E se, por um único dia, todas as regras sobre ficar limpo e ser educado fossem completamente apagadas?
Por toda a Índia e pelo mundo, milhões de pessoas celebram o Holi, um festival que transforma cidades em nuvens de pó neon. Embora pareça apenas uma festa gigante, é, na verdade, um antigo ritual de renovação e uma celebração da natureza bagunçada e imprevisível de estar vivo.
Imagine que você está em uma praça poeirenta no norte da Índia, há quase dois mil anos. O ar está começando a esquentar depois de um longo e silencioso inverno. O chão está seco, mas as árvores começam a mostrar os primeiros e minúsculos sinais de verde.
Este é o momento do Equinócio de Primavera, quando o dia e a noite têm exatamente a mesma duração. Para os povos antigos, este era um momento de grande tensão. As plantações cresceriam este ano? A comunidade sobreviveria a mais uma estação?
Imagine o pôr do sol em uma noite fresca de março. Uma enorme pilha de galhos secos e folhas está no centro da aldeia. Quando a primeira tocha toca a madeira, as chamas alaranjadas rugem para o alto, espelhando as estrelas. Todos ficam em círculo, sentindo o calor no rosto, observando o 'ano velho' virar fumaça e cinzas.
Para lidar com essa incerteza, as pessoas não ficavam apenas sentadas esperando. Elas criaram um festival que funcionava como um gigantesco botão de 'reiniciar' para a sociedade. Chamaram-no de Holi, um nome que ecoa através de séculos de poesia, arte e contação de histórias.
O Menino que Manteve sua Posição
Todo grande festival tem uma história que funciona como seu coração. Para o Holi, essa história é sobre um jovem chamado Prahalad e seu pai, um rei chamado Hiranyakashipu. O rei era um homem que acreditava ser mais poderoso do que os próprios deuses.
Ele exigia que todos em seu reino adorassem apenas a ele. Mas Prahalad se recusou. Ele tinha um tipo diferente de certeza, uma voz interior silenciosa que lhe dizia que havia algo muito maior e mais misterioso do que o ego de seu pai.
Finn says:
"Se Prahalad não teve medo do fogo, será que ele sabia de algo que o Rei não sabia? Talvez estar 'certo' aqueça mais do que um xale gigante."
Este desentendimento tornou-se uma batalha de vontades. O rei tentou assustar o filho, mas Prahalad permaneceu calmo. Finalmente, a irmã do rei, Holika, ofereceu ajuda. Ela tinha um xale mágico que a tornava imune ao fogo.
Ela se sentou em uma enorme fogueira com Prahalad no colo, esperando que o menino fosse destruído. Mas as lendas dizem que o vento mudou de direção. O xale voou da tia e envolveu o menino, protegendo-o enquanto ela desaparecia nas chamas.
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A lua e o sol são os mesmos. O mundo inteiro é um só. No meio do fogo, a verdade permanece sem queimar.
É por isso que, na noite anterior à saída das cores, pessoas por toda a Índia acendem fogueiras enormes. Elas chamam este ritual de Holika Dahan. É uma forma de queimar o ano 'velho', as mágoas que guardamos e as partes de nós mesmos que parecem frias ou travadas.
A Ciência da Primavera
Embora as histórias sejam mágicas, o Holi também está profundamente conectado à terra. Antigamente, as cores que as pessoas jogavam não eram feitas em fábricas. Elas vinham do 'armário de remédios' do mundo natural.
O amarelo vinha da cúrcuma, uma raiz que cura a pele. O vermelho vinha de flores de hibisco trituradas ou sândalo. O verde era feito das folhas da árvore de neem, que combate germes.
Na antiga Índia, a cor 'azul' usada no Holi vinha frequentemente da planta Indigo. O Indigo era tão valioso que era chamado de 'Ouro Azul' e era trocado em todo o mundo. As pessoas não estavam apenas jogando tinta: estavam jogando tesouros!
Quando as pessoas jogavam esses pós umas nas outras, elas estavam, na verdade, 'vacinando' a comunidade. Como as estações mudavam do frio para o calor, as pessoas costumavam ficar doentes. Esses pós de ervas ajudavam a proteger a pele e os corpos contra os vírus da primavera.
Era uma forma brilhante de combinar cuidados de saúde com uma festa gigante. Você não estava apenas se sujando: estava ficando saudável. Isso nos lembra que, em muitas culturas antigas, o corpo e o espírito eram vistos como uma coisa só.
Mira says:
"É engraçado como usavam cúrcuma para ficar saudáveis enquanto festejavam. É como se o remédio deles estivesse escondido dentro de uma brincadeira de pegar!"
O Grande Igualador
Uma das ideias mais radicais do Holi é o conceito de igualdade. Durante a maior parte da história, as sociedades foram muito rígidas sobre quem podia falar com quem. Havia reis e servos, pais e filhos, ricos e pobres.
Mas durante o Holi, essas regras são suspensas. Quando todos estão cobertos por camadas espessas de pó roxo, verde e vermelho, você não consegue dizer quem é rico ou quem é pobre. Não dá para saber qual é o trabalho de alguém ou quanto dinheiro a pessoa tem.
O Holi é uma forma de quebrar as regras da sociedade para que todos possam se sentir iguais por um dia, facilitando o cumprimento das regras no resto do ano.
O Holi é uma forma de lembrar que o mundo físico é apenas um 'brincar' (Lila) e que nosso verdadeiro eu está além de nossos nomes e empregos.
