Você já olhou para um rio e se perguntou onde a água começou e onde ela vai terminar?

Por milhares de anos, as pessoas no sul da Ásia usaram histórias para explorar as perguntas mais profundas da vida. Essa coleção de sabedoria antiga, muitas vezes chamada de Mitologia Hindu, oferece uma maneira de olhar para o mundo como um lugar de ciclos infinitos, escolhas corajosas e uma conexão oculta entre todos os seres vivos. Ela faz parte de uma tradição viva conhecida como Sanatana Dharma, ou o caminho eterno.

A Terra dos Cinco Rios

Para entender essas histórias, temos que viajar mais de 5.000 anos no tempo até as margens do Rio Indo. Isso fica em uma parte do mundo que hoje chamamos de Índia e Paquistão. As pessoas que viviam lá construíram cidades grandiosas com casas de tijolos e sistemas inteligentes de drenagem. Elas não construíram apenas com pedras, elas construíram com sons.

Imagine isso
Crianças sentadas sob uma grande figueira-de-bengala na Índia antiga.

Imagine uma sala de aula sem livros, sem lápis e sem tablets. Em vez disso, você se senta sob uma figueira-de-bengala gigante. Seu professor canta um longo poema, e você o repete até que o ritmo more no seu coração. Foi assim que as histórias hindus mais antigas foram mantidas em segurança por mais de mil anos.

Essas pessoas, e os grupos que as seguiram, desenvolveram uma tradição de cânticos. No início, elas não escreviam suas histórias. Em vez disso, memorizavam milhares de linhas de poesia e as passavam de mestre para aluno. Isso garantiu que as histórias permanecessem vivas na voz humana por séculos antes de tocarem o papel.

Esses textos antigos são chamados de Vedas. Eles descrevem o mundo natural como sendo cheio de espírito e poder. O vento, o fogo e a chuva não eram apenas o clima: eram vistos como personagens com seus próprios humores e responsabilidades. Esse foi o começo de um mapa que ajudou as pessoas a navegarem pelo mistério de estar vivo.

O Um e o Todo

Uma das ideias mais complexas da mitologia hindu é que tudo no universo faz parte de uma única realidade. Essa realidade suprema é chamada de Brahman. Pense nisso como o oceano: cada pessoa, animal e estrela individual é como uma única gota de água. Embora as gotas pareçam separadas, todas são feitas do mesmo oceano.

Joseph Campbell

A mitologia não é uma mentira: é poesia. É metafórica. Já foi dito que a mitologia é a penúltima verdade: penúltima porque a última não pode ser colocada em palavras.

Joseph Campbell

Campbell foi um estudioso famoso que dedicou sua vida a estudar histórias de todo o mundo. Ele acreditava que os mitos são como uma linguagem que usamos para falar sobre coisas que são grandes demais para palavras comuns.

Como Brahman é grande demais para a mente humana entender completamente, as histórias nos dão muitos deuses e deusas diferentes para representar partes dele. Alguns deuses representam a sabedoria, alguns a força e outros a natureza bagunçada e mutável do tempo. É uma maneira de dividir um mistério gigante em partes menores e mais fáceis de entender.

Finn

Finn says:

"Se tudo faz parte do mesmo Brahman, isso significa que até um pernilongo e uma montanha são meio que irmãos?"

Isso significa que, quando alguém reza para um deus específico, está na verdade se conectando com uma qualidade específica do universo. Se você precisar de ajuda para aprender, pode recorrer a Saraswati, a deusa da música e das artes. Se estiver enfrentando um grande obstáculo, pode pensar em Ganesha, o deus com cabeça de elefante que ajuda a abrir caminhos.

A Dança dos Três

Nesses mitos, o universo não tem um único começo e fim. Em vez disso, ele se move em um círculo gigante. Para explicar como esse círculo funciona, as histórias apresentam três figuras principais conhecidas como o Trimurti. Cada uma tem um trabalho específico para manter o universo em movimento.

  1. Brahma é o Criador, que sonha o mundo à existência.
  2. Vishnu é o Preservador, que intervém para manter as coisas equilibradas e justas.
  3. Shiva é o Destruidor, que limpa o que é velho para que algo novo possa começar.

Dois lados
O Medo da Mudança

A destruição é o fim de tudo. É triste e assustador porque as coisas que amamos desaparecem.

A Perspectiva de Shiva

A destruição é apenas limpar o palco. Você não pode desenhar uma imagem nova até ter uma folha de papel limpa.

