Você já caminhou por uma floresta e sentiu como se as árvores estivessem observando você, ou ficou perto do oceano e sentiu um profundo e repentino respeito pela água?

Esse sentimento de admiração está no coração do Xintoísmo (Shinto), uma tradição antiga do Japão que nos ensina a ver o mundo como um lugar cheio de espíritos sagrados chamados kami.

Imagine estar em uma costa rochosa há milhares de anos. As ondas quebram contra as pedras e o vento assobia através dos pinheiros.

Para os primeiros habitantes do Japão, esses não eram apenas eventos físicos. Eram sinais de vida.

Imagine isso
Paisagem japonesa antiga com pessoas olhando para as montanhas.

Imagine os primeiros habitantes chegando ao Japão. Eles veem vulcões gigantes, florestas densas e ilhas que parecem emergir da névoa. Eles não pensaram: 'Eu sou dono desta terra'. Eles pensaram: 'Esta terra está viva.'

O Caminho dos Kami

A palavra Xintoísmo (Shinto) significa o caminho dos deuses. Mas não é exatamente como as religiões que você conhece.

Não tem um único fundador, nem um livro sagrado como uma Bíblia, e nem uma lista rigorosa de regras a seguir. Em vez disso, é uma maneira de notar o mundo.

Finn

Finn says:

"Se um kami é a 'essência' de algo, e se meu agasalho velho favorito tivesse um kami? Definitivamente tem um certo sentimento nele!"

No centro do Xintoísmo está a ideia de kami. Um kami é frequentemente traduzido como deus ou espírito, mas essas palavras não capturam bem a essência.

Um kami é a essência ou a energia de algo que nos faz sentir uma sensação de admiração. Pode ser uma montanha, uma tempestade, uma cachoeira ou até mesmo uma pedra particularmente bonita.

Motoori Norinaga

Seja o que for, sejam pássaros, animais, plantas e árvores, mares e montanhas... que são extraordinários, que possuem poder superior ou que são admiráveis, eles são chamados de kami.

Motoori Norinaga

Norinaga foi um estudioso do século XVIII que passou a vida tentando entender as histórias japonesas mais antigas. Ele queria explicar que um kami não é necessariamente uma pessoa com um rosto, mas qualquer coisa que faça seu coração parar por um momento em admiração.

Onde os Espíritos Vivem

Como os kami estão em todos os lugares, o mundo inteiro é um lugar sagrado. No entanto, as pessoas construíram edifícios especiais chamados jinja, ou santuários, para dar aos kami um lugar para descansar.

Quando você visita um santuário, geralmente passa por um portão torii. Esta é uma estrutura simples e bonita que marca a fronteira entre o mundo comum e o mundo sagrado.

Você sabia?
Um portão torii vermelho na água.

Os famosos portões torii vermelhos são frequentemente pintados nessa cor porque se acreditava que a cor cinábrio (um vermelho-alaranjado vivo) protegia contra espíritos malignos e má sorte.

Passar sob o portão é um sinal para a sua mente. Diz a você para desacelerar, deixar as preocupações para trás e se preparar para encontrar algo especial.

Dentro do terreno do santuário, você pode ver uma corda grossa feita de palha de arroz chamada shimenawa. Essa corda é frequentemente enrolada em árvores antigas ou pedras grandes.

Mira

Mira says:

"As cordas ao redor das árvores me lembram que não estamos apenas olhando para a natureza, estamos dentro dela. Não estamos separados da floresta."

Essas cordas nos dizem que um kami vive ali. É uma forma de dizer: esta árvore é mais do que apenas madeira: é uma presença viva que merece nosso respeito.

A Importância da Pureza

No Xintoísmo, as pessoas não acreditam que os humanos nascem com pecado. Em vez disso, acreditam que todos nascem com um coração naturalmente bom e brilhante.

Com o tempo, podemos acumular kegare, que significa impureza ou uma espécie de poeira que cobre nosso brilho interior. Isso acontece quando somos egoístas, quando sentimos tristeza ou quando estamos perto de coisas que estão em decomposição.

Tente isso

Da próxima vez que você se sentir frustrado ou com a mente 'turva', tente lavar o rosto com água fria. Enquanto faz isso, imagine a água levando a irritação e deixando seu 'coração brilhante' por baixo.

Para se livrar dessa poeira, o Xintoísmo usa rituais de purificação, chamados harae. A forma mais comum é simples: você lava as mãos e a boca com água limpa antes de entrar em um santuário.

Não se trata de estar sujo de uma forma física. Trata-se de limpar a mente e se sentir renovado e novo novamente.

Inazo Nitobe

O Xintoísmo não tem dogma, nem teologia, nem escritura. É uma religião do coração e uma religião do lar.

Inazo Nitobe

Nitobe foi um escritor que queria explicar a cultura japonesa para o resto do mundo. Ele acreditava que o Xintoísmo não era algo que se aprendia em um livro, mas algo que se sentia ao cuidar da família e respeitar o ambiente.

Vivendo com as Estações

O Xintoísmo está profundamente ligado às mudanças das estações do ano. A vida é vista como um ciclo de nascimento, crescimento e renovação.

Quando as estações mudam, as comunidades realizam um Matsuri, ou festival. Estes são eventos barulhentos, coloridos e alegres, onde o kami local é carregado pelas ruas em um santuário portátil.