Este é um estado temporário de caos, mas é um caos saudável. Ele permite que as pessoas se vejam como seres humanos, em vez de títulos ou cargos. É um dia em que o mundo se torna um campo de jogo nivelado.
Em algumas partes da Índia, existe até uma tradição onde as mulheres perseguem os homens de brincadeira com bastões. Esse era um momento raro em que o equilíbrio de poder habitual da época era virado de cabeça para baixo. Servia como uma válvula de segurança para a sociedade, liberando a pressão para que todos pudessem viver juntos em paz depois.
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O mesmo fluxo de vida que corre em minhas veias noite e dia corre pelo mundo e dança em compassos rítmicos.
O Brincar dos Deuses
Com o passar dos séculos, outra camada foi adicionada ao Holi: a história de Krishna. Krishna é frequentemente descrito como o deus do brincar, ou Lila. Ele representa a ideia de que o universo não é apenas uma máquina séria: é também um jogo.
Krishna era famoso por ser um pouco brincalhão. Ele adorava provocar as garotas da aldeia, especialmente sua amiga Radha. A legenda diz que ele estava preocupado que sua própria pele azul escura fizesse com que Radha não gostasse dele, então sua mãe sugeriu que ele passasse cor no rosto dela para deixá-los mais parecidos.
Pense em alguém com quem você teve uma pequena discussão recentemente. Se você estivesse em um festival Holi, poderia oferecer a essa pessoa um doce ou um punhado de cor como uma forma de dizer: 'A briga acabou'. Você consegue encontrar uma pequena maneira hoje de 'reiniciar' um relacionamento sem usar palavras?
Isso transformou o Holi no 'Festival do Amor'. Mudou o foco de apenas queimar o que é ruim (a fogueira) para celebrar o que é belo (as cores). Ensinou às pessoas que a vida espiritual nem sempre precisa ser silenciosa e solene.
Às vezes, a melhor maneira de se conectar com o divino é rir, dançar e ficar absolutamente coberto de tinta. Essa ideia de 'brincar sagrado' é uma parte muito especial da filosofia indiana. Sugere que, se nos levarmos a sério demais, podemos perder o sentido de estar vivo.
O Holi Através dos Tempos
A Arte do Perdão
Existe uma frase muito ouvida durante o festival: 'Bura na mano, Holi hai!'. Isso se traduz como: 'Não se ofenda, é Holi!'. É um pedido para que todos deixem de lado a raiva e o ego por um dia.
No nosso mundo moderno, passamos muito tempo tentando ser perfeitos. Queremos que nossas roupas estejam limpas, nosso cabelo arrumado e nossas fotos nas redes sociais pareçam impecáveis. O Holi é o oposto total disso.
Mira says:
"Se todo mundo parece um arco-íris no fim do dia, será que nossas diferenças eram apenas 'fantasias' que estávamos usando o tempo todo?"
É um dia que celebra o efêmero, que é uma palavra sofisticada para coisas que não duram. As cores vão sair no banho. A festa vai acabar. A fogueira vai virar cinza. Mas a sensação de estar conectado a todos ao seu redor permanece.
Ao final do dia, quando o sol começa a se pôr, as ruas estão manchadas de água e pó. As pessoas vão para casa se lavar e, enquanto as cores descem pelo ralo, há uma sensação de ser 'novo' de novo. É uma limpeza psicológica tanto quanto física.
O Holi é celebrado de formas diferentes por toda a Índia! Em Bengala Ocidental, chama-se 'Dol Jatra' e envolve colocar ídolos de Krishna em um balanço. No estado de Punjab, chama-se 'Hola Mohalla', onde as pessoas mostram suas habilidades em artes marciais e poesia.
Por Que Ainda Celebramos?
Hoje, o Holi viajou muito além das fronteiras da Índia. Você pode encontrar festivais de Holi em Londres, Nova York e Sydney. Mas mesmo que você não seja hindu, a 'Grande Ideia' do Holi é algo de que todos precisamos.
Todos precisamos de um momento para perdoar as pessoas que nos irritaram. Todos precisamos de um tempo para celebrar o fato de que o inverno acabou. E, o mais importante, todos precisamos lembrar que, por baixo de nossas roupas e origens diferentes, somos todos feitos da mesma essência humana.
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Nossa capacidade de alcançar a unidade na diversidade será a beleza e o teste da nossa civilização.
Ao pensar nas cores do Holi, lembre-se de que elas não servem apenas para decoração. Elas são um lembrete de que a vida é vibrante, bagunçada e está em constante mudança. Se tentarmos ficar perfeitamente limpos o tempo todo, podemos nunca aprender a dançar de verdade.
Algo para Pensar
Se você pudesse escolher uma cor para representar seu 'eu interior' hoje, qual seria?
Pense no porquê de ter escolhido essa cor. É uma cor que as pessoas conseguem ver ou uma que você mantém escondida? Não existem cores certas ou erradas na paleta da mente.
Perguntas sobre Religião
O Holi é apenas para hindus?
Por que as pessoas comem doces específicos como Gujiya?
O pó é seguro para o meio ambiente?
O Mundo é Sua Tela
Esteja você acendendo uma fogueira ou apenas notando a primeira flor da primavera, o espírito do Holi está sempre disponível. É a coragem de dizer 'não' à injustiça, a humildade de perdoar e a sabedoria de saber que, às vezes, a coisa mais importante que você pode fazer é se sujar de alegria.