Esse ciclo pode parecer um pouco estranho se estivermos acostumados a pensar no tempo como uma linha reta. Mas, se você olhar para a natureza, tudo se move em círculos. As estações se repetem todos os anos; a lua cresce e diminui; as árvores deixam cair suas folhas apenas para crescerem novas na primavera. A destruição de Shiva não pretende ser assustadora; é uma parte necessária para abrir espaço para a próxima criação de Brahma.

Quando o Mundo Precisa de Ajuda

Às vezes, o equilíbrio do mundo pende demais para o lado do caos ou da injustiça. Na mitologia hindu, é nesse momento que Vishnu decide visitar a Terra. Quando ele faz isso, assume uma forma física chamada de Avatar. É um pouco como um jogador entrando em um videogame escolhendo um personagem específico.

Você sabia?
Uma ilustração simbólica de uma divindade descendo à Terra.

A palavra 'Avatar' vem da palavra sânscrita 'Avatara', que significa 'descer'. Muito antes de ser um filme ou uma imagem de perfil na internet, ela descrevia um deus descendo à Terra para ajudar os humanos.

Existem dez avatares famosos de Vishnu, que variam de um peixe gigante a um príncipe corajoso. Dois dos mais famosos são Rama e Krishna. Suas vidas são contadas em dois poemas épicos gigantescos: o Ramayana e o Mahabharata. Essas não são apenas histórias de aventura: são guias sobre como viver uma vida boa.

Mahatma Gandhi

A verdade é o objetivo final: e o caminho para ela é através do Dharma.

Mahatma Gandhi

Gandhi foi um líder que usou meios pacíficos para ajudar a Índia a se tornar independente. Ele lia o Bhagavad Gita todos os dias para ajudá-lo a decidir como agir com coragem e bondade.

No Ramayana, o Príncipe Rama precisa resgatar sua esposa, Sita, de um rei demônio de dez cabeças. Ao longo do caminho, ele nos ensina sobre o Dharma, que significa fazer a coisa certa mesmo quando é incrivelmente difícil. É a ideia de que todos temos um dever específico com nossa família, nossos amigos e o mundo ao nosso redor.

A Escolha do Herói

O Mahabharata é muito mais longo e complicado. Ele conta a história de uma grande guerra entre dois grupos de primos. No meio da batalha, o herói Arjuna se sente triste e confuso. Ele não quer lutar contra sua própria família. Seu condutor de carruagem, que na verdade é o deus Krishna disfarçado, para o tempo para conversar com ele.

Essa conversa é um livro famoso chamado Bhagavad Gita. Krishna explica que nem sempre podemos controlar o que acontece conosco, mas podemos controlar como agimos. Ele sugere que a melhor maneira de viver é fazer o seu trabalho com todo o coração, sem se preocupar se você receberá uma recompensa. Essa é uma maneira bem diferente de pensar sobre o sucesso.

Mira

Mira says:

"Eu gosto da ideia de fazer algo só porque é o certo, e não porque você quer um troféu. Faz a parte de 'fazer' parecer mais importante do que a parte de 'vencer'."

Arjuna aprende que ser um herói nem sempre significa vencer. Às vezes, ser um herói significa ter a coragem de enfrentar uma situação onde não há respostas fáceis. A mitologia não esconde o fato de que a vida é difícil: ela apenas nos dá ferramentas para continuar caminhando em meio à dificuldade.

Poder e Sabedoria: As Deusas

Embora os deuses sejam muito importantes, as histórias dizem que eles não teriam nenhum poder sem a Devi, ou a Grande Deusa. As deusas representam Shakti, que é a energia pura que faz tudo acontecer. Sem energia, nem mesmo um deus pode se mover.

  • Durga é uma guerreira que monta um tigre e carrega armas para proteger o mundo.
  • Lakshmi traz luz e prosperidade, lembrando-nos de sermos gratos pelo que temos.
  • Kali representa o poder selvagem e indomável do tempo e da mudança.

Você sabia?
Ganesha escrevendo com sua presa quebrada.

Ganesha é frequentemente mostrado com uma presa quebrada. A lenda diz que ele mesmo a quebrou para usar como caneta, para que pudesse terminar de escrever a enorme história do Mahabharata sem parar.

Essas figuras mostram que o poder vem de muitas formas. Às vezes é o poder silencioso do amor de uma mãe, e às vezes é o poder feroz de uma tempestade. Ao incluir muitos tipos diferentes de deusas, a mitologia sugere que cada pessoa tem qualidades gentis e fortes dentro de si.

Animais como Professores

Uma das partes mais bonitas desses mitos é como eles tratam os animais. Muitos deuses têm um Vahana, ou um animal especial que eles montam. Isso mostra um profundo respeito pelo mundo natural. Sugere que os humanos não são as únicas criaturas importantes no planeta.

