Se você quisesse explicar como o mundo começou, usaria um livro de ciências ou uma história?

Por milhares de anos, centenas de nações indígenas em toda a América do Norte usaram a mitologia para entender seu lugar no universo. Estes não são apenas contos de "faz de conta": eles são uma forma de viver em harmonia com a terra, os animais e o "Grande Mistério" que conecta todas as coisas.

A Grande Biblioteca do Ar

Imagine uma biblioteca sem livros. Em vez de papel e tinta, as histórias são guardadas no fôlego dos anciãos, no ritmo dos tambores e nos padrões de um cinturão de contas.

Antes dos colonizadores europeus chegarem, a América do Norte era o lar de milhões de pessoas que falavam centenas de línguas diferentes. Cada grupo, desde os Inuit no norte gelado até os Navajo no deserto, tinha sua própria maneira única de explicar o mundo.

Você sabia?
Um mapa colorido da América do Norte com vários padrões indígenas.

Existem mais de 570 nações tribais reconhecidas federalmente nos Estados Unidos hoje, e centenas de outras no Canadá. Cada uma tem sua própria cultura e histórias distintas!

Essas histórias eram compartilhadas através da tradição oral, passadas de pessoa para pessoa por milhares de anos. Isso significava que as histórias estavam vivas: elas podiam crescer, mudar e se adaptar dependendo de quem estava ouvindo e do que a comunidade precisava ouvir.

Uma história contada ao redor de uma fogueira no inverno era mais do que entretenimento. Era um mapa de como se comportar, uma história dos antepassados e uma forma de manter o mundo em equilíbrio.

Mira

Mira says:

"Eu percebi como a história sobre o casco da tartaruga combina com o formato da América do Norte no mapa! Será que é por isso que chamam de Ilha da Tartaruga?"

O Nascimento da Ilha da Tartaruga

Muitas nações, incluindo os Haudenosaunee (Iroqueses) e os Anishinaabe, compartilham uma história sobre um lugar chamado Ilha da Tartaruga. Eles acreditam que, há muito tempo, o mundo estava coberto por águas profundas e os únicos seres eram pássaros e animais aquáticos.

Na história da Mulher do Céu, um ser cai de um buraco no céu. Para salvá-la, a Grande Tartaruga oferece suas costas como um lugar para ela descansar, mas ela precisa de terra para fazer as coisas crescerem.

Imagine isso
Um bravo rato-almiscarado nadando com um punhado de lama.

Imagine que você é o Rato-almiscarado. A água está fria e escura como breu. Você não consegue ver nada, mas sente um pouquinho de lama entre suas garras. Você a segura com todas as suas forças enquanto nada de volta para a superfície, onde a luz brilha.

Um por um, os animais tentam mergulhar até o fundo do oceano para trazer um pouco de lama. A poderosa mobelha falha; o castor veloz falha; até o grande peixe não consegue chegar ao fundo.

Finalmente, o pequeno rato-almiscarado respira fundo e desaparece na água escura. Quando ele finalmente flutua de volta, traz uma minúscula partícula de terra em sua pata: o suficiente para começar um mundo.

Alce Negro (Hehaka Sapa)

O poder do mundo sempre trabalha em círculos, e tudo tenta ser redondo.

Alce Negro (Hehaka Sapa)

Alce Negro foi um famoso homem sagrado dos Oglala Lakota. Ele acreditava que os círculos representavam a harmonia natural da vida, desde o formato do sol até a maneira como as pessoas deveriam viver juntas.

Tudo Está Vivo

Se você caminhar por uma floresta, pode ver uma rocha como um objeto silencioso e imóvel. Mas em muitas mitologias indígenas, aquela rocha é uma pessoa: um "Povo de Pedra" com sua própria história e espírito.

Essa ideia é frequentemente chamada de animismo. É a crença de que tudo na natureza, desde o vento e os rios até os ursos e os cedros, possui uma alma e um propósito.