Você sabia?
Um espírito amigável da floresta ao lado de uma grande árvore.

Você já viu filmes como 'Meu Amigo Totoro' ou 'A Viagem de Chihiro'? O diretor, Hayao Miyazaki, usa muitas ideias do Xintoísmo. Os espíritos gigantes da floresta e a forma como os personagens respeitam a natureza são inspirados no Xintoísmo.

Há música, dança e muita comida. A ideia é que o kami aproveita a celebração tanto quanto as pessoas.

É uma forma de agradecer pela colheita ou pedir proteção nos meses que virão. O Xintoísmo não pede que você se esconda do mundo, ele pede que você celebre fazer parte dele.

Finn

Finn says:

"Eu gosto da ideia de que podemos simplesmente 'lavar' nossos dias ruins com água. Faz o mundo parecer que está sempre nos dando uma segunda chance."

Misturando-se com Outras Ideias

Cerca de 1.500 anos atrás, outra grande ideia chegou ao Japão: o Budismo. Em muitos lugares, religiões diferentes poderiam lutar, mas no Japão, elas cresceram juntas.

O Xintoísmo focava no mundo em que vivemos agora e na beleza da natureza. O Budismo focava na mente, na alma e no que acontece depois que morremos.

Dois lados
Alguns dizem...

O Xintoísmo é uma religião porque envolve santuários, espíritos e rituais que as pessoas praticam há milhares de anos.

Outros dizem...

O Xintoísmo é apenas 'o jeito japonês de viver'. É um conjunto de hábitos culturais e uma forma de sentir sobre a natureza que qualquer um pode compartilhar.

A maioria das pessoas no Japão descobriu que podia praticar as duas coisas. Elas poderiam ir a um santuário xintoísta para celebrar um nascimento e a um templo budista para lembrar um antepassado.

Essa mistura mostra como o Xintoísmo é flexível. Não se trata de estar certo ou errado, mas de encontrar o que ajuda você a viver uma vida boa e harmoniosa.

A Jornada do Xintoísmo

300 AEC
Os primeiros habitantes do Japão começam a praticar rituais para honrar os espíritos da terra e da colheita.
712 EC
O Kojiki é escrito. É uma coleção de mitos sobre a criação do Japão e os diferentes kami.
800 - 1800 EC
O Xintoísmo e o Budismo coexistem. A maioria dos santuários tinha templos budistas bem ao lado.
1868 EC
O governo japonês torna o Xintoísmo a religião oficial do estado por um breve período para unificar o país.
Dias Atuais
O Xintoísmo é uma escolha pessoal. Milhões de pessoas visitam santuários todos os anos para encontrar paz e celebrar a vida.

O Fio da Conexão

Uma das ideias mais bonitas do Xintoísmo é o musubi. Este é o poder da criação e da conexão que une tudo.

É a energia que faz uma semente crescer e virar uma árvore. É também a conexão entre você e seus pais, ou você e um amigo que você ainda não conheceu.

Okakura Kakuzo

A arte de viver reside em um constante reajuste aos nossos arredores.

Okakura Kakuzo

Kakuzo era um filósofo que amava a beleza de coisas simples, como uma xícara de chá ou uma única flor. Ele sentia que o espírito do Xintoísmo era sobre ser flexível e viver em harmonia com o mundo à medida que ele muda todos os dias.

Mesmo hoje, no meio de cidades movimentadas como Tóquio, você encontrará pequenos santuários escondidos entre arranha-céus. Você pode ver um executivo parar por dez segundos para se curvar a um kami antes de ir para o seu escritório.

O Xintoísmo nos lembra que, não importa o quão moderno o mundo se torne, ainda estamos conectados à terra. Fazemos parte de uma história muito antiga e muito grande que ainda está sendo escrita.

Algo para Pensar

Se você tivesse que encontrar um 'kami' no seu próprio bairro — algo que faz você sentir uma sensação de admiração ou respeito silencioso — o que seria?

Não há resposta certa ou errada. Pode ser uma árvore específica, um parque, ou até mesmo a maneira como a luz bate em um certo prédio.

Perguntas sobre Religião

Os xintoístas acreditam em um Deus como no Cristianismo?
Não exatamente. Em vez de um único Deus que criou o universo, o Xintoísmo foca em milhares de 'kami' que fazem parte do universo. Eles são espíritos que vivem dentro da natureza, em vez de governá-la de cima.
Por que as pessoas batem palmas em um santuário xintoísta?
As pessoas geralmente se curvam duas vezes, batem palmas duas vezes e depois se curvam mais uma vez. Bater palmas é uma forma de acordar o kami ou chamar sua atenção, mostrando que você chegou e está pronto para demonstrar seu respeito.
O Xintoísmo é apenas para pessoas no Japão?
Embora o Xintoísmo tenha começado no Japão e esteja profundamente ligado à sua terra, suas ideias principais — respeitar a natureza, buscar a pureza e viver com admiração — são coisas que qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, pode apreciar.

O Mundo Está Bem Acordado

O Xintoísmo nos convida a olhar para o mundo como se ele estivesse vivo e respirando. Sugere que não somos apenas visitantes neste planeta, mas parte de uma família enorme e interconectada de espíritos. Quer você esteja em um santuário em Kyoto ou em um parque na sua cidade natal, sempre há uma chance de parar, se curvar e notar o brilho do mundo ao seu redor.