Finn

Finn says:

"E se a 'força oculta' de Hanuman for algo que todos nós temos? Talvez a gente só precise de um amigo para nos lembrar de dar aquele primeiro grande salto."

Veja Hanuman, o deus macaco. Ele é um dos personagens mais queridos porque representa a devoção total e a força oculta. Ele uma vez esqueceu o quão poderoso era até que seus amigos o lembraram. Essa história nos lembra que todos temos forças interiores que podemos ter esquecido ou que ainda não descobrimos.

Através dos Tempos

3300 a.C.
A Civilização do Vale do Indo floresce, criando as primeiras raízes culturais dessas histórias.
1500 a.C.
Os Vedas são compostos e cantados, focando nos poderes da natureza como o fogo e o vento.
500 a.C.
Os grandes épicos, o Ramayana e o Mahabharata, começam a ganhar forma como poemas épicos.
400 d.C.
Os Puranas são escritos, dando-nos as histórias detalhadas de deuses como Ganesha e Durga.
Dias Atuais
Esses mitos são compartilhados globalmente através de festivais como Diwali e Holi, e através de novas mídias.

Através dos Tempos

Essas histórias sobreviveram por milhares de anos porque são flexíveis. Elas não estão gravadas em pedra; mudaram conforme o mundo mudava. No passado, as pessoas apresentavam essas histórias através da dança e de bonecos de sombra. Hoje, você pode encontrá-las em histórias em quadrinhos, filmes de animação e até videogames.

Ditado Indiano Antigo

Dentro de mitos infinitos reside a verdade eterna. Quem vê tudo? Varuna tem apenas mil olhos, Indra tem cem, e eu, apenas dois.

Ditado Indiano Antigo

Este verso tradicional é frequentemente usado por mitólogos modernos como Devdutt Pattanaik. Ele nos lembra que nenhuma pessoa sozinha consegue ver toda a verdade: cada um de nós vê apenas uma pequena parte do quadro geral.

A mitologia é como um rio. A água está sempre se movendo, mas o próprio rio permanece no mesmo lugar. Os detalhes das histórias podem mudar dependendo de quem as conta, mas as grandes ideias — sobre dever, amor e o mistério do tempo — permanecem as mesmas. Elas continuam a ajudar as pessoas a dar sentido às suas vidas, não importa onde vivam.

Tente isso

A próxima vez que você estiver lá fora, tente encontrar um círculo na natureza. Pode ser os anéis dentro de um tronco de árvore, uma teia de aranha ou a maneira como uma flor se abre. A mitologia hindu sugere que, se olharmos de perto para esses círculos, podemos entender o ritmo de todo o universo.

Ao explorar essas histórias, você pode notar que elas nem sempre fornecem uma "moral" simples no final. Em vez disso, muitas vezes terminam com uma pergunta ou uma situação complicada. Elas nos convidam a pensar por nós mesmos e a encontrar nosso próprio lugar no grande ciclo do mundo.

Algo para Pensar

Se você fosse um avatar enviado para ajudar o mundo hoje, que qualidade você traria com você?

Não há resposta certa para isso: alguns podem trazer coragem, outros podem trazer humor ou a habilidade de ouvir. Pense no que você sente que o mundo mais precisa agora.

Perguntas sobre Religião

Existem realmente milhões de deuses hindus?
Ditados tradicionais mencionam 330 milhões de deuses, mas essa é uma forma de dizer que o divino é infinito. A maioria dos hindus vê essas muitas formas como diferentes maneiras de se conectar com uma única realidade suprema chamada Brahman.
Qual é a diferença entre um mito e uma mentira?
Uma mentira serve para enganar, mas um mito serve para revelar uma verdade profunda sobre a natureza humana. Mitos usam símbolos e histórias para explicar coisas que são difíceis de descrever apenas com fatos e números.
Por que Ganesha tem cabeça de elefante?
Existem várias histórias, mas a mais famosa envolve Shiva substituindo a cabeça de Ganesha pela de um elefante para trazê-lo de volta à vida. Simbolicamente, o elefante representa grande sabedoria, força e a capacidade de remover obstáculos.

A História Continua com Você

A mitologia hindu não é um livro terminado: é uma conversa que acontece há milhares de anos. Toda vez que você pensa em seu dever para com os outros, ou se pergunta sobre os ciclos da natureza, você está tocando as mesmas ideias que os pensadores antigos ponderavam à beira do rio. A maravilha dessas histórias é que elas não nos falam apenas sobre o passado: elas nos dão um espelho para nos vermos mais claramente hoje.