Tente isso

Vá lá fora e encontre um objeto da natureza: uma pedra, uma folha ou um graveto. Em vez de apenas olhar para ele, tente imaginar que ele tem um 'espírito'. Se este objeto pudesse lhe contar uma coisa sobre o dia dele, o que ele diria?

Como tudo está vivo, os humanos não são os "donos" do mundo. Em vez disso, somos apenas uma parte de uma família gigante. Isso significa que, quando um caçador abate um cervo, ele geralmente oferece uma oração de agradecimento ao espírito do animal por ter dado sua vida.

É uma forma de olhar para o mundo onde nada é "lixo" e nada é "extra". Tudo tem um lugar à mesa, e todos têm um trabalho a fazer para manter o círculo da vida girando.

Finn

Finn says:

"Se tudo tem um espírito, isso significa que minha árvore favorita de escalar sabe meu nome? Ou que o vento está tentando me contar um segredo?"

O Problema com os Trapaceiros

Por que o mundo é tão bagunçado? Por que existem mosquitos, ou por que a lua às vezes é fininha e outras vezes gorda? Para responder a essas perguntas, muitas nações olham para o Trapaceiro (ou Trickster).

No Noroeste do Pacífico, o Trapaceiro costuma ser o Corvo. Nas Grandes Planícies, é o Coiote. Na região dos Grandes Lagos, é frequentemente um coelho chamado Nanabozho.

Dois lados
O Trapaceiro como Herói

Trapaceiros como o Corvo são frequentemente heróis porque roubam coisas como o fogo ou o sol de espíritos egoístas para dá-los aos humanos.

O Trapaceiro como Aviso

Os Trapaceiros também são avisos: eles nos mostram o que acontece quando você é muito ganancioso ou não pensa nas consequências de suas ações.

Os Trapaceiros são personagens complicados. Eles não são "vilões" ou "maus", mas também não são exatamente heróis. Eles são gananciosos, curiosos, engraçados e muito, muito espertos.

Às vezes, um Trapaceiro cria algo bonito por acidente. Outras vezes, ele tenta roubar o sol só porque está entediado. Eles nos lembram que a vida é cheia de surpresas e que até os erros podem levar a algo importante.

Robin Wall Kimmerer

Em algumas línguas indígenas, o termo para plantas se traduz como 'aqueles que cuidam de nós'.

Robin Wall Kimmerer

Robin Wall Kimmerer é uma cientista e membro da Nação Citizen Potawatomi. Ela escreveu isso para explicar que os humanos não são as coisas mais importantes da Terra: na verdade, dependemos das plantas para tudo.

O Grande Mistério

Embora existam muitos espíritos e personagens diferentes, muitas nações também acreditam em uma força criativa central. Os Lakota chamam isso de Wakan Tanka, que é frequentemente traduzido como o "Grande Mistério" ou o "Grande Espírito".

Isso não é uma pessoa sentada em uma nuvem. É mais como um poder que flui através de tudo, como o vento ou o calor do sol. É a razão pela qual as sementes crescem e as estrelas permanecem no céu.

Finn

Finn says:

"E se o Grande Mistério for apenas aquele sentimento que você tem quando olha para uma montanha muito grande e se sente pequeno, mas de um jeito bom?"

Entender o Grande Mistério não significa ter todas as respostas. Na verdade, muitos pensadores indígenas acreditam que algumas coisas foram feitas para continuar sendo um mistério. Parte de ser humano é aprender a se sentir confortável com o que não sabemos.

Em vez de tentar "resolver" o universo como um problema de matemática, esses mitos nos convidam a contemplar a maravilha. Aprendemos a ouvir o mundo ao nosso redor, em vez de apenas falar sobre ele.

Você sabia?
Uma casa longa tradicional Haudenosaunee.

A palavra 'Haudenosaunee' significa 'Povo da Casa Longa'. Suas histórias costumam enfatizar como muitas famílias diferentes podem viver juntas sob o mesmo teto em paz.

O Círculo do Tempo

Em muitas histórias ocidentais, o tempo é como uma linha reta: tem começo, meio e fim. Mas na mitologia indígena, o tempo é frequentemente visto como um círculo ou um ciclo.

