nos ajudam a pensar sobre quem queremos ser e como nos encaixamos no gigante ovo rodopiante do universo. Elas nos lembram que, embora o mundo seja grande, nossa curiosidade é ainda maior.
Algo para Pensar
Se lhe pedissem para escrever um relatório para o Imperador de Jade sobre como o mundo está hoje, o que você diria?
Não existem respostas erradas aqui. Você pode falar sobre as coisas bonitas que viu, as coisas que precisam de conserto ou as dúvidas que ainda tem sobre como tudo se encaixa.
Perguntas sobre Religião
A mitologia chinesa é uma religião?
Por que os dragões chineses são diferentes dos dragões europeus?
O Rei Macaco existiu de verdade?
A História Sem Fim
A mitologia chinesa nos lembra que o mundo é mais do que apenas o que podemos ver. É um lugar de mudança constante, onde gigantes se tornam montanhas e macacos podem desafiar os céus. Ao olhar para as estrelas esta noite, lembre-se dos olhos de Pangu e imagine quais outras histórias estão esperando para serem contadas.