Assim como as estações retornam todos os anos, muitas histórias sugerem que o passado, o presente e o futuro estão acontecendo ao mesmo tempo. Os antepassados ainda estão aqui, e as crianças que ainda não nasceram já fazem parte da história.

Luther Urso Em Pé

O Lakota era um amante da natureza. Ele não queria domesticá-la: queria fazer parte dela.

Luther Urso Em Pé

Luther Urso Em Pé foi um chefe Lakota e autor que queria que o mundo entendesse que o 'selvagem' não era algo ruim. Para ele, a natureza era um lar, não um lugar para ser conquistado.

Essa forma de pensar muda a maneira como você age. Se você acredita que seus tataranetos estão observando você agora, pode ser mais cuidadoso com a forma como trata a água ou o solo. Você não está vivendo apenas para o hoje: está vivendo para todo o círculo.

A Jornada das Histórias

Antes de 1492
As histórias florescem na tradição oral por todo o continente, guiando como as pessoas vivem em harmonia com seus ambientes específicos.
Anos 1800 - 1900
As culturas indígenas sofrem pressão para desaparecer. As crianças são muitas vezes enviadas para 'escolas internatos' onde são punidas por falar suas línguas ou contar seus mitos.
Anos 1960 - 1970
O movimento 'Red Power' leva a uma revitalização da cultura. Anciãos e jovens trabalham juntos para registrar histórias orais e proteger terras sagradas.
Dias Atuais
A mitologia indígena é compartilhada através de livros, graphic novels e videogames como 'Never Alone', mantendo a sabedoria antiga relevante para uma nova geração.

Uma Tradição Viva

Por muito tempo, pessoas de fora das comunidades indígenas tentaram impedir que essas histórias fossem contadas. Eles achavam que os mitos eram "antiquados" ou "primitivos". Mas as histórias foram mais fortes do que as pessoas que tentaram silenciá-las.

Hoje, escritores, artistas e cineastas indígenas estão usando essas ideias antigas para criar coisas novas. Eles estão provando que uma história sobre um Corvo ou uma Tartaruga é tão importante em um mundo de smartphones quanto era em um mundo de fogueiras.

Esses mitos não são "história" no sentido de que acabaram. Eles fazem parte de uma cultura viva que continua a nos ensinar como ser melhores parentes da terra e uns dos outros.

Algo para Pensar

Se você tivesse que escolher uma história da sua própria vida para manter viva por mil anos, qual seria?

Não existem respostas certas ou erradas. Algumas histórias são importantes porque são engraçadas, outras porque são tristes e algumas porque nos ajudam a lembrar quem somos.

Perguntas sobre Religião

Os mitos indígenas são apenas como contos de fadas?
Não exatamente. Enquanto contos de fadas são muitas vezes apenas para diversão, esses mitos são considerados sagrados e verdadeiros pelas pessoas que os contam. Eles são mais como uma combinação de livro de história, lição de ciências e texto religioso.
Por que tribos diferentes têm versões diferentes da mesma história?
Porque as histórias viajam! Assim como uma brincadeira de 'telefone sem fio', as histórias mudam conforme se movem pela terra. Cada tribo também adapta a história para se adequar ao seu lar específico: a história de uma tribo do deserto pode envolver um coiote, enquanto a versão de uma tribo costeira pode envolver uma baleia.
Está tudo bem eu contar essas histórias se eu não for indígena?
É importante ser respeitoso. Muitas histórias pertencem a famílias ou nações específicas. A melhor maneira de apreciá-las é ler versões escritas ou contadas pelos próprios autores indígenas, o que garante que a história seja compartilhada da maneira que deveria ser.

Ouvindo a Terra

A mitologia indígena nos ensina que o mundo é muito maior e mais misterioso do que costumamos perceber. Ao ouvir essas histórias, aprendemos a olhar para as árvores, os animais e até as estrelas como nossos parentes. Na próxima vez que estiver lá fora, reserve um momento para ficar em silêncio: você pode descobrir que o mundo tem uma história que quer lhe contar.